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Drones têm muitas vantagens, mas cuidado com abusos

Drones têm muitas vantagens, mas cuidado com abusos

Equipa liderada por cientista português alerta para perigos do uso sem controlo após estado de emergência.

O uso alargado dos drones durante o estado de emergência poderá abrir caminho a uma maior aceitação desta tecnologia, antecipam investigadores do Peace Research Institute Oslo (PRIO), na Noruega. A equipa, liderada por um cientista português, alerta para o perigo de uma eventual "normalização da exceção".

No artigo, intitulado "Drones em tempos de pandemia: Cuidado com a euforia", Bruno Oliveira Martins, Chantal Lavallée e Andrea Silkoset reconhecem as inúmeras vantagens dos drones que, agora, se tornaram mais visíveis. Porém, realçam que, para além desta "euforia" e do "otimismo tecnológico" em torno destas ferramentas, há perigos e questões que exigem escrutínio.

A equipa realça a preocupação em relação à privacidade e à proteção de dados dos cidadãos, bem como o potencial abuso do estado de emergência para prosseguir outros objetivos que não o combate à pandemia.

Por outro lado, o maior recurso aos drones permitiu uma aceleração tecnológica e o levantamento de algumas restrições legais que limitavam a sua utilização.

No trabalho, publicado no site Global Policy, frisa-se que, além de este maior uso poder gerar mais acidentes, quanto mais os drones forem usados mais facilmente poderão extravasar os fins para os quais foram criados, servindo, inclusive, para utilização criminosa. Mas não só.

Violação de privacidade

Em vários países, as imagens captadas por drones estão a ser usadas não só para detetar concentrações ilegais de pessoas, mas também para as identificar, geolocalizar e monitorizar a sua temperatura e outros dados biométricos. Num estado de emergência, excecionalmente, tal pode ser tolerável, mas após esta conjuntura dificilmente será admissível, pois violará as leis de proteção de dados em grande parte dos casos.

Todavia, os investigadores alertam que, com a utilização recorrente no contexto de combate a uma pandemia, poderá haver o perigo de "uma normalização da exceção" desta ferramenta poderosa.

A equipa liderada por Bruno Oliveira Martins antecipa dois caminhos no pós-pandemia: numa lógica de cerrar fileiras em torno da tecnologia, haverá uma aceitação social dos drones potenciada por estes tempos excecionais ou eles serão entendidos como "parte de um crescente (ab)uso de tecnologia para monitorizar todos os nossos passos".

A resposta será dada após o esmorecer da perceção geral de emergência e da observação da pegada digital que tal irá deixar nas nossas sociedades, antecipam os investigadores.

Como tem visto a utilização de drones durante esta pandemia?

Portugal parece estar a seguir os trâmites aceitáveis. Têm sido utilizados só para transmitir mensagens pré-gravadas e, mais recentemente, como ferramenta para monitorizar o dever geral de recolhimento.

Outros países têm optado por usos mais intensos.

Sim. Com câmaras de alta resolução ou térmicas para monitorizar temperaturas. Também para distribuir artigos ou medicamentos e, ainda, para desinfetar zonas urbanas. A tecnologia já existia, mas numa situação de emergência há uma aceleração tecnológica e agilizam-se processos para facilitar o seu uso.

Esses usos poderão continuar no pós-pandemia?

Exemplos passados permitem concluir que, muitas vezes, passada a exceção, não voltamos onde estávamos antes.

Isso terá mais vantagens ou desvantagens?

São questões complexas. Existe um fascínio pela tecnologia, mesmo quando está muito longe de ter a eficácia provada.

E está a haver o escrutínio necessário ao seu uso?

Em Portugal, não. Em geral a sociedade civil mobiliza-se pouco para estas questões. Existe escrutínio por parte de alguns partidos, mas gostaria que houvesse mais envolvimento da sociedade civil.

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