Viana

Desacatos no arranque do julgamento de homicídio "por engano" de pescador

Desacatos no arranque do julgamento de homicídio "por engano" de pescador

Começou com desacatos à porta do Tribunal de Viana do Castelo, esta terça-feira de manhã, o julgamento do homicídio alegadamente por engano de um pescador daquela cidade em dezembro de 2018.

Familiares e amigos da vítima, Vítor Coimbra, exaltaram-se à chegada dos arguidos, Fábio Araújo, 28 anos, natural de Santo Tirso e residente em Fradelos, Famalicão, e Carlos Ferraz, 33 anos, natural de Coimbra com residência em Campos, Vila Nova de Cerveira.

A Polícia de Segurança Pública (PSP) foi chamada a intervir e os ânimos acabaram por serenar. O julgamento começou sob forte dispositivo policial com a sala de audiências cheia.

Durante a manhã, foi ouvido Fábio Araújo, autor material do esfaqueamento do pescador. Confessou o crime, fazendo crer que foi involuntário, e admitiu que levou para o local uma faca de cozinha, de 34 centímetros. "A minha intenção não era fazer nada com a faca. Como já tinha sido ameaçado, levei-a para minha proteção", disse, antes de recordar a facada fatal para Vítor Coimbra. "Fiquei com o cabo [da faca] na mão. Nem me apercebi do que tinha feito".

Fábio e Carlos são acusados de de homicídio qualificado, em coautoria e na forma consumada, por matar à facada, pelas costas, Vítor Coimbra, de 22 anos, à porta de casa de um amigo, a quem os agressores pretendiam "dar um corretivo".

Os factos remontam a 10 dezembro de 2018, quando os dois homens se encontravam em Vila Nova de Cerveira. Pelas 18 horas, dirigiram-se, na companhia das respetivas namoradas (Flávia Coimbra, companheira de Carlos, e Cátia Souto, namorada de Fábio), para a residência de Ilídio Rodrigues, na Travessa do Pico, em Areosa, concelho de Viana do Castelo.

Segundo a acusação, tinham como "finalidade dar um corretivo" a Ilídio Rodrigues, porque este "andava a incomodá-los, bem como às respetivas namoradas". Ilídio era suspeito de "enviar mensagens de cariz sexual para Cátia, sua ex-namorada, e indicando o número de telemóvel de ambas as mulheres num site e grupo de encontros, implicando que as mesmas recebessem SMS de pessoas interessadas em ter sexo". Segundo Fábio, Cátia terá recebido, no dia anterior aos facto, "mais de mil mensagens".

"Deslocaram-se cegos e com vontade de partir tudo" à residência de Ilídio, munidos com "uma faca de cozinha com 34 centímetros com o cabo revestido com um cordão da bota de Fábio", prossegue a acusação. "Tocaram à campainha e aguardaram emboscados no exterior", um em cada lado do portão, enquanto as raparigas permaneceram no carro.

Quando Ilídio abriu a porta, seguido do amigo pescador, foi agredido a murro por Carlos. Vítor terá intervindo e foi esfaqueado pelas costas por Fábio. Colocaram-se ambos em fuga e, segundo o Ministério Público, Fábio terá "rido da situação" descrevendo-a como "surreal" e comentando que "parecia que estava a matar um porco".

Em consequência da facada, a vítima sofreu "colapso e laceração pulmonar, e perfuração de diafragma e fígado", acabando por falecer cerca das 19.30 horas daquele dia. Após o crime, os dois arguidos entregaram-se no posto da PSP de Póvoa de Varzim.

Esta quinta-feira de manhã, perante o tribunal, Carlos Ferraz afirmou: "Nunca foi minha intenção ir lá [deslocar-se a casa de Ilídio] magoar alguém. A intenção era esclarecer as mensagens enviadas para a Cátia e para a Flávia". E adiantou que tentou demover o amigo Fábio de levar uma faca, quando decidiram ir a Areosa.