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Rede espalha notícias falsas sobre futebol na Internet

Rede espalha notícias falsas sobre futebol na Internet

Negócio fácil ganha força no Facebook e em blogues muito parecidos com jornais verdadeiros. Mais de três milhões de seguidores enganados.

"F. C. Porto pode descer de divisão" e "Bruno Fernandes abandona o Sporting imediatamente". Estes são dois títulos de textos publicados em sites que se assemelham a jornais, mas que não são verdadeiros: são portais de notícias falsas.

Como todas as boas mentiras, têm lastro na realidade. No caso do F. C. Porto, as queixas do Benfica sobre o jogo com o Estoril; no do Sporting, um dos momentos de tensão da época. São apenas dois de vários conteúdos partilhados em blogues e que depois foram parar ao Facebook e disseminados por cerca de 30 páginas, que agregam mais de três milhões de seguidores.

Páginas como o "noticias24.com.pt" e o "noticiario.com.pt" caracterizam-se pelo seu aspeto organizado de forma a parecerem sites noticiosos, semelhantes a um jornal online.

Os textos publicados versam principalmente sobre futebol, de forma particular os três grandes. Usam títulos chamativos e especulativos, sem que no interior do texto exista qualquer tipo de informação que comprove o título.

Depois de publicados, os textos são replicados em várias páginas de Facebook, através de mecanismos automáticos que os espalham por toda a rede. Entre as páginas usadas para a disseminação dos conteúdos falsos está a "Futebol Total". Originalmente criada com o nome "Seleção Nacional", tem 497 mil seguidores e praticamente só publica conteúdos do "noticias.com.pt" e do "noticias24.com.pt".

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Quatro tipos de páginas

"São quatro grupos distintos de páginas de Facebook. Um de notícias de futebol, outro associado a páginas de humor e um com páginas relacionadas com o tema Benfica, mas sem ligação às contas oficiais do clube. Há ainda um quarto grupo, composto por duas páginas, que não integram estruturalmente a rede, mas fazem parte do mesmo grupo pelo conteúdo que partilham", explica Francisco Conrado, especialista em análise de redes sociais do MODA, um grupo de trabalho sediado na Universidade do Minho. "A página originalmente criada com o nome Seleção Nacional, que não tem qualquer ligação à Federação Portuguesa de Futebol, é o principal elo de ligação entre todas as páginas", revela.

Fácil e barato

O procedimento é fácil e barato. Para montar um site destes bastam dez euros anuais. "À medida que o site vai escalando, o alojamento tem que ser melhor para suportar mais visitas. Com 30 euros por ano é possível aguentar até três mil pessoas online ao mesmo tempo", diz, ao JN, o programador informático João Pina. "Estas plataformas são o veículo para para criar influências. Se um artigo tem muitas partilhas é automaticamente considerado relevante e ninguém vai pensar que não é verdadeiro", conta.

O JN contactou o responsável pelas plataformas identificadas, que, apesar de confirmar a autoria dos sites e das páginas de Facebook, recusou prestar qualquer esclarecimento.

Negócio difícil de controlar

Foi com a eleição de Donald Trump para a Casa Branca que as notícias falsas ganharam a atenção de meio mundo. A mais recente polémica, a envolver a Cambridge Analytica e o Facebook, apenas veio confirmar o que muito suspeitavam: blogues e redes sociais foram usados para influenciar a intenção de voto . Mas as redes sociais escondem outro fenómeno. A publicidade associada a estas páginas misteriosas pode valer muito dinheiro aos criadores. "Quanto mais audiência um site tem, medida em visualizações ou cliques, maiores são os seus ganhos financeiros. A presença de páginas de Facebook associadas aumenta o valor de receita", adianta Daniel Sá, diretor-executivo do Instituto Português de Administração de Marketing. "As notícias falsas podem ter várias motivações, em que se inclui gerar tráfego da Internet e por consequência maximizar receitas publicitárias", explica.

Nos sites desta rede analisada pelo JN, há publicidade em praticamente todos. Contactámos algumas das empresas associadas a estas plataformas, mas não prestaram qualquer esclarecimento sobre o investimento neste tipo de sites.

"Controlar a publicação de notícias falsas é um procedimento muito complicado", refere Manuel Masseno, especialista em cibersegurança, pelo Instituto Politécnico de Beja. "Há um conflito com a proibição constitucional da censura", justifica.

Literacia digital

Para Luís Pereira, investigador da Universidade de Coventry, no Reino Unido, uma das principais dificuldades no combate às notícias falsas é o "nível de sofisticação" que dificulta a sua identificação, principalmente "quando os conteúdos são acompanhados de montagens de imagens que alteram completamente o teor das mensagens".

Aquele investigador destaca a responsabilidade que cada pessoa tem no sucesso das notícias falsas. "São conteúdos que vivem da divulgação por parte de cada um de nós. Quem as partilha também é responsável por estes fenómenos", atira.

Francisco Conrado alerta para o risco criado pelas "bolhas ideológicas. Seguimos páginas que publicam informação de que gostamos sem darmos oportunidade de ver o outro lado. Tudo isto ajuda a julgamentos precipitados", conclui.

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