Astronautas

Português avalia saúde de quem vai para o espaço

Português avalia saúde de quem vai para o espaço

Depois da NASA, Pedro Caetano segue formação como médico aeroespacial no Centro Europeu de Astronautas. Sonha abrir um polo especializado nos Açores.

Aos 32 anos, Pedro Caetano, médico natural do Porto que se está a especializar em medicina aeroespacial, tem os olhos postos nas potencialidades que este setor emergente pode vir a ter, ao cuidar não só de astronautas, mas também dos futuros turistas que queiram dar a volta à lua ou ver Marte mais de perto. E pode ser a partir dos Açores.

No próximo dia 10, parte para Colónia, na Alemanha, onde será o primeiro português a fazer uma formação na área da medicina aeroespacial no Centro Europeu de Astronautas. Dá, assim, seguimento ao percurso iniciado em 2014, quando fez o curso inicial de medicina aeroespacial na NASA, nos EUA.

"Esta é uma área médica preventiva e ocupacional, em que os utentes são os astronautas, tripulantes de cabina, pilotos e, no futuro, os turistas que quiserem ir ao espaço", explica. Visa preparar, tratar à distância durante as viagens e reabilitar à chegada quem, ao deixar o planeta, enfrentar um ambiente onde a gravidade, vibração, aceleração e outros fatores são distintos dos que nos rodeiam na Terra. A falta de gravidade "pode afetar os músculos e ossos", podendo levar a fraturas, exemplifica, apontando que é preciso estudar exercícios, medicamentos e procedimentos a aplicar para mitigar ou solucionar problemas.

Desafios do futuro

Ao contrário dos astronautas, que estão em boa forma física, "os turistas serão cidadãos convencionais, com problemas de saúde. É preciso saber se essas pessoas, com problemas cardíacos ou que tenham sofrido um AVC, por exemplo, podem aguentar aquelas condições e saber como cuidar delas quando estiverem no espaço", acrescenta.

Na NASA, viu "os desafios do futuro". "Vi coisas que se estão a desenvolver e ainda não saíram para a medicina tradicional. Tecnologia como o termómetro de infravermelhos, telemedicina e equipamentos feitos com materiais mais leves, que usamos hoje de forma convencional, começaram ali", conta. Não lhe restaram dúvidas que o turismo aeroespacial está a chegar.

Na Alemanha, o médico conta alargar os conhecimentos, experienciando uma simulação do ambiente dos astronautas e trabalhando casos clínicos. A primeira fase da formação demorará poucas semanas, mas estão previstos mais módulos.

Portugal, acredita Pedro Caetano, poderá ter também "uma palavra a dizer" sobre estas questões. Na tese de mestrado que vai defender este mês (ler texto ao lado), analisou a viabilidade de se instalar, na nova base espacial dos Açores, um centro médico aeroespacial. "Os resultados, analisando a parte de recursos médicos e a económica, mostram que essa possibilidade não devia ser posta de parte", afiança.

Antes de sonhar com o espaço, Pedro Caetano licenciou-se pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e fez pós graduação em Medicina de Viagem e Tropical. É médico aeronáutico e de viagem, cofundador da startup Planet Explorers Medical Solutions e integra a direção da Sociedade Portuguesa de Medicina Aeroespacial.

Sempre se interessou por "medicina em ambientes extremos", fosse para alcançar outros planetas ou para sobreviver neste. Em 2014, foi voluntário no campo de refugiados de Mae La, na fronteira entre a Tailândia e Myanmar, e percebeu como a falta de recursos pode até fazer parecer que estamos "noutro planeta", mesmo sem tirar os pés da Terra.