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Filho do autarca de Pedrógão nega ligação do GORR à reconstrução de casas

Filho do autarca de Pedrógão nega ligação do GORR à reconstrução de casas

Testemunha diz que Gabinete Operacional de Recuperação e Reconstrução servia para identificar necessidade de alimentos e vestuário da população afetada pelo incêndio de 17 de junho de 2017.

"O GORR [Gabinete Operacional de Recuperação e Reconstrução] não tinha ligação à reconstrução das casas", afirmou esta quinta-feira, no Tribunal de Leiria, Telmo Alves, coordenador do GORR e adjunto do presidente da Câmara de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, na qualidade de testemunha do processo de reconstrução das habitações afetadas pelo incêndio de 17 de junho de 2017.

Telmo Alves afirmou que os processos relativos às casas eram tratados numa "área separada" do GORR, embora ambos se localizassem no edifício da Casa Municipal da Cultura. "No GORR, nunca foi preenchido um único formulário", sublinhou. Confrontado pelo advogado Vítor Faria sobre a razão de o gabinete se chamar então Gabinete Operacional de Recuperação e Reconstrução, o filho do presidente da Autarquia disse que se pretendia "reconstruir a vida às pessoas".

A testemunha acrescentou que o GORR deu continuidade ao trabalho dos militares das Forças Armadas que estiveram no terreno a fazer o levantamento das necessidades das populações logo após o incêndio, no sentido de saber de que produtos é que as pessoas precisavam, em termos de alimentos e vestuário. "Fazíamos uma gestão dos recursos que alocávamos às necessidades." Em relação ao acompanhamento dado pelo presidente da Autarquia, Telmo Alves disse que, "atendendo à pressão que existia e à agenda, procurava estar o mais a par possível", mas acrescentou que "Valdemar Alves sempre esteve na Câmara".

Interrogado pela juíza Cristina Sanches sobre quem decidiu criar um gabinete de apoio à reconstrução das habitações, Telmo Alves ficou em silêncio e, perante a insistência da magistrada, disse que não sabia precisar. "Naquele período, surgiu tanta coisa", respondeu. "Isso não pode servir de justificação para tudo. Parece-me estranho que venha dizer que não sabe, nem quando, nem porquê, nem com que fundamento", reagiu Cristina Sanches.

"Surge depois da constituição do Revita [fundo de apoio às populações e à revitalização das áreas afetadas pelos incêndios], porque havia necessidade de apoio na reconstrução", justificou a testemunha. "O afluxo de pessoas que acorreram à Câmara entupia os serviços. A Fundação PT deu-nos um número verde, criámos um email específico, criámos um canal para facilitar os trabalhos do Município e criámos um gabinete para satisfazer as necessidades das populações", acrescentou.

A juíza questionou ainda o coordenador do GORR do porquê de Carina Costa, testemunha no processo, ter sido transferida desse gabinete para a área da reconstrução das casas. "Porque não havia pessoas suficientes", respondeu. "Quem decidiu?", perguntou a juíza. "Terá sido o Bruno [Gomes]", disse Telmo Alves. "Se tinha funções no GORR, tinha de saber. Que poderes tinha o Bruno para decidir?", insistiu a magistrada. "Não sei", afirmou a testemunha.

Arguido neste processo, à data do incêndio, Bruno Gomes era vereador e acumulava o cargo com as funções de técnico também na Autarquia, na secção de obras.