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Portugueses rendem-se à energia solar em plena crise energética

Portugueses rendem-se à energia solar em plena crise energética

Em tempo de guerra e de anunciadas restrições no consumo, a energia solar está em alta. Multiplicam-se os parques pelo país e os particulares estão a aderir à razão de cinco mil por mês. Só a EDP já contava 75 mil clientes residenciais em julho.

A energia solar é a alternativa mais fácil a que famílias e empresas podem recorrer para enfrentar a crise energética que se está a agudizar com o prolongamento da guerra na Ucrânia. Antes mesmo de os governos de vários países apelarem, nos últimos dias, à poupança de energia e anunciarem possíveis restrições no abastecimento, em virtude da suspensão dos fornecimentos da Rússia, já Portugal estava numa trajetória acelerada de adesão ao modo solar.

Os dados dos últimos meses provam isso mesmo. Em maio, a produção de energia solar em Portugal atingiu o nível mais alto de sempre, sendo o quarto país europeu a incorporar mais energias renováveis na produção de eletricidade nos primeiros cinco meses do ano.

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E o mercado residencial está a dar um salto gigante ao longo do primeiro semestre, mostrando que as famílias estão a fazer as contas e a optar cada vez por uma solução que promete ser mais barata e ecológica, tirando partido do incentivos públicos para o efeito.

Só a EDP contava, em julho, 75 mil clientes residenciais produtores e consumidores de energia solar, o que significa um crescimento de 50% face a igual período do ano anterior, revelou a empresa. O mês de março foi mesmo aquele que registou, até agora, o maior volume de novas adesões com 4900 clientes a tornarem-se "proconsumers" (designação em inglês para produtores-consumidores). E julho confirmou a tendência de crescimento acelerado nas novas adesões, com mais 4400 residências a optarem pela energia solar.

Esta expansão deverá continuar a ser potenciada pela recente redução do IVA de 23% para 6% nos custos de aquisição com painéis solares. Uma redução fiscal que faz com que, por exemplo, um contrato com a EDP possa baixar de um valor total de 2214 euros para 1908 euros, numa poupança de 306 euros. Ou de uma prestação mensal de 36,90 para 31,80 euros durante 60 meses.

Segundo a Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), Portugal usou nos primeiros cinco meses do ano um total de 59,4% de energias renováveis para produzir eletricidade, ficando assim apenas atrás da Noruega (99,6%), Dinamarca (76,1%) e Áustria (73,2%). Só no mês de maio a produção solar atingiu 8,2% da produção total, um recorde que já está a ser ultrapassado com a multiplicação de projetos de energia solar um pouco por todo o país.

Um dos exemplos mais recentes e relevantes é o parque solar flutuante na Barragem de Alqueva, um projeto de 6 milhões de euros da EDP, inaugurado em meados de julho, e que é o maior do género na Europa. Tem 12 mil painéis e a capacidade para abastecer 25% do consumo da região de Portel e Moura. Mas este é apenas um entre vários outros projetos em curso, pois em dezembro de 2021 o então ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Matos Fernandes, anunciou o lançamento de um leilão para 262MW de capacidade solar fotovoltaica flutuante a instalar em sete barragens, de modo a estar operacional até 2023.

Mercado a crescer 6,5% ao ano até 2027

As estimativas para este mercado já eram promissoras antes da atual crise energética e reforçam-se agora com a consciencialização da importância da autonomia energética. Segundo um análise da consultora Mordor Intelligence, anterior a este cenário, esperava-se que o mercado da energia solar em Portugal crescesse mais de 6,5% ao ano entre 2022 e 2027. Para este crescimento contribuiu o licenciamento, pelo Governo, de 220 projetos de energia solar fotovoltaica. Mas também o crescimento da procura e dos incentivos públicos.

Espera-se que a energia solar desempenhe um papel de liderança no novo plano energético do governo, que se propõe fornecer 80% da demanda de energia do país a partir de fontes renováveis ​​até 2030 e 100% até 2050, e eletrificar 65% da economia até 2050. Mas para que Portugal aproveite o seu potencial, enquanto uma das regiões com mais aptidão solar, e a geração solar suba para 32% no mix total energético até 2030, como se quer, terá de expandir a sua capacidade fotovoltaica em 133% até lá, diz a Bloomberg.

O papel das famílias

As famílias vão também desempenhar um papel interessante para a obtenção daquelas metas. As previsões apontam para um crescimento significativo no segmento residencial nos próximos cinco anos. De acordo com a Mordor Intelligence esta adesão dos particulares explica-se essencialmente pela poupança esperada - agora mais efetiva com as melhorias tecnológicas - mas também pela necessidade de uma fonte alternativa de eletricidade e pelo desejo de mitigar o risco das mudanças climáticas.

O mercado já oferece várias alternativas a quem queira produzir e consumir energia solar ou apenas consumir, associando-se através de condomínios individuais, bairros inteiros ou sendo apenas 'vizinho' de um bairro solar.

A energia solar é uma fonte crescente de energia limpa no mix energético português. No final de 2020, representou mais de 3% da geração total de energia. A parcela de energia elétrica renovável atingiu 60,8% em termos relativos em relação à geração total de energia elétrica nacional.

Quanto à dependência externa, Portugal é o 11º país mais vulnerável na UE. Mas melhorou: em 2010 a dependência energética era de 76,1% e em 2020 esse valor situou-se nos 65,8%.

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