Tribunal

"Desmaiei várias vezes", relata adepto do Boavista agredido pela PSP

"Desmaiei várias vezes", relata adepto do Boavista agredido pela PSP

Os onze agentes da PSP que começaram a ser julgados esta quarta-feira de manhã por agressões a um adepto do Boavista, em 2014, em Guimarães, remeteram-se ao silêncio. Já o adepto que ficou sem um olho fez um relato brutal dos acontecimentos, mas não soube dizer quais os três, entre os onze, que o espancaram.

Empurraram-no, deram-lhe joelhadas, socos, pontapés, cotoveladas e bastonadas até perder os sentidos. Depois, deixaram-no prostrado no chão. As agressões a João Freitas, advogado de profissão e adepto do Boavista, à data com 35 anos, aconteceram a 3 de outubro de 2014, nas imediações do Estádio Dom Afonso Henriques, em Guimarães, nos momentos que antecediam a partida entre o Vitória e o Boavista.

Os onze agentes da PSP - entre os quais Paulo Rodrigues, do maior sindicato nacional da polícia - começaram a ser julgados esta manhã no Tribunal de Guimarães por um crime de ofensa à integridade física qualificada. Ao coletivo de juízes, disseram que não queriam prestar declarações, à semelhança do que aconteceu durante todo o inquérito. Apesar de todos pertencerem ao Corpo de Intervenção responsável por "escoltar" os adeptos do Boavista onde estava a vítima, nenhum denunciou quem foi o autor das agressões que partiram dois maxilares e o nariz ao adepto, que também ficou sem um olho.

"Deram-me cabo do olho, da cara, com socos e pontapés, e desmaiei várias vezes", disse a vítima, em julgamento. João Freitas, agora mais pesado por causa da medicação e de barba para esconder as cicatrizes, tinha casamento agendado e o batizado do filho para a semana seguinte à do jogo. Viu o casamento e a vida profissional de advogado adiados devido aos tratamentos médicos a que teve de se submeter ao longo dos últimos anos.

Relatou, comovido e nervoso, como era feliz antes das agressões, que não era da claque boavisteira e que tinha ido ver o jogo a Guimarães nas camionetas "porque era, supostamente, mais seguro", acrescentou.

As agressões começaram quando João esperava pelo irmão, que saía de uma das camionetas, e um dos agentes lhe disse: "Não podes parar aí, toca a andar filho da puta". Seguiu-se o empurrão e as primeiras agressões desse agente, a que se somaram mais bastonadas, socos e pontapés de mais dois agentes, relatou o jovem. Enquanto três lhe batiam, os restantes fizeram um cordão policial que protegeu a agressão, impedindo que os outros adeptos do Boavista socorressem a vítima enquanto esta era espancada.

Hoje de manhã, enquanto a vítima João Freitas lembrava o momento brutal, Paulo Rodrigues e mais dez agentes assistiram em silêncio ao relato. Os onze fazem parte de uma equipa específica do corpo de intervenção que surgiu do lado direito das camionetas boavisteiras, precisamente o lado de onde João Freitas e o irmão dizem ter surgido os agentes agressores. Contudo, como todos os polícias daquela unidade estavam com capacetes e viseiras, nenhum dos irmãos soube dizer quais foram os três que agrediram e os que ficaram a proteger.

Esta foi a segunda vez que João Freitas falou publicamente sobre a agressão. A primeira vez foi no programa Sexta às 9, da RTP, quando foi denunciado um alegado pacto de silêncio dentro da PSP para esconder os autores da agressão. No debate que sucedeu o programa, Paulo Rodrigues participou, mas não disse que fazia parte da equipa da qual fazem parte os agressores. "Na altura, no programa, disse-me que gostava que se encontrassem os responsáveis e desejou-me as melhoras", contou, hoje, João Freitas. À saída do tribunal, o advogado dos onze agentes não quis prestar declarações aos jornalistas.