Tancos

Investigador da PJ Militar diz que mentiu sobre armas roubadas de Tancos por ordem superior

Investigador da PJ Militar diz que mentiu sobre armas roubadas de Tancos por ordem superior

O investigador da Polícia Judiciária Militar major Pinto da Costa revelou esta quinta-feira que o seu superior coronel Estalagem lhe pediu para mentir aos procuradores do Ministério Público sobre o armamento furtado em Tancos ter sido recuperado devido a uma chamada anónima.

"O coronel Estalagem, meu superior, disse-me no caminho entre Santa Margarida e o Departamento Central de Investigação e Ação Penal no dia em que as armas foram recuperadas: 'Tens de confirmar a questão da chamada anónima', e eu cumpri", afirmou arguido e investigador da Polícia Judiciária Militar (PJM) no julgamento do processo Tancos, apesar de assumir que sabia que o material bélico tinha sido recuperado devido à colaboração de um informador.

Para explicar a sua atitude, Pinto da Costa referiu diversas vezes durante o interrogatório que sempre cumpriu ordens e que, enquanto militar, nunca as questionava tal como aconteceu com o que lhe "mandaram dizer" na reunião do DCIAP, acrescentando que não falou da existência de um informador "porque não lhe pediram para dizer".

Segundo o major, sempre trabalhou como investigador da PJM no processo do furto de armas dos paióis de Tancos [que tinha o n.º 48] e sempre prestou contas aos seus superiores, nomeadamente ao coronel Estalagem e ao capitão Bengalinha.

"Para mim tudo estava dentro da legalidade, havia um processo aberto e eu sempre trabalhei nele", dando conta das várias diligências que efetuou com elementos da GNR de Loulé, nomeadamente com o arguido Bruno e Ataíde e sargento Lima Santos.

O oficial do polo da PJM do Porto afirmou também que tinha conhecimento que o processo de Tancos estava a ser acompanhado ao mais alto nível.

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"A minha convicção era que o Presidente da República e o ministro estavam a par de todo processo de investigação, porque o coronel Estalagem estaria a passar toda a informação recolhida", afirmou Pinto da Costa, acrescentando que assistiu ao envio de um e-mail por parte de Luis Vieira ao chefe da casa militar de Marcelo Rebelo de Sousa, tenente-general João Cordeiro, e depois a um telefonema entre ambos.

Questionado sobre a investigação ao furto, que realizou juntamente com os militares da GNR Lima Santos e Bruno Ataíde, o investigador chefe da PJM, disse que teve alguns encontros com o informador João Paulino, que sabia ser amigo de infância do arguido Ataíde, mas que "nunca soube que ele estava implicado no roubo e que entregava as armas a troco da sua não implicação no furto".

Informou ainda os juízes que estas diligências com a GNR de Loulé "eram do conhecimento do coronel Luis Vieira e do Estalagem".

Segundo o arguido a sua implicação na encenação da recuperação do armamento roubado deve-se ao facto de ter "cumprido ordens".

"Estou aqui [em julgamento] porque cumpri ordens. Fiz um juramento à nação. Andei sempre a trabalhar no processo que a PJM tinha", afirmou o arguido, contestando a existência de um pacto de silêncio, como alega o Ministério Público.

"Não há nenhum pacto de silêncio. Passei todas as informações ao coronel Estalagem e ao capitão Bengalinha, e o Estalagem não está aqui, contestou.

Pinto da Costa está acusado de sete crimes, cinco dos quais em coautoria: Associação criminosa, tráfico e mediação de armas, falsificação ou contrafação de documentos, denegação de justiça e prevaricação, favorecimento pessoal praticado por funcionário e dois crimes de detenção de arma proibida.

O processo de Tancos tem 23 arguidos, dez arguidos respondem por associação criminosa, tráfico e mediação de armas e terrorismo, pelo alegado envolvimento no furto do armamento e os restantes 13, entre eles Azeredo Lopes, dois elementos da PJM e vários militares da GNR, sobre a manobra de encenação da recuperação do material ocorrida na região da Chamusca, numa operação que envolveu a PJM, em colaboração com elementos da GNR de Loulé.

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