Funeral

Aplausos tristes e balões brancos no último adeus a Valentina

Aplausos tristes e balões brancos no último adeus a Valentina

Centenas de pessoas despediram-se da menina morta na Atouguia da Baleia. "Vamos ver se conseguimos aguentar", disse o avô Manuel Fonseca, classificando Sandro como um "monstro".

Muito antes de o carro funerário passar, a população do Bombarral estava pronta para o último adeus à pequena Valentina. Nos acessos ao cemitério da localidade, dezenas de pessoas juntaram-se nas estradas, com balões cor-de-rosa e branco, num misto de grande emoção, que variou entre uma enorme tristeza e também uma incontida raiva pela morte da criança, às mãos do pai e da madrasta. "Ai se eu o apanhasse...", foi uma das frases mais escutadas, aqui e ali, entre elogios à menina. "Era uma paz de alma, sempre com um sorriso para oferecer".

Devido à pandemia da covid-19, a GNR impediu a presença de pessoas no cemitério, reservando-o apenas para os familiares e amigos mais chegados. Apesar da distância, as pessoas estiveram sempre próximas das barras de segurança. Quando, pelas 17.15 horas, o carro funerário passou, e no interior o caixão branco, ouviram-se aplausos mas saíram tristes e repletos de lágrimas. A família não quis tons negros na cerimónia e prevaleceram as cores claras.

Lá em cima, na parte superior do cemitério onde a família se despediu de Valentina, a mãe, Sónia Fonseca, não aguentou, acabou por desmaiar e foi levada para o hospital. Pouco antes, tinha acenado para a multidão num gesto de profundo agradecimento e comoção. Um a um, todos puderam dizer adeus junto à urna.

O avô, Manuel, falou de "um dia trágico". "Isto agora tem de ser um dia de cada vez, devagarinho, para ver se conseguimos aguentar", disse, em lágrimas, em conversa com o JN. "Nunca pensei na minha vida que o pai lhe pudesse fazer mal. Nunca desconfiei de nada, ninguém desconfiou... Mas afinal aquela pessoa é um bicho que nem consigo descrever. Se não a queria, ficávamos a cuidar dela. Para quê isto? Ainda por cima, matou e disse que estava desaparecida. É um monstro!", afirmou. À saída, caminhou sozinho e não quis a companhia de ninguém.

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Entre os populares, muita revolta. "Conheço bem a mãe, é uma joia de pessoa, bem educada e fala a toda a gente. O pai é um animal. A menina era uma criança normal, brincalhona, estava sempre acompanhada do avô e do padrinho. Não merecia", afirmou Carlos Pinto, ao JN.

No fim, a GNR acabou por autorizar um grupo de mulheres a subir e oferecer uma coroa de flores. Duas horas antes, também houve um momento de grande pesar. Frente à igreja, no centro da vila, cerca de 300 pessoas reuniram-se para dar os sentimentos à mãe de Valentina. Palmas e flores foram oferecidas para, de alguma forma, atenuar a sua tristeza. Vergada por uma dor brutal, conseguiu, ainda assim, distribuir um ou outro sorriso.

"O que ela agora precisa é de muito amparo. Se fosse comigo, matava-me, não aguentava a tristeza", afirmou uma senhora, que não quis ser identificada, entre um choro descontrolado. A vila do Bombarral tão cedo não voltará a ser a mesma.

Filha de pais separados, Valentina estava na casa do pai, em Atouguia da Baleia, Peniche, na quarta-feira, quando, depois de uma disputa com o pai, quando este lhe dava banho, a criança terá sido alvo de violentos golpes na cabeça, levando à sua asfixia. Essas são, pelo menos, as primeiras conclusões da autópsia.

O pai deu o alerta para o desaparecimento da filha à GNR, na quinta-feira. O corpo da menina foi encontrado tapado por ramos a cerca de seis quilómetros da localidade, no domingo. Nesse mesmo dia, o pai e a madrasta foram detidos pela PJ.

Os dois detidos, suspeitos de homicídio qualificado e ocultação de cadáver, foram ouvidos esta terça-feira em primeiro interrogatório judicial no Tribunal de Leiria. As medidas de coação são conhecidas esta quarta-feira.

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