Famalicão

"Noviça" fugiu do "convento" de Requião e esteve duas noites "no mato"

"Noviça" fugiu do "convento" de Requião e esteve duas noites "no mato"

Uma das "noviças" que fugiu do "convento" da Fraternidade Cristo Jovem, em Requião, Famalicão, relatou, esta terça-feira, ao coletivo de juízes do Tribunal de Guimarães que era alvo de castigos e insultos, que não podiam comer muito, o medo que sentia e o dia em que fugiu.

O padre Joaquim Milheiro e três "freiras" do "convento", Isabel, Arminda e Joaquina estão a ser julgados por escravidão de "noviças" durante anos. Há noviças que fugiram, e duas foram retiradas da instituição aquando das buscas da Polícia Judiciária, em novembro de 2015.

Ana França foi uma das jovens que no início de 2007 fugiu do "convento". "Fugi pelo parque de estacionamento, e estive duas noites no mato a pensar o que ia fazer", contou ao tribunal explicando que não tinha documentos, dinheiro nem telemóvel.

"Quando fugi, só queria sair dali. Preferia morrer a ficar ali", afirmou explicando que fugiu para "o meio do mato" porque sabia que elas (as "freiras") iam à sua procura pela estrada. Entretanto, pediu ajuda a uma noviça que anteriormente tinha fugido do "convento".

Sempre com um testemunho emocionado a antiga "noviça" contou que foi ao convento passar uns dias quando tinha 16 anos, mas entretanto ficou já que com as "leituras de domingo" lhe foi incutido "medo" de sair. "Contam-nos histórias de raparigas que tinham vocação e desistiam da vida religiosa e sofriam castigos divinos e na família", relatou.

Esse pensamento ficou de tal forma enraizado que depois de fugir Ana começou a culpar-se de "tudo o que acontecia", tendo mesmo tentado suicidar-se.

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"Não saí mais cedo porque a minha família estava longe, não conhecia ninguém, e tinha medo de dizer que queria ir embora porque elas liam os livros em que quem ia embora tinha o demónio", esclareceu.

A "noviça" contou ainda, que sofriam castigos de Arminda "quase todos os dias", assim como agressões, e que não podiam "comer muito" porque era "gula" e era chamada de "gulosa" apesar dos dias de trabalho de "15/16 horas".

Recorde-se que Arminda negou em tribunal, as agressões e os maus tratos, tendo apenas admitido "umas chapadas" chegando mesmo a dizer que a acusação é "frojada".

Por outro lado, Ana relatou que as visitas das famílias à Fraternidade eram sempre "controladas", normalmente por Joaquina, assim como os telefonemas. "Se pudesse falar à vontade, não tinha estado lá nem três meses. Estava sempre alguém por perto", disse.

Ana confessou que a passagem pela Fraternidade Cristo Jovem a traumatizou "para a vida todo". "Ia em busca de paz, e não encontrei paz. Faltava amor, respeito e compressão com os outros", notou.

"Ali vivíamos uma farsa, falavam muito em amor mas não sabem amar", concluiu.

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