Espanha

Colher para aplicar no telemóvel com "app" de imagens 3D gera polémica

Colher para aplicar no telemóvel com "app" de imagens 3D gera polémica

Uma colher que se "aplica" no telemóvel associada a uma aplicação que projeta animações em 3D é a proposta de uma marca de papas infantis para pôr fim à luta diária de muitas famílias à hora das refeições. Mas a ideia não é consensual.

Para solucionar as dificuldades que alguns pais enfrentam na hora de dar de comer ao seu bebé, a Nutribén apresentou a colher "NutriSpoon" como a solução para a hora da refeição ser divertida, tanto para os pais como para os filhos.

A "NutriSpoon" é uma colher cujo cabo que habitualmente se pega com a mão tem um encaixe para introduzir o telemóvel. Há ainda uma aplicação móvel ("app") que se pode instalar e usar para projetar imagens em 3D na hora de comer. A ideia é substituir o habitual "aviãozinho" - movimentar a colher em direção à boca do bebé ao mesmo tempo que ele se distrai - por imagens digitais que são projetadas. A "app" tem quatro tipos de animações a três dimensões que, refere o anúncio, vai deixar o bebé "de boca aberta".

Igualmente de "boca aberta", mas de espanto e indignação, ficaram muitos dos que viram o vídeo promocional na passada quinta-feira e depressa divulgaram nas redes sociais comentários incrédulos de que o produto era mesmo verdadeiro. "Estamos todos loucos?", "Como disse Einstein, há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana", "Aberração completa", "Quando o bebé deixa de ser o centro das atenções e passa a ser hipnotizado para alimentar-se" são alguns dos comentários dirigidos à Nutribén.

Tal foi a "revolta" que a Nutribén veio esclarecer que a NutriSpoon é uma realidade mas ainda não está a ser comercializada. "É um protótipo testado", sublinhou a marca de papas na sua página de Twitter, acrescentando que "foi desenvolvido por uma equipa multidisciplinar de engenheiros, programadores e psicólogos". Com a onda de indignação a avolumar-se, publicou posteriormente um comunicado no qual alega que "a única intenção da campanha era promover a discussão sobre a alimentação infantil".

As recomendações das principais associações pediátricas e os estudos mais recentes sobre os efeitos da exposição aos ecrãs digitais na primeira infância advertem sobre os efeitos prejudiciais nos primeiros dois anos de vida. A sociedade canadiana de pediatria recomendou, em 2017, que até aos dois anos os bebés não deviam ser expostos a ecrãs digitais. Esta sociedade salienta que os bebés e crianças mais pequenas "aprendem intensamente através da interação cara a cara com os seus pais e cuidadores" e que as "primeiras aprendizagens são mais fáceis, mais enriquecedoras e mais eficazes (...) em tempo e espaço real com pessoas reais".

A Academia Americana de Pediatria faz recomendação idêntica para crianças até aos 18 meses. Um estudo apresentado no ano passado no congresso da Sociedade Norte-americana de Pediatria, em São Francisco, indicou que por cada meia hora de tempo com um dispositivo móvel portátil (tablet e/ou smartphone) na primeira infância, há 49% mais de probabilidade de sofrer um atraso na fala.

O neuropsicólogo espanhol Álvaro Bilbao defende que os ecrãs deviam estar vedados às crianças até aos três anos. Os estímulos rápidos e as recompensas imediatas dos "tablets" e dos "smartphones" matam a curiosidade, avisa no livro "O cérebro da criança explicado aos pais".

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