Bug do milénio

Há 20 anos entrámos no ano novo com medo de um "bicho" que não apareceu

Há 20 anos entrámos no ano novo com medo de um "bicho" que não apareceu

A chegada do ano 2000 criou uma onda de pânico coletiva, gerou receio em governos e empresas e fez o primeiro-ministro de então, António Guterres, passar a meia-noite num centro operacional de informações. Tudo por causa do "bug" do milénio, que ameaçou os sistemas informáticos.

Na contagem decrescente para a meia-noite de 31 de dezembro de 1999, foi o então ministro da Presidência Jorge Coelho a fazer a contagem decrescente no Centro Operacional de Informações do Governo, nas Picoas, em Lisboa. Também lá estavam o primeiro-ministro António Guterres e o ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago.

O "bug 2000", "bug do milénio" ou "bug Y2K" justificou esta passagem de ano invulgar. Tinha sido feito um investimento de 20 milhões de contos (cerca de cem mil euros) na Administração Pública na modernização e reconversão de aplicações informáticas, outro tanto no setor privado. EDP, Portugal Telecom, Proteção Civil, Navegação Aérea, etc. todos os serviços de relevo a nível nacional estavam de prevenção.

5, 4, 3, 2, 1... "'Há luz', exclamou o ministro da Presidência. 'E há telemóveis!', acrescentou Mariano Gago", noticiou então o JN, num artigo da jornalista Inês Cardoso.

Portugal entrou em 2000 sem qualquer "apagão" ou "regresso ao passado", à semelhança do que aconteceu nos países que entraram mais cedo no novo ano. A "cobaia" que centrou todas as atenções foi a Nova Zelândia, por ter sido o primeiro país industrializado a testar o "bug do milénio" (quando em Lisboa ainda eram 12 horas de dia 31). Sem registo de anomalias, o que deu alguma confiança ao resto do mundo. Com o avançar dos fusos horários, as missões diplomáticas portuguesas no estrangeiro também iam dando boas notícias.

Mesmo assim, nos dois dias que antecederam o novo ano, os portugueses acorreram ao Multibanco, dando origem a extensas filas e a esgotar o dinheiro em muitos terminais. Muitos precaveram-se e guardaram o comprovativo do saldo disponível...

Mas, afinal, que "bug" foi este?

"Bug" (inseto, em inglês) é um termo vulgarmente utilizado no setor da informática para designar um erro de lógica na programação de um determinado software.

No caso do "bug do milénio" estava em causa a passagem do ano de 1999 para 2000. Isto porque nos sistemas informáticos mais antigos (que utilizavam por exemplo linguagem COBOL) as datas eram armazenadas apenas com referência aos dois últimos dígitos, ficando implícito que faltava o "19". Por exemplo, 01/01/77 remetia na verdade para 01/01/1977.

Esta "técnica" de omitir dois dígitos teve a ver com a necessidade de poupar espaço de memória e armazenamento de informação. Assim, em vez de uma data ocupar oito bytes (dois para o dia, dois para o mês e quatro para o ano), ocupava seis (retirando dois dígitos ao ano).

Com a passagem de 1999 para 2000, os sistemas informáticos mais antigos iriam assumir "19" mais "00", ou seja, 1900. A maioria dos consumidores particulares com computadores já tinha equipamentos da década de 90, com sistemas "imunes" ao "bug". O maior receio estava em grandes empresas e instituições que ainda mantinham em funcionamento programas antigos, pela sua estabilidade e confiança. Houve por isso uma modernização em massa dos recursos informáticos, não só do software como também de hardware.

O "bug" assustou mas acabou por revelar-se "inofensivo". Não foi um falso problema, foi um problema superado graças a muitos meses de esforço e trabalho preventivo, salientou o então ministro da Ciência Mariano Gago.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG