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Saturação de notícias desafia a confiança na democracia europeia

Saturação de notícias desafia a confiança na democracia europeia

Entre o percorrer das páginas e a desinformação, no nosso mundo saturado de meios de comunicação social torna-se difícil saber em quem confiar. Para assinalar o Dia Internacional da Democracia, falámos com um investigador de jornalismo sobre o papel dos meios de comunicação social numa democracia saudável.

"Os meios de comunicação social são uma camada que existe em todo o lado nas nossas vidas", diz Tanya Lokot ao explicar o termo "Mediatized" (mediatizados, em português) à revista Horizon. "Mediatized" foi o título escolhido para o projeto de investigação em sete países que ela dirige a partir da Escola de Comunicação, na Dublin City University (DCU).

"Não é algo que fazemos apenas durante uma hora ou duas". Estamos cercados por meios de comunicação social. Na nossa vida pessoal, laboral, social e familiar, os meios de comunicação social têm um papel significativo a desempenhar.

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O MEDIATIZED EU está a examinar o papel dos meio de comunicação social na sociedade e a forma como influenciam a perceção das pessoas sobre a UE e o projeto europeu. Fá-lo analisando os discursos dos meios de comunicação social de seis Estados-Membros da UE, Irlanda, Bélgica, Portugal, Estónia, Hungria, Espanha, e num país terceiro, a Geórgia.

Os investigadores estão a monitorizar e a avaliar a cobertura mediática e as conversas que mencionam a democracia europeia e a União Europeia nos países-alvo do estudo. "Queríamos investigar a forma como as pessoas pensam e formam crenças sobre a UE. Como é que as pessoas se tornam europeizadas? O que significa ser mais europeu ou menos europeu?", questiona Lokot.

"Juntar todos estes países e analisar quão díspares mas também quão semelhantes são as preocupações entre os decisores políticos, entre os profissionais dos meios de comunicação social e entre o público, tem sido uma experiência realmente esclarecedora para nós", disse.

Conversa pública

Quando 90% da população da UE tem acesso à Internet, os meios de comunicação social são omnipresentes. A TV é a fonte noticiosa de 75% dos europeus. No seu conjunto, tomados coletivamente, todos os dispositivos de comunicação social do mundo criam algo intangível, uma conversa pública, que permite a formação e troca de opiniões.

"De certa forma, os meios de comunicação social estão a cocriar o espaço onde as pessoas vêm para interpretar o que é viver na Europa, o que significa ser europeu, partilhar valores europeus e fazer parte da União Europeia".

O primeiro passo para aprender a viver com o nosso ambiente saturado de informação é "reconhecer que os meios de comunicação social, não só as redes sociais mas qualquer tipo de meios de comunicação, desempenham um papel extremamente importante nas sociedades", prosseguiu.

Até este momento, a investigação mostra-nos que a ideia da Europa é "um trabalho em progresso constante", e que as perceções da europeização são moldadas pelos meios de comunicação social, bem como pelas elites políticas e pela opinião pública, revela Lokot. Há também uma preocupação generalizada sobre a disseminação da desinformação. A par do discurso construtivo, os meios de comunicação social têm muito espaço para promover o extremismo e polarizar os pontos de vista.

Pessoas de todos os países da UE têm preocupações sofisticadas sobre os riscos de manipulação dos meios de comunicação social. "Compreendem a ligação entre a desinformação que está a ser difundida por atores maliciosos nos meios de comunicação social e a ameaça à democracia".

Espiral de cinismo

O populismo e a manipulação dos meios de comunicação podem levar a uma "espiral de cinismo" em qualquer debate mediático. Como resultado, mesmo em países com elevados níveis de confiança nos meios de comunicação como a Irlanda, Espanha e Portugal, as pessoas muitas vezes não sabem em quem depositar a sua confiança.

Lokot alega que "isto acontece porque a forma como a desinformação funciona também mudou". O novo tipo de guerra da informação não tenta persuadir ou convencer as pessoas, mas sim destruir a confiança do público. Pretende convencer que "não há aqui ninguém que lhe diga a verdade".

Esta desconfiança tem origem em atores externos mas também, por vezes, de dentro da UE. Neste clima, as pessoas "deixam de acreditar que existe uma 'ideia europeia' que une as pessoas, e depois perdem-se", afirmou.

"Quando deixa de acreditar em algum tipo de valores partilhados, não sabe realmente o que mais tem em comum com estas pessoas que vivem no mesmo continente consigo".

Embora cada país tenha temas específicos de preocupação, uma nova tendência importante une todos eles. "Até à invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022, a Geórgia e a Estónia estavam muito mais preocupadas com a desinformação russa do que os outros países do nosso projet", disse Lokot.

As campanhas de desinformação dirigidas aos estónios e aos georgianos, juntamente com os seus vizinhos ucranianos, insinuam que estavam melhor sob o regime soviético, que a UE é fraca, que pertencem à esfera de influência da Rússia e não à comunidade europeia. A conclusão desse processo de pensamento é pungente.

"Chegámos ao ponto em que não só se diz à Ucrânia, por exemplo, que não são um país europeu, como se lhe diz que não são um país a sério", disse. "Na realidade, fazem parte da Rússia e ninguém se preocupa se deixarem de existir".

Doomscrolling (leitura compulsiva de más notícias)

As pessoas devem assumir a responsabilidade pessoal pela sua atividade mediática? O "doomscrolling", que consiste em consumir notícias de acontecimentos terríveis durante horas intermináveis foi identificado como um comportamento pouco saudável.

A chuva constante de notícias e desinformação chega a casa de Lokot, de nacionalidade ucraniana, a trabalhar na UCD na Irlanda há sete anos. "Sou ucraniana e vivo na UE. Portanto, já vê, não tenho feito mais nada senão percorrer notícias terríveis, não só desde fevereiro, mas na verdade desde 2014, porque o meu país está em guerra há muito mais tempo do que apenas nos últimos seis meses", disse.

Um fluxo constante de más notícias é cansativo "e por isso temos de ver também como estruturamos a nossa dieta dos meios de comunicação social" continuou.

Poderá haver necessidade das empresas de comunicação social tornarem os seus algoritmos mais transparentes?

"Empresas como a Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp precisam de criar um espaço onde as pessoas possam aceder à informação e trocar opiniões de uma forma saudável e construtiva", argumenta Lokot. "Têm de compreender o impacto que o ecossistema dos meios de comunicação tem sobre as pessoas e sobre as suas vidas", disse.

Cidadãos em linha

Uma boa cidadania em linha onde se verificam as fontes e se reserva algum ceticismo em relação aos conteúdos, é importante num ambiente democrático. A regulação também tem um papel a desempenhar, por exemplo, com leis sobre transparência na propaganda política.

Também não se trata de controlo ou acesso irrestrito. "Queremos que as pessoas compreendam que, como cidadãos, têm direitos, têm responsabilidades, mas também têm participação", diz.

O passo seguinte é conduzir uma investigação aprofundada sobre os outros elementos do triângulo que o projeto MEDIATIZED UE identificou como sendo composto por uma relação entre os cidadãos, os meios de comunicação social e as elites. Falando aos editores dos meios de comunicação e aos decisores políticos, bem como conduzindo inquéritos de opinião pública, os investigadores procurarão compreender o papel dos meios de comunicação na formação das perceções e opiniões da UE a partir dos seus pontos de vista e como tudo está ligado.

A investigação poderia ajudar a informar os decisores políticos a todos os níveis. Pensando no futuro, o cidadão da UE idealmente informado de 2035 poderia estar a viver num ambiente mediático com um fluxo de informação mais democrático - um ambiente que deixa pouco terreno fértil para desinformação. Esperemos que "vivamos também numa Europa muito menos polarizada do que é hoje", conclui Lokot.

Dia Internacional da Democracia 2022

A UNESCO relata que 85% da população mundial sofreu um declínio na liberdade de imprensa no seu país nos últimos cinco anos.

Siga a ligação para saber mais sobre investigação em democracia e governação na UE ao abrigo do programa Horizonte Europa.

O papel dos meios de comunicação social numa democracia foi debatido no discurso do Estado da União Europeia de 2022.

Em 2021, a CE prometeu um montante adicional de 120 milhões de euros para apoiar a democracia e os direitos humanos.

Nos inquéritos do Eurobarómetro, inquéritos de opinião em larga escala na Europa, a democracia é um dos valores-chave apoiados pela maioria de pessoas na Europa.

A investigação neste artigo foi financiada pelo Conselho Europeu de Investigação da UE e foi originalmente publicado na Horizon, a Revista de Investigação e Inovação da UE.

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