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Alterações climáticas

"Os impactos chegaram mais cedo e têm sido mais fortes do que pensávamos"

"Os impactos chegaram mais cedo e têm sido mais fortes do que pensávamos"

Antes da conferência COP27 deste mês no Egito, falámos com o co-presidente do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, que nos diz que a influência destrutiva das alterações climáticas está a chegar mais rapidamente e de forma mais intensa do que o previsto.

Hans-Otto Pörtner é climatologista, especialista em oceanos e co-presidente do Sexto Relatório de Avaliação do Painel Internacional sobre Alterações Climáticas (IPCC), tendo contribuído em particular para o volume dedicado aos impactos, adaptação e vulnerabilidade. Numa entrevista exclusiva à revista Horizon, antes da COP27 em Sharm-El-Sheik no Egito, Pörtner fala das provas das alterações climáticas dos relatórios do IPCC e a sua própria opinião de que não se está a fazer o suficiente.

Como se alteraram as provas das alterações climáticas nos últimos anos?

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Até há poucos anos, as pessoas diziam que poderia haver uma componente natural nas alterações climáticas. Mas hoje, as evidências são inequívocas de que a alteração climática a que assistimos desde os tempos pré-industriais é inteiramente de origem humana. Estamos muito convictos disso.

Como é que os oceanos são afetados pelas alterações climáticas?

Em tempos, as pessoas pensaram que podíamos despejar o excesso de dióxido de carbono no oceano para nos livrarmos dele. Não foi boa ideia, porque há impactos diretos nos ecossistemas oceânicos. Os três fatores de impacto das alterações climáticas nos oceanos são as temperaturas extremas, os baixos níveis de oxigénio e os elevados níveis de CO2 . Chamamos-lhe o trio mortífero.

Esta combinação foi observada em eventos de extinção em massa na história da Terra, onde os extremos climáticos foram um importante fator de extinção de espécies, como pudemos observar no registo fóssil marinho.

A influência das alterações climáticas nos oceanos tem sido menosprezada?

Foi reportada pelo IPCC, mas não conseguiu tanta atenção como o os fenómenos que observamos em terra, como por exemplo, a produção de culturas ou os eventos climáticos extremos. Durante as últimas COP, tem havido um esforço para trazer os oceanos para uma posição mais central da discussão climática. O mar e o gelo cobrem quase 80% do planeta, e o oceano é muito importante para a população humana em termos de fenómenos meteorológicos extremos, inundações e pescas.

O que é que as alterações climáticas significam para as espécies animais?

As observações dizem-nos que as espécies estão em movimento, mais para norte ou mais para sul para latitudes mais elevadas. Estamos a começar a ver processos semelhantes a crises evolutivas anteriores, quando as espécies saíram dos trópicos, e os trópicos ficaram desprovidos de vida superior durante o evento de extinção em massa do Permiano-Triássico. Demos início a esse processo, com as alterações climáticas apenas a aumentar a influência destrutiva que a humanidade está a ter na natureza.

Vemos também reduções nas populações de peixes no oceano, que irão continuar, dependendo do grau de mudança climática. Ainda não podemos projetar completamente como serão os ecossistemas daqui a várias décadas, mas certamente esta alteração no sistema não é boa para a produtividade e não é boa para a pesca.

Acha que a opinião pública mudou?

A mobilização da geração mais jovem, consequência do "relatório de 1,5°C" (siga a hiperligação para encontrar o relatório especial do IPCC intitulado Aquecimento Global de 1,5°C) ajudou a fazer avançar a agenda. Infelizmente, como os interesses económicos das pessoas estão ligados a modelos antigos, tudo se torna mais difícil.

Quais foram as opinião de peritos partilhadas pelos últimos relatórios do Painel Internacional sobre Alterações Climáticas (IPCC)?

As estimativas de risco nos relatórios anteriores do IPCC eram um pouco conservadoras, mas sabemos agora que o aquecimento precipita o desenvolvimento do risco. Além disso, há agora uma diferenciação clara entre 1,5°C de aquecimento e 2°C, uma vez que esta mudança de temperatura relativamente pequena significa muito em termos de impacto.

Basta pensar neste último verão, e nos danos que as alterações climáticas causaram no hemisfério norte. E no hemisfério sul também - acabei de ver hoje outra situação meteorológica extrema sobre a costa leste da Austrália, onde se preveem fortes precipitações e inundações.

A avaliação mais recente indica que a probabilidade de eventos climáticos extremos é várias vezes maior com as alterações climáticas. As nossas ambições de restringir o aquecimento a 1,5°C devem ser reforçadas.

O IPCC e os cientistas têm sido demasiado cautelosos nos seus relatórios no passado?

Tem havido uma certa hesitação em fazer declarações mais incisivas e não é suposto sermos prescritivos no que toca às políticas. Com isso podemos parecer demasiado conservadores. Além disso, temos tentado chegar a um consenso com um grupo grande de pessoas. De relatório em relatório, podemos ter ficado um pouco para trás em termos de projeções totalmente realistas, e os impactos chegaram mais cedo e têm sido mais fortes do que pensávamos.

Que efeitos positivos tiveram os relatórios do IPCC?

O efeito sobre a política e sobre a sociedade não tem sido suficientemente forte. A definição de objetivos internacionais tem sido boa, mas a implementação tem sido sempre demasiado lenta.

Como devemos entender a adaptação às alterações climáticas?

Sabemos que temos já cerca de 1,2 °C de aquecimento global, e é evidente que o mundo natural e a sociedade humana vão ter de se adaptar a esta mudança. Não fazer nada em relação às alterações climáticas não é uma opção. Podemos adaptar-nos instalando um melhor isolamento nas nossas casas ou um ar condicionado altamente eficiente. A adaptação, porém, pode também incluir medidas de mitigação, tais como a redução de atividades que causam mais emissões.

Por vezes as medidas adaptativas funcionam contra nós, como construir um muro na costa para nos protegermos da subida do nível do mar. Isso seria claramente mau para o ecossistema para lá desse muro, porque o espaço está a encolher e as espécies não se podem deslocar para terra com a subida do nível da água. Além disso, estas medidas de proteção podem causar surpresas quando a água passa por cima desse muro. É melhor utilizar sistemas naturais para a adaptação costeira.

Houve urgência e progressos suficientes nas COP anteriores?

Muito pouco tem acontecido. A tendência tem sido para resolver questões a curto prazo sem considerar as implicações a longo prazo, por exemplo, comprometendo-se com os grupos de interesses e diluindo com isso as metas climáticas e de biodiversidade. Os subsídios atribuídos aos combustíveis fósseis têm de passar para as energias renováveis, e terão de ser removidos os obstáculos burocráticos à construção de parques eólicos e à instalação de painéis solares. Colocar painéis solares em metade dos telhados do mundo chegaria para satisfazer as necessidades energéticas.

Qual é o melhor resultado que se pode esperar da COP27 no Egito este ano?

Que nos afastemos de uma divisão Norte-Sul quando discutimos perdas e danos e nos aproximemos de uma posição de responsabilidade partilhada sobre a forma como vamos assegurar um futuro habitável para o planeta, os seus ecossistemas e as sociedades humanas.

Em princípio, todos deveriam contribuir para um montante a que os países possam recorrer para o apoio à transição para uma sociedade assente em energias renováveis, e não sobre combustíveis fósseis. A justiça e a solidariedade internacional, assim como as contribuições (de cada país) de acordo com as emissões passadas e atuais, devem ser princípios orientadores na criação de um sistema em que nenhum país fique para trás.

Este artigo foi originalmente publicado na Horizon, a Revista de Investigação e Inovação da UE. 

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