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O tom é tão importante como a verdade para combater notícias falsas

O tom é tão importante como a verdade para combater notícias falsas

A falta de confiança nas autoridades sanitárias, combinada com o medo e a incerteza sobre a doença, criou terreno fértil para falsos rumores se espalharem sobre as vacinas contra a covid-19. A pandemia mostra que contrariar os rumores tem que ver tanto com atitudes, como com os factos.

As falsas afirmações sobre as vacinas contra a covid-19 tiveram um impacto mortal - são uma das razões pelas quais algumas pessoas atrasaram a inoculação até ser demasiado tarde. Algumas ainda se recusam a ser vacinadas.

Mais de dois anos após o início da pandemia, continuam a circular falsos rumores de que as vacinas não funcionam, causam doença e morte, não foram devidamente testadas e até contêm microchips ou metais tóxicos.

Um estudo recente traz esperança de conseguir desviar tais falsidades no futuro, alterando o tom das mensagens oficiais de saúde e conquistando a confiança das pessoas.

Em muitos países, a confiança do público no governo, nos meios de comunicação social, na indústria farmacêutica e nos peritos de saúde já estava em declínio antes da pandemia. E, em alguns casos, deteriorou-se ainda mais durante o lançamento das vacinas contra a covid.

Isto deveu-se em parte ao facto de algumas campanhas nacionais terem dito que as vacinas iriam proteger as pessoas de adoecerem.

Amigos em vez de factos

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"Havia muitas promessas em torno da vacina sem realmente saber o que iria acontecer", afirma a professora Dimitra Dimitrakopoulou, cientista investigadora e membro da comunidade global Marie Curie no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e na Universidade de Zurique.

"Depois as pessoas começaram a ficar doentes, apesar de terem sido vacinadas. Isso criou uma falta de confiança no governo que emite estas políticas, e na comunidade científica", acrescenta Dimitrakopoulou, que estudou a perceção pública das vacinas contra a covid e os obstáculos à aceitação de informação fiável como parte de um projeto chamado FAKEOLOGY.

Descobriu que, quando as pessoas perdem a fé nas fontes institucionais, acabam por confiar apenas nelas próprias, nos amigos íntimos e na família.

"Confiam nos seus instintos, confiam no que ecoa com eles". Isso significa que irão pesquisar na internet, nos meios de comunicação social e noutras fontes até encontrarem informações que reforcem as crenças que já possuem.

"Temos vivido com notícias falsas e desinformação o tempo suficiente para compreender que não pode ser desmascarada com factos", afirmou. "As pessoas apenas levantam estes blocos emocionais".

Por exemplo, uma história sobre uma mãe cujo filho adoeceu depois de receber uma vacina contra a covid teria provavelmente mais influência do que uma mensagem com factos científicos.

Estabelecer confiança

A professora Dimitrakopoulou entrevistou 3.200 pais de crianças com menos de 11 anos nos Estados Unidos, e realizou grupos focais com 54 deles, para discutir a sua opinião sobre as vacinas contra a covid para crianças.

Muitos pais sentiam-se confusos por informações contraditórias sobre as doses e tinham muitas perguntas sobre a sua eficácia.

Deu aos pais uma seleção de mensagens para avaliar. Rejeitaram as que eram em grande parte factuais, rígidas e prescritivas - o tom de muitas campanhas de saúde pública.

Foram mais persuadidos por mensagens que abordavam as suas preocupações sobre as vacinas com empatia e compaixão, ao mesmo tempo que reconheciam que enfrentavam uma decisão difícil.

"Precisamos de estar prontos para responder a quaisquer perguntas que possam ter e estar prontos para ter uma conversa - sem esperar que a conversa termine com alguém a ser vacinado".

Esses intercâmbios acabarão por ajudar a reforçar a confiança pública nos organismos de saúde e nas instituições governamentais. "A covid é uma grande oportunidade para começarmos a construir esta confiança", disse.

Filtro de notícias falsas

É também importante que os jornalistas, investigadores e o público em geral sejam capazes de detetar e filtrar notícias falsas. Os investigadores de um projeto chamado SocialTruth desenvolveram uma ferramenta para assinalar conteúdos de notícias falsas na Internet e nas redes sociais. O software utilizado, a que chamaram Digital Companion, pode verificar a fiabilidade de uma informação. Analisa o texto, as imagens, a fonte e o autor e, em dois minutos, produz uma pontuação de credibilidade, atribuindo de uma a cinco estrelas.

"Esta é uma pontuação gerada por computador que pode gerar um aviso se o conteúdo for muito semelhante a outros tipos de conteúdo que foram encontrados como falso"», explica Konstantinos Demestichas, investigador do Instituto de Sistemas de Comunicação e Computadores de Atenas e coordenador do SocialTruth.

O Digital Companion utiliza algoritmos informáticos que recorrem a uma grande variedade de serviços de verificação. Estes incluem organizações não governamentais, empresas e instituições académicas - todas com interesses, opiniões e intenções diferentes.

Para o efeito, o projeto utiliza a tecnologia blockchain para registar todas as pontuações e resultados produzidos pelos verificadores. Se os verificadores tiverem um mau desempenho, perdem o seu estatuto, assegurando que o Digital Companion possa oferecer uma garantia de qualidade, afirmou.

Verificadores de factos digitais e humanos

Por enquanto, a tecnologia foi desenvolvida para verificar ciências da saúde e conteúdos políticos. No futuro, poderia ser desenvolvido para quase todas as áreas.

Inicialmente será para instituições que monitorizam notícias falsas e desinformação, mas o objetivo é permitir que os jornalistas e o público em geral também possam tirar partido deste recurso.

A tecnologia "poderia realmente fazer a diferença na utilização diária da internet e dos meios de comunicação social", defende Demestichas.

Ainda assim, porque nunca será capaz de detetar todas as notícias falsas, "precisamos de jornalistas, controladores de factos, e de cidadãos bem formados para exercerem o seu pensamento crítico", acrescentou.

Sentimentos manipulados

A luta contra a desinformação é mais do que proteger a saúde das pessoas, por muito importante que isso seja. O bem-estar das próprias sociedades democráticas está também em jogo.

"As notícias falsas tentam manipular os nossos sentimentos e receios para conseguir que os nossos "cliques" leiam o seu conteúdo".

A sua contenção é fundamental "para defender as nossas democracias e permitir que as nossas sociedades funcionem melhor", acrescenta o investigador.

A investigação neste artigo foi financiada pela UE. Este artigo foi originalmente publicado na Horizon, a Revista de Investigação e Inovação da UE

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