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"Há embarcações que, ao colocarmos a mão, a madeira parte e estala"

"Há embarcações que, ao colocarmos a mão, a madeira parte e estala"

Vinte militares da GNR estão desde o final de março de 2022 no "Bojador" para colaborar no resgate do Mediterrâneo de migrantes indocumentados. Já salvaram 45.

Carlos Henriques, 47 anos e militar da GNR, sabe bem que nem sempre é fácil estar longe da família e que passar temporadas no mar em missão "é só para quem gosta". Mas as dúvidas que outros possam ter parecem quase não fazer sentido perante o entusiasmo que transparece na sua voz ao garantir como é "gratificante" poder ajudar a salvar a vida de quem arrisca, em embarcações precárias, abandonar o Norte de África e atravessar o Mar Mediterrâneo, à procurar de uma vida melhor na Europa.

"Esta é a minha quarta missão", diz, orgulhoso, o sargento-ajudante, enquanto a lancha "Bojador", propriedade da GNR, rasga as águas ao largo da ilha italiana da Sardenha.

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Ao todo, são 20 os militares daquela força, divididos em duas equipas, que, desde o final de março, estão estacionados em Sant'Antioco, com a tarefa diária de patrulhar o mar a sudoeste e sul da Sardenha, no âmbito da operação transnacional Themis, destinada à vigilância fronteiriça do Mediterrâneo Central e tutelada pela Guarda Europeia de Fronteiras e Costeira (Frontex).

Em três meses, foram resgatados 45 migrantes, todos homens, originários da Argélia e da Tunísia, e na sua maioria na casa dos 20 e 30 anos, precisa a comandante do "Bojador", Cátia Tomás,. Para chegar à Europa, arriscam percorrer "cerca de 200 quilómetros", uma distância "muito grande" para as "embarcações rudimentares" em que navegam.

"Há embarcações com dois milímetros. Não consigo explicar que tipo de madeira é, mas é uma coisa que, ao colocarmos a mão, parte e estala. Ou seja, uma coisa muito frágil para fazer face a tudo aquilo que tem de vencer", conta a capitão, admitindo que, atendendo à realidade que já conhecia de outras missões no Mediterrâneo, esse é o aspeto que mais a tem surpreendido.

"Há sempre algo que mexe um bocadinho connosco. Principalmente porque estamos a falar [...] do salvamento de vidas e de conseguir fazer a diferença na vida de alguém", frisa.

Carlos Henriques, que anteriormente esteve em Espanha e na Grécia, concorda. "É uma missão. São seres humanos que estão a precisar de ajuda", insiste, já a pensar em integrar uma outra ação após a Themis, cujos objetivos incluem também o combate à pesca ilegal e à apreensão marítima e a apreensão de armas e droga.

Patrulhamento todos os dias

Segundo Cátia Tomás, as tarefas são complementares e, até agora, não foram apreendidas nem armas nem droga. Além dos 20 militares, que se revezam entre si em duas equipas de dez, a missão conta ainda com um oficial de ligação, também da GNR, no Centro de Coordenação Internacional, localizado em Roma (Itália). A bordo está também sempre um oficial de ligação com as autoridades italianas.

"Operamos sete dias por semana e, normalmente, o período de patrulhamento é de 10 a 12 horas", explica a capitão, ressalvando que a duração do turno pode chegar às 20 horas se for necessário fazer um salvamento.

Quando tal acontece, a prioridade é sempre perceber se alguns dos passageiros está ferido ou em pré-afogamento ou afogamento. Em seguida, apurar se entre os migrantes se encontra alguém particularmente vulnerável, como uma mulher grávida. Só depois é iniciado o resgate, durante o qual são sempre fornecidas mantas térmicas, água e comida.

Cada uma das equipas do contingente conta ainda entre os seus elementos com um militar formado em primeiros socorros, mas, até hoje, o seu conhecimento foi apenas necessário numa ocasião, ainda antes de o "Bojador" sair para o mar.

Com um migrante resgatado por outro barco em "avançado estado de hipotermia, já sem mobilidade e com dificuldade respiratória", acabou por ser possível, com o equipamento a bordo da lancha portuguesa, fazer um "plano duro", um "colete cervical" e retirá-lo da embarcação, uma hora antes de a ambulância chegar.

"Ficou bem de saúde. Essa é a nossa missão", conclui, satisfeita, a comandante.

Ministro visitou contingente

A ideia de que a busca e salvamento de migrantes é apenas a sua missão é, de resto, a principal ideia transmitida a propósito da presença a bordo, esta quarta-feira, do ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro, e do comandante geral da GNR, Rui Clero. A visita ao contingente ocorre cerca de duas semanas antes do fim, a 13 de julho de 2022 e para já, da participação do "Bojador" na operação Themis.

Aos jornalistas, o governante fez questão de sublinhar, na visita, esta quarta-feira, ao contingente, a "importância do esforço" dos militares daquela força de segurança "no reforço da capacidade da Frontex", criada em 2004.

"A GNR, ao longo dos últimos 15 anos, teve mil militares empenhados em missões da Frontex e está disponível para continuar a participar ativamente no aperfeiçoamento desta guarda de fronteira em termos europeus", assegurou.

De acordo com dados da Frontex, o fluxo mensal de migrantes indocumentados em direção ao Mediterrâneo Central está, em média, a ser superior ao de 2021, tendo ultrapassado, em maio, as oito mil pessoas.

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