Julgamento

Suecos acusados de burla internacional em Setúbal dizem-se enganados por amigos

Suecos acusados de burla internacional em Setúbal dizem-se enganados por amigos

Um casal sueco acusado de burlar em 1,7 milhões de euros empresas internacionais a partir de um computador em casa, em Setúbal, negou segunda-feira, no Tribunal de Setúbal, a autoria da burla e apontou a responsabilidade a dois homens, um inglês e outro brasileiro, por quem dizem ter sido enganados. Durante as alegações iniciais, Michel M. disse que os dois amigos, Edward e Lucas, lhe pediram para abrir contas em Portugal para facilitar negócios no imobiliário. "Só percebi o que estava em causa quando fui detido".

O sueco de 38 anos contou aos juízes que foi numa noite de diversão em Lisboa que recebeu o convite por parte de "Edward" e "Lucas" a abrir contas. "Como contrapartida recebia uma percentagem do dinheiro que passava nas contas bancárias", referiu Michel, que garantiu nunca ter questionado a real proveniência do dinheiro. "Nessa altura tinha um grande vício por cocaína e este dinheiro servia em grande parte para comprar droga".

Michel afastou qualquer responsabilidade no crime praticado pela sua companheira, Malicka N., que deixou um emprego numa loja de roupa em Estocolmo para viver em Setúbal a partir de maio de 2017. Em tribunal, a sueca de 28 anos assumiu ter aberto contas em bancos setubalenses a pedido de Michel, mas nunca as utilizou nem fez perguntas devido à confiança cega que tinha no companheiro.

Michel M., de 38 anos, e Malicka N., de 28, estão acusados de burla, branqueamento e acesso indevido. Outros oito arguidos que cediam as suas contas para receber o dinheiro, as chamadas "mulas financeiras", respondem por receptação.

O casal sueco veio viver para Portugal em meados de 2017, quando ele era procurado na Suécia por burlas informáticas. De acordo com o Ministério Público (MP), os arguidos utilizaram o chamado "phishing" eletrónico, através do qual conseguiam entrar em caixas de correio eletrónico de empresas e assim roubar a correspondência comercial. Identificavam outras firmas que deviam dinheiro à empresa "pirateada". As faturas pendentes de pagamento eram aproveitadas e, fazendo-se passar pela empresa credora, enviavam um email aos devedores para que saldassem as dívidas. Na carta eletrónica, colocavam números de contas bancárias que controlavam para receber o dinheiro. Desviavam assim as quantias do legítimo beneficiário.

Ao JN, o advogado do casal, Lopes Guerreiro, considerou que o MP não tem qualquer prova que permita concluir que os crimes foram cometidos pelo casal, nem em casa, nem em Setúbal. "Não há uma única prova que permita chegar a essa conclusão, nem as próprias análises feitas ao computador do Michel não mostram isso", avança.

A primeira empresa lesada identificada pela investigação foi uma romena, dedicada ao fabrico de cortinados e que devia 64 mil euros a uma fábrica chinesa, vítima de phishing pelo casal. Fazendo-se passar pela empresa credora, o casal enviou um e mail à firma romena, exigindo o pagamento de 76 mil dólares pela aquisição de maquinaria e indicando uma conta aberta numa dependência bancária setubalense.

Maria Iancu, representante da empresa, conta ao JN que a burla prejudicou a empresa que teve que recorrer à banca para pagar a dívida. "Este dinheiro ia servir para aumentar a produção, criando mais postos de trabalho, mas agora o projeto ficou em stand by". A representante tentou junto do tribunal que a verba fosse já devolvida à empresa, visto que se encontra congelada à ordem das autoridades, mas sem sucesso.