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Uso crescente de plástico contribui para as alterações climáticas

Uso crescente de plástico contribui para as alterações climáticas

O plástico faz parte do nosso dia-a-dia há dezenas de anos, mas é uma ameaça crescente ao nosso futuro. Estudos recentes concluíram que está a contribuir para as alterações climáticas. E de três formas diferentes, desde a origem à dispersão.

Segundo dados da associação ambientalista Quercus, em 2017, os portugueses descartaram 721 milhões de garrafas de plástico, 259 milhões de copos de café, mil milhões de palhinhas e 40 milhões de embalagens de "fast food". Nos 28 países da União Europeia, foram 46 mil milhões de garrafas e 16 mil milhões de copos de plástico, números da "Sea at Risk".

"Os tipos de plástico mais comummente usados, como o polietileno, de que são feitas as garrafas, libertam gases que contribuem para o efeito de estufa quando expostos à radiação solar", disse Luís R. Vieira, biólogo e Investigador Auxiliar no Centro Interdisciplinar de Pesquisa Marinha e Ambiental (CIIMAR), em Matosinhos.

Publicado na revista PLoS ONE, o citado estudo, "Production of methane and ethylene from plastic in the Environment", liderado pela oceanógrafa Sarah-Jeanne Royer, adverte para a necessidade de dar prioridade a estas questões. Devido à grande quantidade de plástico produzido e à longevidade no ambiente, os gases produzidos pela degradação deste material podem ter impacto importante na concentração de gases com efeito de estufa.

Os plásticos representam 80% do lixo marinho, a sujidade das praias e no mar. Deste, 70% está debaixo de água, longe dos olhos. À superfície estão apenas 30% do problema, cuja face mais visível são as as grandes ilhas de plástico, a primeira das quais descoberta em 1997, pelo capitão Charles Moore.

Estas "sopas de plástico" bloqueiam a entrada da luz nos ecossistemas aquáticos, e afetam o fitoplâncton, organismos responsáveis pela remoção de cerca de metade do dióxido de carbono, um dos gases que mais contribuiu para o efeito de estufa no planeta. "Estes processos poderão, ainda, contribuir para o aumento das "zonas mortas" dos oceanos, com muito pouco oxigénio, com consequências graves para a vida marinha", acrescenta Luís R. Vieira, que também desenvolve investigação no Laboratório de Ecotoxicologia (ECOTOX), no Departamento de Estudos de Populações, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. "Novas simulações, baseadas no aumento do plástico no Atlântico, indicam que essas ilhas também poderão formar-se no Atlântico Sul e Norte", adverte.

A contribuição do plástico para as alterações climáticas ocorre ainda a outro nível, na origem. A produção de plásticos, que começou há cerca de 70 anos, e cresce a cada década, consome cerca de 8% do petróleo mundial. Da extração ao produto final há uma cadeia poluidora que atira para a atmosfera gases com efeito de estufa. "Um terço das emissões diretas vem da produção de plástico e derivados", sintetiza aquele investigador. Por cada 100 gramas de plástico produzido, são emitidas cerca de 517 gramas de dióxido de carbono, segundo dados da Agência de Proteção do Ambiente (EPA, na sigla original), dos EUA.

"A solução é acabar com o plástico descartável", diz Luís R. Vieira, que abordou o tema na palestra "Novos desafios num mundo em mudança: lixo marinho e alterações climáticas. Apresentada na inauguração da exposição "Faz da mudança a tua praia", no Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental (CMIA), em Matosinhos, a palestra visou "incentivar a reflexão crítica e a consciencialização" de dois problemas emergentes no mundo, a contaminação ambiental por plásticos e as alterações climáticas.

O problema dos plásticos coloca-se em duas escalas: macro, de que são exemplos maiores a poluição, e micro, que comporta outros riscos para os seres humanos. A degradação do plástico contribuiu para a produção dos microplásticos e já foram identificadas partículas destas, inferiores a 5 mm, na água, no ar e nos animais.

Recentemente, uma equipa de investigadores austríacos encontrou microplásticos nas fezes de oito indivíduos de oito países diferentes, da Europa à Ásia. "Não é uma surpresa", comenta Luís R. Vieira. "Já tinha sido teorizado, mas nunca tinha sido definido. Houve uma equipa que teve a coragem de fazer essa investigação", acrescenta, enaltecendo o estudo apresentado por Philipp Schwabl, investigador da Unidade de Gastroenterologia e Hematologia na Universidade Médica de Viena.

Para agravar o problema, há estudos que dão como provado cientificamente que os microplásticos adsorvem concentrações significativas de poluentes químicos, por exemplo fármacos e metais pesados como o mercúrio, cujos efeitos para a saúde mental estão há muito estudados. "Daí a importância destes estudos com humanos", sublinha aquele investigador do CIIMAR.

Estudos anteriores, realizados em 2015 e 2016, identificaram microplásticos nas vísceras de peixes tão amados dos portugueses como o bacalhau do Atlântico Norte ou o robalo e as sardinhas. Um problema que dará para amanhar, mas pesquisas de 2018 detetaram a presença de microplásticos nos músculos de algumas espécies de peixes comercialmente importantes em todo o mundo. "Isto levanta questões quanto à possibilidade de implicações nos seres humanos", defende Luís Barbosa, autor de um trabalho científico de resumo dos vários estudos realizados sobre a temática nos últimos anos, "Resíduos marinhos microplásticos: Um problema emergente para a segurança alimentar e saúde humana".

Luís R. Vieira reconhece o risco, mas considera que "consumir peixe ainda é relativamente seguro, especialmente da nossa costa, mas poderá vir a deixar de ser brevemente a manterem-se os níveis de poluição" por plásticos. "Com moluscos é que a situação poderá agravar-se mais rapidamente", argumenta. Um estudo da Universidade de Lisboa sustenta esta preocupação. A pesquisa, liderada por Pedro M. Lourenço, investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, e por Catarina Serra Gonçalves, na época estudante do mestrado em Biologia da Conservação de Ciências, na Universidade de Lisboa (UL), encontrou grandes quantidades de fibras artificiais no em zonas costeiras da África Ocidental e no estuário do Tejo.

"São na sua maioria plásticos provenientes de têxteis sintéticos e são ingeridos tanto pelos bivalves e anelídeos que habitam o fundo do estuário, como pelas aves que se alimentam desses animais", lê-se na divulgação do trabalho. "Os investigadores alertam para o facto dos dois bivalves estudados no Tejo - a lambujinha e o berbigão - serem consumidos pelo homem, que pode assim ingerir estes poluentes inadvertidamente", acrescenta o comunicado da UL.

Um estudo publicado na revista "Environmental Science & Technology" revela que 36 em 39 marcas de sal de mesa testadas continha microplásticos. As amostras foram recolhidas por uma equipa de investigadores da Coreia do Sul e da associação ambientalista Greenpeace da Ásia Ocidental, que analisou amostras de sal de 21 países, da Europa, América do Norte e do Sul, África e Ásia.

As amostras com maior concentração de microplásticos foram encontradas no continente asiático. O sal mais contaminado era de origem marinha, seguindo-se o obtido em lagos e, por fim, o mais limpo, sal obtido em terra. "Isto sugere que a ingestão humana de microplástico através de produtos marinhos está fortemente relacionada com as emissões [poluentes] numa determinada região", comentou, à revista "National Geographic", Seung-Kyu Kim, professor de ciência marinha na Universidade de Incheon, na Coreia do Sul.

Luís R. Alves sublinha "o risco para os humanos" que estes resultados representam. "As soluções para estas questões levantam diversos desafios complexos que necessitam da cooperação entre os setores industrial, académico e do público em geral". Uma das soluções poderá passar pela "implementação de melhorias nas Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR's), através da implementação de metodologias mais avançadas, como a inclusão de novas fases de tratamento e a utilização de filtros mais restritivos, já operacionais e/ou em testes finais em alguns países europeus", revela Luís R. Vieira.

À boleia dos avanços europeus, sugere, ainda a inclusão e uniformização de um contentor específico e exclusivo para o plástico, a colocar nos ecopontos, como já se vê noutros países. São vermelhos, em sinal de alerta para o perigo que os plásticos representam.

A poluição plástica foi dividida em duas subcategorias funcionais: detritos macroplásticos, medindo mais de 5 mm, e detritos microplásticos, que ficam abaixo desse limite.

Os microplásticos podem ser classificados como primários e secundários. Os primários são fabricados intencionalmente com dimensões reduzidas, estando presentes numa variedade de produtos como exfoliantes, dentífricos ou pastilhas para lavar louça e roupa. As partículas mágicas que branqueiam os dentes ou a roupa podem ser negras para o ambiente.

Os microplásticos secundários resultam da fragmentação de plásticos de maiores dimensões. Formam-se por um processo prolongado de exposição a radiações ultravioletas, a fatores químicos e ao contacto com o meio ambiente.

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