Saúde

Há uma onda anti-vacinas no Facebook onde reina a desinformação

Há uma onda anti-vacinas no Facebook onde reina a desinformação

Uma pesquisa com a palavra "vacinas" no Facebook pode contribuir para a desinformação das pessoas? Jornalistas de todo o Mundo dizem que sim. Há cada vez mais notícias, páginas e grupos naquela rede social a promover a rejeição da vacinação. Incluindo em Portugal.

"Consciência sobre vacinas", "movimento da verdade sobre vacinas", "movimento de resistência às vacinas". Irlanda. "Especialista em vacinas do Governo conta a verdade", "centenas de pessoas lutam para preservar o direito de não vacinar crianças", "por que é que os defensores de vacinas são pessoas tão más?". Reino Unido, Austrália. Estados Unidos. "Vacinação: decisão informada e direito à escolha", "Vacinas - por uma escolha consciente", "O lado obscuro das Vacinas". Portugal, Brasil.

Estes são apenas alguns dos resultados das buscas de um movimento de jornalistas de vários países no Facebook, com a palavra-chave "vacinas". Ao contrário do que esperavam, as primeiras informações remetem para páginas e grupos de discussão - na maior parte não oficiais - sobre a necessidade ou não da vacinação, assim como notícias sobre o tema, alegando que este tipo de prevenção pode ser prejudicial à saúde.

"Os resultados de pesquisa não são um bom sinal", afirma Ciarán Mc Mahon, um jornalista irlandês. "Facebook é uma das empresas que está a destruir o modelo de negócios do jornalismo australiano e quebra as leis australianas todos os dias", diz outro, da Austrália. "O Facebook está a promover teorias da conspiração loucas de anti-vacinas", acusa um jornalista britânico. "Este é o mal do Facebook", remata outro. "Uma pesquisa sobre vacinas dá resultados brutais para quem se preocupa com a saúde, segurança e/ou verdade", conclui o jornalista norte-americano Nicholas Thompson, editor-chefe da revista Wired.

Comité de Informações dos EUA reagiu

Além dos jornalistas, que criticam a rede social por privilegiar as notícias anti-vacinas em vez de informações mais fidedignas acerca do assunto, também o presidente do Comité de Informações da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, Adam Schiff, reagiu à polémica.

O político norte-americano fez uma publicação na sua página do Twitter, na quarta-feira, seguindo o modelo que se tornou viral nas publicações dos jornalistas naquela rede social. A acompanhar um "print screen" (captura de ecrã) em que mostra os resultados da sua pesquisa, Adam Schiff escreveu: "Na semana passada, escrevi ao Facebook e à Google para expressar a minha preocupação sobre o facto de os sites direcionarem os utilizadores para informações pouco credíveis que desincentivam a vacinação, prejudicando a saúde pública. Os resultados obtidos com a palavra "vacinas" no Facebook são uma ilustração dramática".

Na pesquisa de Schiff, aparecem sugestões de frases como "fórum de discussão de reeducação de vacinação", um grupo chamado "Pais contra a vacinação" e a página Centro Nacional de Informação de Vacinas, uma organização que parece ser oficial mas que promove a propaganda anti-vacinas.

Num artigo sobre o tema, o jornal britânico "The Guardian" explica que, apesar de os resultados de pesquisa do Facebook serem personalizados para cada utilizador, as respostas são praticamente as mesmas ao criar uma conta nova na rede social.

Resposta radical do Pinterest?

Em reação à polémica dos resultados de pesquisa sobre "vacinas" - que além do Facebook atingiu o YouTube -, outra rede social, o Pinterest (partilha de fotografias), decidiu tomar uma posição que pode até ser considerada "radical". A empresa começou por retirar apenas alguns resultados de pesquisas de termos relacionados com vacinas, mas acabou mesmo por deixar de responder à palavra-chave, sabotando a própria ferramenta de pesquisa.

Agora, ao pesquisar por "vacinas", o único resultado obtido é uma página em branco com a frase "Sorry, we couldn't find any Pins for this search", ou em português "Desculpe, não conseguimos encontrar nenhum resultado para esta pesquisa", explicando que "pessoas denunciaram respostas" à palavra-chave.

"Somos uma plataforma onde as pessoas procuram inspiração e não há nada de inspirador em conteúdos que são prejudiciais", afirmou ao "The Guardian" Ifeoma Ozoma, gestor de políticas públicas e impacto social do Pinterest. "A nossa plataforma não serve para isso", acrescentou. Apesar de a rede social ter bloqueado os resultados de pesquisa no Reino Unido, o mesmo não acontece ainda em Portugal.

Com uma pesquisa no site em português, é possível obter resultados de imagens associadas a vacinas, embora não se encontre o mesmo tipo de conteúdos de propaganda que o Facebook apresenta.

"Segurança é uma prioridade para nós"

Contactada pelo JN, fonte oficial do Facebook explicou que "qualquer coisa que ameace a segurança de nossa comunidade é uma prioridade". "Trabalhamos ativamente em várias frentes para impedir que conteúdo falso e enganoso receba ampla distribuição no Facebook. O conteúdo anti-vacinas é qualificado para verificação de factos e estamos a trabalhar em cada vez mais formas de detetá-lo e resolvê-lo com eficiência", explicou.

A empresa acrescenta ainda que "o conteúdo anti-vacinas não recebe uma distribuição relativamente ampla no feed de notícias ou na plataforma em geral, mas pode aparecer em grupos e em pesquisas". Uma das soluções do Facebook para combater o problema é tentar "reduzir ou remover esse tipo de conteúdo das recomendações, incluindo nas sugestões para "Grupos em que deve participar", e rebaixá-lo nos resultados de pesquisa, além de garantir a disponibilidade de informações com mais qualidade e mais autoridade". A rede social está a fazer um "esforço extra" para controlar "conteúdos de saúde enganosos e de baixa qualidade por causa do dano potencial para as pessoas e sociedade".

"A longo prazo, estamos a trabalhar para remover das recomendações o conteúdo de saúde que pode ser prejudicial e reduzir a sua distribuição nas pesquisas e no feed de notícias. É importante notar que nem todos os grupos "anti-vacinas" são iguais - alguns são grupos de estilo de vida para discutir medicina holística/alternativa, outros são grupos de discussão em que as pessoas apenas expressam opiniões, e assim por diante, embora alguns sirvam certamente para espalhar informações desacreditadas e prejudiciais", alerta o Facebook.

Em conclusão, a empresa reconhece que, "tal como acontece com grande parte do conteúdo" com que o empresa lida "na área cinzenta da integridade", é um desafio "encontrar o equilíbrio entre possibilitar a livre expressão de opinião e garantir a segurança da comunidade". "Temos mais trabalho, mas estamos totalmente comprometidos em fazer o que é necessário", assegurou.

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