Julgamento

Azeredo Lopes assinou "às escuras" mandado de detenção de ex-diretor da PJM

Azeredo Lopes assinou "às escuras" mandado de detenção de ex-diretor da PJM

José Azeredo Lopes, ministro da Defesa à data do assalto aos paióis de Tancos, em 2017, admitiu esta quinta-feira, em tribunal, que, em setembro de 2018, assinou "às escuras" o mandado de detenção do então diretor da Polícia Judiciária Militar (PJM), Luís Vieira.

O documento foi-lhe apresentado pelos, à data, diretor do Departamento Central de Ação e Investigação Penal (DCIAP), Amadeu Guerra, e Procuradora-Geral da República (PGR), Joana Marques Vidal.

O Ministério Público (MP) acredita que Vieira terá, com outros elementos da PJM e da GNR, montado uma operação - com a colaboração, a troco de imunidade, do mentor do furto - para recuperar, à revelia da PJ civil, titular da investigação, o material furtado dos paióis a 28 de junho de 2017. O ato terá tido, segundo a acusação, a cobertura institucional de Azeredo Lopes.

Entre outros crimes, Vieira e Azeredo Lopes estão a ser julgados, no Tribunal de Santarém, por denegação de justiça e favorecimento pessoal praticado por funcionário.

O armamento acabaria por ser "descoberto", na sua maioria, a 18 de outubro de 2017, na Chamusca. Quase um ano depois, Vieira foi detido, a par de outros militares, pelo seu presumível papel nessa ação. O então ministro da Defesa (2015-2018) deu o seu aval, sem, segundo o seu testemunho, ter tido tempo para perceber os factos por que o ex-diretor da PJM estava indiciado.

"O mandado de detenção foi assinado às escuras. Não há maneira de apreciar o que foi mandado por nós", afirmou esta quinta-feira, ao ser interrogado em Santarém, Azeredo Lopes. "O que é que aconteceria se eu não assinasse?", questionou.

Apesar disso, ressalvou, ainda conseguiu perguntar aos seus "juristas" como é que a detenção ia processar-se. O Chefe de Estado-Maior do Exército terá sido então contactado e atuado em conformidade.

PUB

"Não me foi dado conhecimento, até aí, do que se tinha passado", sublinhou Azeredo Lopes, que, mais uma vez, reiterou que nunca soube de qualquer investigação paralela.

Investigação não era principal preocupação

Na segunda parte do seu interrogatório, concluído ao final da manhã desta quinta-feira, o antigo governante assumiu, ainda, que a investigação criminal não era, após o furto, a sua principal preocupação.

"Havia a relativa convicção de que não era um assalto propriamente galático", justificou Azeredo Lopes.

A 4 de julho, menos de uma semana depois do assalto, o então ministro participara numa reunião em Tancos em que elementos da PJM tinham assegurado ao presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que existia um "informador" que alertara a PJ civil para um assalto iminente a instalações militares. Um pormenor que deixou o antigo governante confiante.

"Se há um informador, há uma pessoa. E se ele sabe que pode haver um assalto, não deve ser uma questão particularmente difícil. A investigação continuava e iria dar resultados", justificou.

"O caso de Tancos era muito mais [do que isso]", sublinhou, precisando que a sua principal preocupação era a vulnerabilidade dos paióis e como tal poderia ser solucionado: "Penso que fosse uma questão consensual de segurança de Estado, de soberania".

O julgamento continua esta quinta-feira à tarde, com o interrogatório de dois arguidos da PJM. O processo conta, no total, com 23 arguidos: nove alegadamente ligados ao assalto e 14 à recuperação encenada do armamento.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG