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Duas pessoas vendidas em rede de trabalho escravo

Duas pessoas vendidas em rede de trabalho escravo

Duas organizações distintas, uma operando a partir da Zona Centro e outra de Trás-os-Montes, que abordavam pessoas desempregadas e outras em situação vulnerável em Portugal para as escravizar na agricultura, em Espanha, foram desmanteladas pelas autoridades dos dois países.

As vítimas do Norte eram mantidas em cativeiro em La Rioja, Espanha, onde a Guardia Civil, o SEF e a PJ resgataram 30 vítimas. Uma delas tem apenas 16 anos e outra tinha sido vendida, há dez anos, ao líder do grupo de Trás-os-Montes, entretanto detido com quatro cúmplices. Na outra operação, a PJ de Coimbra e a Guardia Civil detiveram mais cinco pessoas.

As vítimas nortenhas eram abordadas na rua, onde o líder da organização, um indivíduo referenciado por tráfico de droga e contrafação, lhes prometia salários de dois a três mil euros para trabalharem nas vindimas ou apanha da fruta em Espanha. Perante as promessas e sem perspetiva de futuro em Portugal, os desempregados aceitavam embarcar para as zonas de La Rioja e de Navarra, onde, afinal, a realidade era outra.

De acordo com informações recolhidas pelo JN, o líder, conhecido como "Patrono", ficava com os documentos das vítimas e obrigava-as a trabalhar "de sol a sol", muitas vezes sem refeições condignas, pelo menos na hora de almoço. Sempre que reclamavam das condições, os escravizados eram violentados e ameaçados. Nenhum era inscrito na Segurança Social local, nem fazia descontos.

Dormida a 20 euros por dia

Os trabalhadores eram obrigados a dormir em camaratas, com cerca de duas dezenas de outras vítimas nas mesmas divisões, sem condições de higiene e de salubridade.

O cabecilha recebia cerca de 50 euros dos empregadores espanhóis por cada dia de trabalho das vítimas, às quais cobrava 20 euros por dia, só pelo alojamento, situado nas localidades de Alcanadre e Bergasa, onde a Guardia Civil, o SEF e a PJ resgataram as vítimas.

Para controlar constantemente os trabalhadores, "Patrono" contava com o apoio de três membros do seu clã, também detidos na operação, que foi batizada com o nome de "Taranis". Todos vão agora responder por crimes de tráfico de seres humanos para exploração laboral, mas também por fraude fiscal e à Segurança Social.

investigação conjunta

A operação é fruto de uma investigação conjunta da Guardia Civil, do SEF e da Polícia Judiciária.

O "Patrono", que tem residência em Trás-os-Montes e que fazia o vaivém entre La Rioja e Portugal, foi vigiado em território nacional, onde eram recrutadas as vítimas. Para além de responder pela escravidão em Espanha, o indivíduo também poderá ser indiciado em Portugal por branqueamento de capitais e tráfico de seres humanos.

As investigações vão prosseguir e poderá haver mais detidos.

Empresas fictícias investigadas por fraude económica

As autoridades espanholas também estão a investigar várias empresas que dariam cobertura ao esquema da mão de obra ilegal. Para além dos portugueses, um indivíduo de nacionalidade espanhola também foi detido por suspeitas de ter, em parceria com o líder português, criado várias firmas destinadas a defraudar os impostos.

As empresas declaravam funcionários fictícios, com documentação falsificada, apenas para poderem receber incentivos à contratação. E também serviam para obter de forma fraudulenta subsídios de desemprego e para renovar autorizações de residências a imigrantes ilegais.

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