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Violência doméstica

"Avó-coragem" entre centenas que gritaram "basta"

"Avó-coragem" entre centenas que gritaram "basta"

Mais de 400 pessoas, segundo as autoridades, manifestaram-se na tarde deste domingo, em frente ao Parlamento, contra a violência doméstica, que já fez nove vítimas este ano. Amélia, a quem o genro matou a filha e um filho, foi uma das muitas vozes que gritaram "basta", principalmente contra a inércia de uma Justiça que resulta em famílias desfeitas.

Três órfãos. Esta é a dimensão da dor de Amélia Santos, de 69 anos, que há cinco anos chora a morte da filha e do filho, mortos às mãos do genro, em Monte Abraão (Sintra). Devido aos ciúmes do homicida, que cumpre agora uma pena de 20 anos de prisão, as duas vítimas mortais deixaram órfãos três meninos, com idades entre os cinco e os 9 anos.

Amélia foi uma das centenas de pessoas que, junto à escadaria do Parlamento, gritaram "basta" e "nunca mais", acompanhadas de balões pretos para simbolizar as vítimas mortais. Mas esta "avó-coragem", com muitas lágrimas à mistura, gritou também contra "um Ministério Público surdo", que acusa de nada ter feito "para parar as ameaças" do genro.

"Foram três meses, [com o homicida] a ameaçar a minha filha. Como era licenciado em Direito e sabia mexer-se, era tudo arquivado e chutado para canto. O meu neto, que tinha cinco aninhos e vai fazer agora 10 anos, lembra-se de todas as vezes que a mãe foi ameaçada de morte. Gostaria de perguntar ao Ministério Publico: os senhores sabem a dor que sinto há cinco anos consecutivos? Sabem o que é ser avó e mãe com esta idade?", questionou.

Primeiro, o genro matou-lhe o filho, de 41 anos e pai de dois meninos. Depois, a filha, de 42 anos e mãe de um menino. Apesar de o homicida estar a cumprir já pena por um dos assassinatos, Amélia Santos continua a defender que "o Ministério Público é o grande culpado disto tudo". "Tudo isto aconteceu em 2014, mas há uma semana outra tragédia se repetiu".

Por isso, a Justiça não funciona neste país", disse, debaixo de chuva, denunciando a falta de apoio do Estado "aos menores órfãos de mães mortas". Um lamento que já tinha deixado junto de Marcelo Rebelo de Sousa, na sexta-feira, quando o presidente da República recebeu associações de apoio às vítimas de violência doméstica.

Manifestação apolítica

O protesto, organizado por oito pessoas sem qualquer filiação partidária, surgiu no Facebook após a oitava morte de uma mulher há cerca de uma semana e meia.

Segundo Joana Marques, uma das organizadoras da manifestação, a expectativa era "sensibilizar consciências para os trágicos acontecimentos que estão a decorrer desde o início do ano".

"Temos a plena noção de que esta manifestação pode ser uma gota de água mas é importante para acordar poder político, os nossos decisores e a sociedade. Este é um exercício de cidadania", reforçou Joana Marques, ao JN, no arranque do desfile, no Marques de Pombal, em Lisboa, que foi acompanhado por chuva até à escadaria do Parlamento.

Batalha sem géneros

A esmagadora maioria dos manifestantes rumou a Lisboa tendo ainda bem fresco na memória o caso de Pedro Henriques, de 39 anos, que suicidou-se após ter esfaqueado mortalmente a sogra, na última segunda-feira, e matado a filha de dois anos, com quem fugiu de carro, depois do primeiro crime, no Seixal.

"Se é isto um país de brando costumes, onde a falta de educação e bases civilizacionais impera, então há muito mudar. Não se pode continuar a fingir que nada está acontecer, reagindo apenas como se de episódios pontuais se tratassem", apontou Vasco Teodoro, de 38 anos, de Almada. "Isto é uma batalha que não tem géneros", acrescentou.

Presentes na manifestação, que começou pouco depois das 15 horas, estiveram representantes políticos do Bloco de Esquerda, PAN, a deputada socialista Isabel Moreira e ainda o deputado independente Paulo Trigo Pereira, que abandonou a bancada do PS há cerca de um mês.

A manifestação terminou perto já depois das 17 horas com uma concentração junto à escadaria do Parlamento, onde se realizou um minuto de silêncio pelas "vítimas de violência doméstica em 2019 e de todos os outros anos".

BE alerta para mensagem deste protesto

Ao JN, Sandra Cunha, do BE, considerou que, "esta marcha, por acabar junto à Assembleia da República, é um sinal e um grito para que se façam propostas, alterações e se mudem algumas coisas". "Não é por acaso que estas pessoas vieram aqui", apontou.

"Aquilo que estas pessoas vieram aqui pedir são matérias que vêm plasmadas em vários relatórios internacionais, no Relatório de Segurança Interna do Governo português, também nos relatórios da Equipa de Análise Retrospectiva de Homicídio em Violência Doméstica. Todos apontam para a necessidade de uma série de alterações naquilo que são os procedimentos, os apoios, mas também quanto à legislação", sublinhou.

A bloquista garantiu que o BE vai "continuar a bater-se contra uma inércia" e "os restantes grupos parlamentares, que mostram uma resistência enorme incompreensível", para responder a esses relatórios.