Ciência

Ondas de calor ameaçam a nossa saúde e a capacidade de trabalhar

Ondas de calor ameaçam a nossa saúde e a capacidade de trabalhar

À medida que a Terra aquece, são esperadas ondas de calor mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas. O aumento das temperaturas afeta negativamente a produtividade dos trabalhadores e a saúde humana, mas para os responsáveis políticos tomarem medidas significativas para a adaptação ao calor e cumprirem as medidas do Acordo de Paris sobre as alterações climáticas, que os investigadores consideram que salvam vidas, é fundamental criar um argumento económico.

"Na verdade, é-nos bastante fácil apontar o problema, temos o aumento das temperaturas, o aumento da frequência de ondas de calor... isto afeta o nosso desempenho cognitivo e físico", diz Lars Nybo, professor de Fisiologia Integrativa da Universidade de Copenhaga, na Dinamarca. Trabalhou num projeto chamado HEAT-SHIELD, concebido para analisar os efeitos da exposição ao calor na produtividade em trabalhadores de setores industriais que empregam metade da mão de obra europeia: manufatura, construção, transportes, turismo e agricultura. O projeto decorreu de janeiro de 2016 a dezembro de 2021.

Globalmente, o ano de 2021 foi um dos sete anos mais quentes de que há registo, com a Europa a viver o seu verão mais quente até à data. Na região mediterrânica, uma onda de calor intensa e prolongada em julho e agosto levou a novos recordes de temperatura e a incêndios florestais devastadores. Uma maneira brutal de nos recordar que o objetivo do Acordo de Paris de manter o aumento da temperatura média global bem abaixo dos 2 °C, é mais importante do que nunca. Os dados do projeto HEAT-SHIELD sugerem que a exposição ao calor externo em combinação com a atividade física, que aumenta a produção de calor do corpo, pode resultar em alterações fisiológicas que podem diminuir o desempenho ocupacional pela redução da resistência ao trabalho, visão, coordenação motora e concentração. Isto pode levar a mais erros, e a mais lesões.

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"Aproximadamente 70% dos trabalhadores europeus, em algum momento do dia de trabalho, não estão devidamente hidratados", disse Nybo. A solução para o problema é intuitiva, acrescentou: "beber água, repor os eletrólitos e reduzir a atividade física, mas implementar estas medidas e manter a produtividade é a parte mais complicada. Pode dizer ao trabalhador para ficar em casa e beber margaritas frescas à sombra para evitar o stress do calor", disse em tom de brincadeira. "Mas isso não ajudará na produtividade".

Produtividade

Como coordenador do HEAT-SHIELD, o Lars Nybo e a sua equipa foram encarregados não só de avaliar a extensão do problema e modelar o aumento de temperatura esperado na Europa nos próximos anos e o seu impacto na produtividade dos trabalhadores, mas também conceber e implementar soluções específicas para determinados locais e atividades se poderem ajustar aos inevitáveis aumentos de temperatura.

"Um trabalhador da construção civil usa um capacete de segurança, que dificulta a capacidade do corpo de libertar calor, mas o trabalhador pensa que este problema não pode ser resolvido porque é intrínseco ao seu trabalho", destacou Nybo.

Superar desafios como este foi um dos principais objetivos do projeto, concebendo formas de criar estratégias de mitigação de calor em harmonia com os aspetos práticos do trabalho.

Por exemplo, os trabalhadores de exterior devem estar atentos aos padrões meteorológicos e planear o trabalho mais cedo durante os períodos de calor extremo, fazer uma pausa a cada hora e garantir o fácil acesso à água. Para os trabalhadores de interior, podem ser adotadas soluções semelhantes, tais como, utilizar ar condicionado, trabalhar à sombra e melhorar a ventilação, tendo em consideração a pegada ecológica dessas medidas.

Mas a um nível macro, para que os responsáveis políticos tomem medidas concretas aqui e agora, os números são fundamentais, disse o Prof. Nybo.

Na Europa, os trabalhadores agrícolas e da construção civil, por exemplo, perdem cerca de 15% do tempo de trabalho efetivo quando a temperatura ultrapassa os 30 °C, o que corresponde a quase um dia de trabalho por semana, destacou, citando as análises do HEAT-SHIELD.

"Se for um responsável político", diz, "os números mostram que deve agir agora: se atenuar o problema, o custo estabilizará a um nível mais baixo a longo prazo do que se não o fizer".

Calor excessivo

A diminuição da produtividade dos trabalhadores e os danos económicos subsequentes são alguns os impactos visíveis do aumento das temperaturas causados pelas alterações climáticas. Mas para ter uma imagem completa das consequências, é necessário compreender o que o calor excessivo faz ao corpo humano.

Pode causar danos nos órgãos, como o coração e os pulmões, exacerbar uma série de doenças e aumentar o risco de morte. O calor extremo pode aumentar a ocorrência de ataques cardíacos e de AVC em pacientes suscetíveis devido ao aumento da viscosidade sanguínea e aumentam o risco de morte cardiovascular em pacientes vulneráveis. Está demonstrado que os dias quentes e húmidos podem desencadear sintomas de asma e aumentar a resistência das vias respiratórias, e que os climas mais quentes tendem a prolongar a estação do pólen.

Outro efeito secundário do aumento da temperatura é a associação com a poluição do ar, o maior assassino ambiental na Europa, causando aproximadamente 500 mil mortes prematuras por ano.

Dados de observação e de modelação sugerem que à medida que as temperaturas aumentam, os níveis de poluição do ar, particularmente ozono troposférico (O3) e partículas finas (PM2.5), aumentam em algumas zonas povoadas, mesmo quando as emissões de poluentes do ar não aumentam também as condições favoráveis para os incêndios florestais.

Tanto o calor extremo como a poluição do ar aumentam o risco de doenças cardiovasculares e respiratórias, que custam atualmente à União Europeia cerca de 600 mil milhões de euros por ano. Se estas perturbações ambientais continuarem uma progressão descontrolada, estes custos podem aumentar.

Previsões

A relação sinérgica entre os poluentes do ar e o aumento das temperaturas não é bem compreendida e as previsões existentes sobre os riscos para a saúde na Europa não têm devidamente em consideração as medidas adaptativas que podem ser tomadas para melhorar os riscos associados à saúde, segundo a Kristin Aunan, investigadora sénior do Centro de Investigação Climática Internacional, sediado na Noruega.

"Há muita literatura sobre o impacto do stress térmico na mortalidade a curto prazo (em termos da variação diária), mas quando se trata do impacto a longo prazo, não há muita informação", disse. Como parte de um projeto chamado EXHAUSTION que começou em 2019 e que deve decorrer até maio de 2023, os investigadores, incluindo a coordenadora do projeto, Kristin Aunan, estão concentrados na quantificação dos riscos de doenças cardiopulmonares em diferentes temperaturas.

O projeto está também a trabalhar na identificação de intervenções para minimizar os riscos para a saúde provocados por fatores de stress ambiental e desmitificar a ligação entre a poluição do ar e a subida das temperaturas.

A quantificação do efeito em cascata das doenças cardiopulmonares na economia é fundamental para conseguir ações concretas para a mitigação das alterações climáticas, sugere.

Os investigadores do EXHAUSTION, por exemplo, estão a conceber um modelo macroeconómico que acompanha o aumento da hospitalização e mortalidade em diferentes grupos etários para medir o impacto na economia em geral em diferentes países europeus. «Também temos um modelo ascendente, onde se coloca um preço em cada morte prematura ou internamento hospitalar e se soma para estimar o custo económico.»

Uma das principais questões que os investigadores esperam responder é o impacto sobre a saúde humana de manter o limite da subida da temperatura nos 1,5 °C, o objetivo do Acordo de Paris sobre as alterações climáticas.

"Hoje, não tenho resposta para isso, mas a razão porque estamos a fazer este projeto é pensarmos que há razões para acreditar que o cumprimento do Acordo de Paris irá salvar muitas vidas e reduzir o sofrimento humano», disse Aunan.

«Quando se discute a política climática e se discutem os seus custo, é muito caro reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, etc. Mas também é preciso considerar os benefícios e é isso que estamos a fazer com este projeto, esperando que possamos contribuir para o outro lado da moeda».

Este artigo foi publicado a primeira vez na Revista Horizon em agosto de 2020.

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