Ataque a Alcochete

Bruno de Carvalho: "Se for condenado sou o criminoso mais imbecil do mundo"

Bruno de Carvalho: "Se for condenado sou o criminoso mais imbecil do mundo"

Bruno de Carvalho condena em tribunal o ataque aos jogadores na Academia de Alcochete e refere aos juízes prestar depoimento sob instinto de sobrevivência perante as acusações do Ministério Público.

"Entenda o meu instinto de sobrevivência, não por minimização do que se passou, mas porque me colocaram do outro lado da barricada a partir do momento em que passei de testemunha a arguido 44", disse Bruno de Carvalho ao coletivo de juízes do Tribunal de Monsanto, esta sexta-feira. "Passados quase dois anos não compreendo como sou arguido neste processo. Se for condenado, sou o criminoso mais imbecil do mundo", acrescentou.

Questionado sobre como tomou conhecimento do que aconteceu no aeroporto da Madeira, Bruno de Carvalho diz que viu pelas imagens difundidas na televisão. "O que me preocupou foi ver pessoas passar o cordão policial no aeroporto sem que houvesse reação da polícia".

O ex-presidente do Sporting entende, assim, que houve de facto autorização da comitiva para a entrada das pessoas e associa o ataque à Academia a uma visita anterior. "O que não podia ter acontecido foi os adeptos terem ido à Academia em dezembro de 2017 sem a minha autorização, porque se não tivessem ido nesse dia, também não sentiam que podiam ir neste dia 15 [de maio]. Eu sou absolutamente contra a ida de adeptos à Academia".

Sobre os telefonemas de Fernando Mendes após os incidentes da Madeira, Bruno de Carvalho diz que foi uma conversa descabida, conduzida por uma pessoa embriagada. "Só percebia que Mustafá estava no quarto, Mustafá e a Juve Leo, mas como estava com a bebé [filha] ao colo não podia continuar a conversa. Ainda assim, como tenho a teoria da panela da pressão, deixei-o falar para extravasar, mas nunca dei muita atenção".

O ex-presidente leonino admite que o que aconteceu na Madeira o deixou preocupado tendo em conta que quando chegou ao Sporting, em 2013, ouviu histórias de visitas a jogadores por elementos da claque. "Não admito que a claque se comporte mal com os jogadores, mas também não admito o contrário, só assim se evitam desentendimentos".

No dia seguinte, segunda-feira na reunião com os jogadores, perguntou a Acuna sobre o que se tinha passado. "Noto nos jogadores Acuña, Battaglia e William que estavam à vontade e então transmiti-lhes preocupação por terem feito o que fizeram, e disse-lhes para tomarem atenção".

Bruno de Carvalho garante que apenas se apercebeu do ataque à Academia após o mesmo e quando estava reunido em Alvalade com a direção relativamente ao processo Cashball. "Quando cheguei à Academia deparo-me com William, mas quando lhe pergunto o que se passou, ele diz-me, você acha que não sei foi você que fez isto?".

O ex-presidente do Sporting considera que William mentiu por várias vezes e descredibilizou o antigo jogador do Sporting, acusando-o de mentir no processo, quando disse que não conhecia ninguém e quando este o acusou de mandar a claque partir o carro dos jogadores.

"Aquilo que se passou em Alcochete foi um crime hediondo. É absolutamente lamentável e indescritível aquilo pelo que os jogadores passaram, mas também aquilo por que eu e a minha família passou e ainda passa", afirmou Bruno de Carvalho.

Bruno de Carvalho culpa diretor de segurança por permitir entrada de invasores

O ex-presidente do Sporting culpa Ricardo Gonçalves, diretor de segurança à data do ataque a jogadores, por ter deixado entrar os invasores nos balneários. "As diretrizes de segurança que implementei sobre a entrada no edifício do balneário foram alteradas por Ricardo Gonçalves à minha revelia", diz Bruno de Carvalho ao coletivo de juízes. "Os cartões de acesso aos balneários foram retirados por Ricardo Gonçalves que me disse que o fez no início da época por ordem de Jorge Jesus".

O ex-líder leonino considerou que essa medida tomada pelo diretor de segurança seria suficiente para o seu despedimento no âmbito do processo disciplinar que instaurou. "Jorge Jesus não fazia parte da direção do Sporting e o diretor de segurança não podia ter feito aquilo, as portas estavam sempre abertas no início ao fim do treino". Surpreendentemente, prossegue Bruno de Carvalho, o inquérito interno foi depois arquivado e Ricardo Gonçalves foi promovido.

Sobre a possibilidade levantada em tribunal de as portas terem sido abertas devido ao acionamento do alarme de incêndio, Bruno de Carvalho desmente. "Aquilo só fazia barulho, não desbloqueava portas".