Julgamento

Casas de Pedrógão apoiadas pela Cruz Vermelha foram indicadas pelo Município

Casas de Pedrógão apoiadas pela Cruz Vermelha foram indicadas pelo Município

Francisco George, presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, afirmou, esta quinta-feira de manhã, perante o coletivo de juízes do Tribunal de Leiria, que a seleção das cinco casas que a instituição se comprometeu a reconstruir, na sequência do incêndio de 17 de junho de 2017, foi feita pelo Município de Pedrógão Grande.

"Havia necessidade de depositar confiança nas pessoas que estavam em Pedrógão Grande, em termos de saber se era o Manuel ou o José a precisar de apoio", explicou a testemunha. "Essas questões tinham de ser ditadas pelas autoridades locais e não pela Cruz Vermelha."

Embora só tenha assumido funções como presidente da Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) a 26 de outubro de 2017, Francisco George disse que visitou Pedrógão Grande depois do incêndio. "O sentimento que vivi, enquanto diretor-geral de Saúde, foi de uma impreparação e de uma falta de recursos impressionantes."

"Encontrei uma instituição [Autarquia] sem técnicos, sem apoio e com muito pouca gente", afirmou, observando que "uma Câmara daquela dimensão não tem preparação, nem meios, para aprovar reconstruções, nem projetos de arquitetura".

O presidente da CVP disse ainda ter designado uma equipa para "tratar dos assuntos referentes a Pedrógão" e sublinhou que as diretrizes eram para haver transparência e rigor. "Dei indicação para que fossem atendidas as pessoas que mais precisavam. As pessoas que ficaram sem a primeira residência, desde que fossem pobres."

Quando soube da existência de alegadas irregularidades através da comunicação social, a testemunha mandou interromper os trabalhos de reconstrução das cinco casas, pelo que apenas uma foi concluída. "As outras foram suspensas por suspeitas de aproveitamentos eventuais" porque não se trataria de primeiras habitações, justificou.

Confiança perdida

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"Houve uma etapa de total inocência e confiança. Depois, identificou-se um problema de inconformidade ou um ou outro truque e, a partir daí, desenvolveu-se uma relação de falta de confiança e suspendeu-se o financiamento de quatro casas", disse o presidente da CVP.

Então coordenadora logística de apetrechamento da Cruz Vermelha, "Daniela Costa não conhecia ninguém em Pedrógão, aceitou de boa-fé tudo aquilo que lhe foi dito e não foi discutir se a seleção foi bem feita ou mal feita", esclareceu Francisco George.

O antigo diretor-geral da Saúde assegurou que esta situação resultou em "danos de reputação e materiais" para a instituição. "Houve doadores que suspenderam parcerias com a CVP, porque surgiram dúvidas sob a sua honorabilidade", testemunhou. "Foi muito difícil recuperar uma reputação irrepreensível."

A Cruz Vermelha celebrou um protocolo com o Município de Pedrógão Grande no âmbito da reconstrução de cinco habitações do concelho, e com o Instituto da Segurança Social, para reapetrechar as casas reconstruídas. Contudo, Francisco George esclareceu que, perante as suspeitas de irregularidades, as intervenções foram interrompidas porque "não há luz verde" para as terminar.

Casa abandonada reconstruída

Durante a manhã, foram recolhidos outros depoimentos, um dos quais de Jorge Campos, 72 anos, residente em Soalheira, Pedrógão Grande. A testemunha identificou a arguida Carminda Moreira como sendo sogra do presidente da Junta de Freguesia da Graça e assegurou que não habitava ninguém na casa onde os pais dela viviam até morrerem, e que foi reconstruída após o incêndio. "A casa dos pais não tinha condições. Estava desabitada há muitos anos", afirmou. "E ela [Carminda] tem uma casa boa."

A residir em Figueiró dos Vinhos, Idalino Santos, 44 anos, morou na freguesia da Graça até aos 28 anos. A testemunha contou que a casa da mãe, Isilda Godinho, ardeu, mas "não foi reconstruída porque era segunda habitação". Questionado pela Procuradora da República se ficou zangado por isso, Idalino respondeu que "sim, porque havia casas feitas que antes estavam cheias de silvas".

A testemunha confirmou que Carminda Moreira não morava na casa dos pais, que se encontrava abandonada. "As janelas estavam podres e os vidros partidos. Até se viam as silvas no pátio, dentro de casa", garantiu. "Depois do incêndio, só ficou lá a estrutura. Mais nada. O telhado desabou", acrescentou. Disse ainda que a habitação foi, depois, demolida e reconstruída. "Mas depois parou e não mexeram mais. A casa não está acabada."

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