Relatório

Infeção pôs em risco vida de cantoneira atropelada por deputado

Infeção pôs em risco vida de cantoneira atropelada por deputado

O perito do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML) que assinou o relatório que refere que, na sequência dos ferimentos sofridos, houve "perigo para a vida" da cantoneira atropelada por um deputado da Assembleia da República confirmou esta quarta-feira, em tribunal, a sua posição, mas precisou que o risco decorreu de uma infeção causada pelos antibióticos usados durante o tratamento das lesões.

Pedro Delgado Alves - deputado socialista e presidente da Junta de Freguesia do Lumiar, em Lisboa - está acusado de um crime de ofensa à integridade física por negligência grave depois de, na madrugada de 17 de maio de 2016, ter chocado contra um camião do lixo parado na via direita da Avenida Almirante Gago Coutinho, na capital. O carro atingiu uma cantoneira, que, no momento do acidente, se encontrava de pé no estribo do lado esquerdo do veículo, enquanto o colega descarregava os caixotes do lixo ali existentes. Na sequência do acidente, Maria Lúcia Santos ficou ferida com gravidade na perna esquerda e foi obrigada a tirar 596 dias de baixa.

Esta quarta-feira, o perito do INML que, baseado nos documentos médicos, concluiu que a trabalhadora chegou a correr perigo de vida, explicou em tribunal que, da pancada do acidente, resultou uma lesão nos intestinos da vítima que, ao ser tratada com antibióticos, causou uma inflamação do cólon potencialmente fatal. A infeção acabou por evoluir favoravelmente, mas o especialista considera que, "neste contexto" houve mesmo "perigo para a vida" de Maria Lúcia Santos. A opinião foi corroborada pelo Ministério Público na acusação do deputado.

Se for condenado, Pedro Delgado Alves incorre numa pena até dois anos de prisão ou de multa até 240 dias. Na primeira sessão do julgamento, a 9 de maio, o socialista confirmou, no essencial, os acontecimentos, mas justificou o embate com uma avaria no carro, que pertencia à sua companheira.

"Na redução da mudança, da quarta para a terceira, o carro deixou de reagir, o volante ficou trancado e não o consegui mexer", afirmou o deputado, que, apesar de, na madrugada de 17 de maio de 2016, transitar na via do meio, considerou, ao avistar o camião do lixo, que seria mais seguro circular mais ao centro da mesma e não tanto à direita. Terá sido durante esse movimento - primeiro para a esquerda e depois para a direita - que o bloqueio da direção terá acontecido.

Ainda assim, Pedro Alves reconheceu que a falha mecânica já ocorrera noutras ocasiões, mas sempre em situação de estacionamento e nunca em circulação. Na revisão do carro, cumprida dias antes, não terá sido detetado qualquer problema. Esta quarta-feira, o tribunal aceitou o pedido de defesa para juntar aos autos os documentos então elaborados pela oficina. Na madrugada do acidente, o deputado não acusou a presença de álcool no sangue.

As alegações finais do julgamento estão agendadas para 1 de julho, no Juízo Local Criminal de Lisboa. Paralelamente, Maria Lúcia Santos exige a Pedro Delgado Alves, nos tribunais cíveis, uma indemnização de 560 mil euros.