O Jogo ao Vivo

2004

Desaparecimento de Joana: Um caso com angústia, choque e horror

Desaparecimento de Joana: Um caso com angústia, choque e horror

Em setembro de 2004, na aldeia de Figueira, Portimão, desaparecia Joana, uma menina de oito anos. O país ficou em suspenso com o seu desaparecimento, até que, nove dias depois, a prisão da mãe e do tio atiraram uma nação em angústia para um estado de choque e horror. O corpo nunca foi encontrado. A mãe saiu em liberdade, esta quinta-feira.

A morte da pequena Joana foi um dos crimes mais marcantes da história recente de Portugal. A 12 de setembro de 2004, Leonor Cipriano queixou-se de que a sua filha, de oito anos, tinha desaparecido. A mãe andou a distribuir e a afixar folhetos com a fotografia de Joana na aldeia de Figueira, onde residia, e nas redondezas. Chorosa, deu entrevistas a pedir que devolvessem a sua filha e que não a maltratassem. Autoridades e voluntários vasculhavam sem parar as redondezas.

A 21 de setembro, Leonor e o irmão, João, são detidos para surpresa de todos. Em interrogatórios, que depois viriam a levantar muita polémica, ambos admitiram responsabilidades na morte da menina, que alegam ter sido espancada até à morte por acidente.

Após as confissões, a PJ deu início a nova série de buscas, incluindo escavações em lixeiras, com base em indicações fornecidas pelos irmãos. Passaram-se dias neste jogo. Sempre sem resultado.

16 anos e oito meses de prisão

Em novembro de 2005, Leonor é condenada em Tribunal de Júri a 20 anos e quatro meses de prisão e João a 19 anos e dois meses de prisão. Em 2008, o Supremo Tribunal de Justiça fixaria as penas em 16 anos e oito meses de prisão para cada um. Na decisão de 2005, fala-se da perversidade do crime e da mãe, "carrasco" da própria filha, que, juntamente com o irmão, espancou até à morte.

Várias versões apareceram para os motivos da morte da menina. Numa das linhas de investigação, especulou-se que a menina teria apanhado os dois irmãos em atos sexuais e que, para evitar que contasse o que tinha visto, decidiram matá-la. Noutra versão, contada mais tarde por Leonor e também pelo irmão, o casal teria decidido vender a menina mas o dinheiro não apareceu. A menina apercebeu-se de qual seria o seu destino. Protestou e acabou morta à pancada.

Apesar de não ter determinado os motivos da morte, o tribunal deu como provado que Leonor e o irmão decidiram friamente apagar todos os vestígios do crime. Segundo a decisão do tribunal, o corpo da pequena criança foi cortado em pedaços com "uma faca e uma serra de cortar metal" e enfiada em três sacos de plástico. Nunca foi provado qual o seu destino, mas muitos apontaram como provável que os restos mortais de menina tenham sido dados a comer aos porcos.

Tribunal confirma tortura mas sem culpados

Mais tarde, o caso viria novamente a ganhar protagonismo, desta vez, por causa de acusações de tortura durante um dos "duros" interrogatórios em que Leonor Cipriano terá confessado.

Detida e colocada com um saco na cabeça, para não poder identificar agressores, Leonor foi sovada. Os inspetores da PJ tinham alegado que a mãe de Joana ficou com pisaduras porque caíra nas escadas.

Em 2008, o Tribunal deu como provado que Leonor foi agredida na PJ, mas não conseguiu apurar por quem. No tribunal, Leonor entrou em contradição sobre como foi agredida, por quantas pessoas e com que objetos.

Dois inspetores, Gonçalo Amaral (então coordenador da PJ de Portimão) e António Cardoso, viriam a ser condenados (o primeiro a um ano e meio com pena suspensa e o segundo com dois anos de pena suspensa) mas apenas por falsificação de depoimento e de documento, ao terem feito constar em autos a história da queda, que se provou ser falsa.

"Não matei a minha filha"

Esta quinta-feira, após cumprir cinco sextos da pena, Leonor Cipriano saiu em liberdade condicional e, à porta da prisão, jurou a sua inocência: "Fui condenada sem provas. Não matei a minha filha. Nunca lhe faria mal. Só confessei tudo porque fui agredida na PJ de Faro".

ver mais vídeos