Operação Marquês

"Como é que o Ministério Público prova aquilo tudo?", pergunta Sócrates

"Como é que o Ministério Público prova aquilo tudo?", pergunta Sócrates

Na primeira entrevista depois de ter sido acusado, José Sócrates garantiu esta noite na RTP que sempre honrou o cargo de primeiro-ministro "com total honestidade". Sobre a acusação, garante que "não vai sobre folha sobre folha".

Tal como já tinha sido dito pela sua equipa de advogados, Sócrates afirmou que a acusação "não passa dos insultos habituais" e que o número elevado de páginas "servem para disfarçar o vazio". Para o antigo primeiro-ministro, a pergunta fundamental neste processo é "como é que o Ministério Público (MP) prova aquilo tudo?".

Não há um testemunho ou documento, garante, que o ligue ao dinheiro que está em nome de Carlos Santos Silva e que a acusação afirma que lhe pertence. A investigação usou a sua prisão preventiva para ver se alguém confessava, disse numa conversa com o jornalista Vítor Gonçalves.

"Não provam nem fundamentam porque não o podem fazer". Em 2013, Carlos Santos Silva ofereceu-se para me ajudar porque eu ia hipotecar a minha casa. "Não precisas de fazer isso", terá dito o amigo de José Sócrates. "Temos uma relação fraterna. O meu melhor amigo fora da política".

Sobre a alegada linguagem cifrada quando se falava de dinheiro ao telefone com Carlos Santos Silva, José Sócrates diz não ter memória disso, nem o admite. "Nós temos um modo de falar. Os amigos constroem um mundo em comum" e usa, dessa forma, uma linguagem diferente. "Foi por isso que me prenderam?".

"Carlos Santos Silva tem uma vida empresarial de 30 anos e o Ministério Público pretende convencer-me que o engenheiro Carlos Santos Silva não tinha dinheiro nenhum e que era meu".

Já no final da entrevista, Vítor Gonçalves perguntou como é que Sócrates paga as contas. "O que tem a ver com isso?", respondeu o antigo primeiro-ministro. Pressionado a responder, afirmou que a questão era "uma afronta" e que era "indigna", mas acabou por dizer que vive com a pensão de deputado.

Criminalizar período político

O ex-primeiro-ministro José Sócrates disse que as acusações do Ministério Público pretendem criminalizar o período político em que chefiou o Governo e que são mentiras que têm "tudo a ver com direita e com esquerda".

"Todas as grandes imputações que me fazem pretendem criminalizar uma gestão política, um período político", afirmou em entrevista à RTP.

Segundo defendeu, o Ministério Público fundamenta "toda a acusação em várias mentiras", pondo de lado aquilo que não interessa à acusação.

"Eu devo ser a única pessoa no mundo que é acusado de ter uma fortuna escondida e que pediu três empréstimos à CGD", ironizou, sublinhando que "isso é posto de lado" na acusação.

Acordo com Ricardo Salgado

Sobre as alegações de que teria recebido 21 milhões de Ricardo Salgado para condicionar as ações do governo aos interesses do Grupo Espírito Santo, José Sócrates volta a negar qualquer acusação e diz que o MP "está a mentir".

"É uma acusação gravíssima", afirma sobre o alegado entendimento entre Ricardo Salgado entre 1 de março e 18 de abril de 2006.

"Nunca me encontrei o dr. Ricardo Salgado antes de 13 de outubro de 2006", durante as funções de primeiro-ministro. "Até fui ver o registo de entradas na residência do primeiro-ministro", afirmou, porque, segundo diz, sempre se encontrou com Ricardo Salgado naquele local.

Grupo Lena

O Ministério Público garante que Sócrates usou a influência do Governo para beneficiar o grupo Lena no caso da Parque Escolar, projeto do TGV e Venezuela, mas, tal como nos outros, Sócrates não aceita a acusação.

"Pus o Governo a trabalhar pela diplomacia económica. Abrimos portas para as empresas portuguesas, não apenas para o Lena", afirmou o antigo primeiro-ministro sobre os projetos na Venezuela, que garante que não sabia, na primeira viagem ao país, que o grupo tinha interesses no país.

Sobre a alínea de que é acusado de introduzir nas regras dos contratos do TGV, José Sócrates afirma que um tribunal arbitral analisou a alínea e que esta poderia até beneficiar o Estado. "As provas desmentem" a acusação.

Quase quatro mil páginas de acusação

O ex-primeiro-ministro foi, esta quarta-feira, formalmente acusado da prática 31 crimes, entre eles a prática de crimes de corrupção passiva de titular de cargo político, branqueamento de capitais, falsificação de documento e fraude fiscal qualificada.

Segundo o Ministério Público (MP), José Sócrates acumulou na Suíça, entre 2006 e 2009, um montante superior a 24 milhões de euros.

Entre os 28 arguidos da Operação Marquês estão, Ricardo Salgado, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, Armando Vara, Rui Horta e Costa, Hélder Bataglia e o grupo Lena.

A defesa de José Sócrates assegurou que vai "examinar detalhadamente" o despacho do Ministério Público e considera a "acusação infundada, insensata e insubsistente".

Esta quarta-feira à noite, em conferência de imprensa, os advogados disseram que ainda não tinham decidido se iam avançar com a abertura da instrução do processo, uma vez que a defesa ainda não tinha sido notificada.

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