Lisboa

Assaltantes tentaram estancar sangue a jovem engenheiro morto à facada

Assaltantes tentaram estancar sangue a jovem engenheiro morto à facada

Dois dos três suspeitos de terem matado, em 2019, um engenheiro recém-formado, de 24 anos, num assalto no Campo Grande, em Lisboa, confessaram esta quinta-feira, em tribunal, ter participado no roubo, mas negaram ser os autores das facadas fatais.

Tcherno Embalo, à data com 20 anos, e B.D., então com 16, garantiram igualmente ter tentado estancar o sangue de Pedro Fonseca, após este ter fugido e caído ao chão. S.B., com 17 anos à data dos factos, já assumira, na sessão anterior do julgamento, ser o responsável pelo esfaqueamento mortal. Recusou, contudo, que este tenha sido propositado.

O caso remonta a 28 de dezembro de 2019. Segundo a acusação do Ministério Público, eram 23.15 horas quando o trio abordou a vítima perto do Museu da Cidade, em Lisboa, e o empurrou contra uma parede para conseguir roubar os seus bens.

Nessa altura, S.B. terá mostrado a Pedro Fonseca, filho de um inspetor aposentado da Polícia Judiciária (PJ), uma faca de cozinha que transportava no forro do casaco.

Apesar da ameaça, o recém-engenheiro terá recusado a ceder. Os arguidos terão então esmurrado e pontapeado o jovem, que acabaria, em seguida, por ser alegadamente esfaqueado três vezes por S.B., uma das quais no lado esquerdo do peito.

A 26 de novembro, o arguido contrapôs que só se apercebeu da primeira facada, dada depois de lhe ter mostrado a arma. "Ele não ficou intimidado e deu-me um soco e a faca lhe espetou", alegou, admitindo que acabou por fugir do local sem prestar assistência a Pedro Fonseca.

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Esta quinta-feira, a sua versão foi, em parte, confirmada pelos restantes dois suspeitos. Negaram, contudo, ter visto o que aconteceu entre a vítima e S.B.

Medo de ser presos

"Acho que lhe pediu o telemóvel, ele não quis dar e foi para cima do S.", recordou, ao depor no julgamento, Tcherno Embalo, precisando que só se lembra de ter ouvido o cúmplice dizer que Pedro Fonseca lhe tinha dado um soco. Afirmou, igualmente, não se ter apercebido da facada.

A partir daí, só terá visto a vítima a correr e a cair pouco depois. Só quando a viu sangrar é que terá tido consciência de que fora atingida com uma arma branca.

"Meti as mãos e comecei a estancar o sangue", assegurou. B.D. tê-lo-á substituído quando ficou cansado.

"Fiquei sem reação, sem saber o que fazer, nunca tinha estado naquela situação", acrescentou o adolescente., que também só se terá apercebido da facada nessa altura. Durante o assalto, terá sido empurrado por Pedro Fonseca e perdido noção do que estaria a acontecer. "Ele queria mesmo era fugir", reconheceu.

Certo é que, nesse momento, assumiram ambos que tinha S.B. a atingir a vítima com uma faca. Terão permanecido no local até chegar a ambulância do INEM. Em seguida, lavaram as mãos e foram para casa. Só mais tarde souberam que recém-engenheiro tinha morrido.

Nos dias seguintes, B.D. ainda terá pensado em ir à Polícia contar o que acontecera, mas acabou por não conseguir convencer os cúmplices a fazê-lo. Tinham medo de ser presos.

"É uma tragédia. Queria pedir desculpa aos pais do Pedro Fonseca", afirmou esta quinta-feira, em tribunal, Tcherno Embalo, que, nos dias a seguir ao crime, terá chegado a dormir, tal como B.D., na mesquita que ambos frequentavam.

"Quero contar a verdade. Acho que nunca vou esquecer as coisas que aconteceram. É o mínimo que posso fazer", desabafou, por sua vez, o arguido mais jovem.

"Queria mais roupa"

Além de homicídio, o trio, em prisão preventiva desde janeiro de 2020, responde ainda, entre outros crimes, por 12 roubos. Os jovens - que assumiram a autoria de outros cinco assaltos além do que culminou na morte de Pedro Fonseca - estariam interessados, sobretudo, em subtrair telemóveis para vender.

"Eu sempre soube que não estava certo. Mas fiz porque precisava: queria mais roupa para vestir", justificou Tcherno Embalo. Já B.D. reconheceu que não lhe faltava nada e que começou a assaltar na rua porque "as coisas foram acontecendo". Apesar da insistência do tribunal, não conseguiu, porém, explicar que "coisas" foram essas.

No total, o adolescente terá arrecadado com os roubos entre 30 e 40 euros - o mesmo que, acredita, os seus cúmplices angariaram.

Além do trio de assaltantes confessos, senta-se ainda no banco dos réus um quarto arguido, por recetação.

O julgamento prossegue na sexta-feira, em Lisboa, com as alegações finais de todas as partes. É a última etapa antes de o tribunal tomar uma decisão, numa data ainda a agendar.

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