Julgamento

Homicídio no Algarve: Mariana recusa falar na presença da ex-namorada

Homicídio no Algarve: Mariana recusa falar na presença da ex-namorada

As duas jovens, acusadas de matar Diogo Gonçalves, de 21 anos, e esquartejar o corpo começaram a ser julgadas esta quarta-feira pelo Tribunal de Portimão. Maria Malveiro, segurança, de 20 anos, e Mariana Fonseca, enfermeira, de 24, respondem pelos crimes de homicídio qualificado, profanação de cadáver, dois crimes de acessos ilegítimo, um de burla informática, roubo simples e uso de veículo. São suspeitas de terem matado Diogo, em março do ano passado, para ficar com 70 mil euros que tinha recebido de indemnização pelo atropelamento mortal da mãe.

Maria e Mariana foram identificadas pela Polícia Judiciária (PJ) graças aos movimentos bancários que fizeram após a morte de Diogo Gonçalves. As duas namoradas transferiram dinheiro para as próprias contas e foram filmadas pelas câmaras das caixas ATM de onde levantaram dinheiro. Também foram traídas pelos sinais dos telemóveis da vítima, detetados junto à casa das arguidas, em Lagos.

Quando foram ao encontro de Diogo, a 20 de março de 2020, levaram três ampolas de "diazepam", abraçadeiras, uma faca "ponta e mola", sacos de plástico, fita adesiva e luvas descartáveis. Inspiradas pela série Dexter, como uma delas admitiu no primeiro interrogatório judicial, conseguiram tirar a vida ao jovem, esquartejar o corpo e espalhá-lo em zonas distintas do Algarve.

Mas deixaram muitas pistas que permitiram à PJ identificá-las desde logo como suspeitas. De acordo com um inspetor da Judiciária, ouvido como testemunha na primeira sessão de julgamento, a investigação conseguiu apurar que foram feitos vários levantamentos de dinheiro da conta da vítima no multibanco. "O primeiro logo na noite em que terá ocorrido a morte", no valor de 400 euros, disse o inspetor Nuno Nunes.

Foram também detetados levantamentos de 400 euros "numa caixa no Hospital de Lagos" onde Mariana trabalhava como enfermeira e "outro em São Brás de Alportel", além de transferências para as contas de cada uma das arguidas. Nuno Nunes referiu também que terão usado o dedo indicador que cortaram à vítima para desbloquear o telefone e utilizar a aplicação Mbway e ainda para enviar mensagens para amigos e colegas a justificar a ausência do rapaz.

Para o inspetor, não restam dúvidas de que ambas "tiveram a mesma participação no crime". Mariana terá fornecido as ampolas utilizadas para drogar e imobilizar Diogo. Tinha na sua posse uma ampola quando foi detida. Também estava presente na altura do corte dos dedos em casa da vítima, no esquartejamento do corpo na garagem do prédio onde as duas moravam e quando se livraram dos restos mortais.

Enfermeira incrimina a ex-namorada

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O início do julgamento ficou marcado pelas declarações de Mariana, que aceitou falar, mas pediu que Maria saísse da sala de audiências. A enfermeira afirmou desconhecer a indemnização e a existência de um plano para matar Diogo e negou o envolvimento no homicídio e no esquartejamento do corpo. Apenas reconheceu ter ajudado na ocultação do cadáver e na limpeza da casa da vítima, em Algoz, Silves, onde ocorreu a morte e o corte dos dois dedos.

Disse que acompanhou Maria a casa de Diogo, julgando que o informático iria instalar umas colunas no carro. Esperou na viatura por estar "cansada", até Maria lhe pedir ajuda. Viu Diogo "inconsciente", "preso numa cadeira" e ficou "em "pânico". Reanimou-o e Maria mandou-a para o quarto. Ouviu barulho de "luta", mas não interveio nem pediu socorro. Voltou à sala e confirmou que o jovem não tinha sinais vitais. "A Maria pediu-me ajuda e perguntou se a amava", acrescentou. Justificou as suas atitudes com o "amor doentio" que sentia por Maria, que "era a pessoa que mais amava no Mundo".

Esta versão da enfermeira é contrária à que apresentou no primeiro interrogatório judicial. Na altura, ela e Mariana confessaram os crimes numa sessão que impressionou o juiz pela "frieza", "naturalidade" e "desprezo pela vida humana" demonstrada pelas arguidas. Maria chegou mesmo a admitir ter-se inspirado na série Dexter e que pretendia arrancar os dentes a Diogo para que não fosse identificado, mas não conseguiu fazê-lo porque a língua inchou. Eram namoradas e pediram ao tribunal que as deixasse ficar juntas, na mesma cela, em prisão preventiva. Entretanto, zangaram-se e a nova versão de Mariana coincide com o fim da relação amorosa, já na cadeia de Tires, onde estão agora em celas separadas.

Atraído para uma armadilha

Diogo era apaixonado por Maria, que conheceu no hotel onde trabalhava como informático. Desconhecia que a colega namorava com Mariana. Oferecia-lhe prendas e contou-lhe que recebera 70 mil euros. Aceitou recebê-la em casa, no dia 20 de março do ano passado, e acabou asfixiado até à morte, depois de ter sido drogado e amarrado a uma cadeira, com a promessa de uma dança sensual.

De acordo com a Acusação, quando estava já sem vida, Maria cortou-lhe o dedo polegar e o indicador da mão direita com uma "ponta e mola", que guardou num envelope para mais tarde aceder às contas bancárias através das impressões digitais. O corpo foi colocado em sacos de plástico e transportado no carro da vítima até à casa das arguidas, em Lagos, e desmembrado no dia seguinte, na garagem, com um cutelo furtado num supermercado.

O tronco foi atirado de uma falésia em Sagres onde também abandonaram o carro. A cabeça, mãos e pés foram lançados a uma cascata, em Tavira. Os restos mortais foram encontrados no dia 26 e as namoradas detidas a 2 de abril. A próxima sessão do julgamento está marcada para esta sexta-feira.

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