Tribunal

Padre e freiras de Famalicão começam a ser julgados por escravizarem noviças

Padre e freiras de Famalicão começam a ser julgados por escravizarem noviças

Um padre de 89 anos e três "freiras" com idades entre os 69 e os 73 anos, da Fraternidade Cristo Jovem, situada em Requião, Famalicão, começam a ser julgados esta quarta-feira à tarde, no ​​​​​​​Tribunal de Guimarães, por escravizarem "noviças" durante cerca de 30 anos.

Cerca de seis anos depois de as denúncias terem levado a Polícia Judiciária do Porto a fazer buscas na instituição, o caso chega agora a julgamento. Há uma dezenas de alegadas vítimas identifidas no processo.

O padre Joaquim Milheiro e as três "freiras" - como a instituição não é um convento mas sim uma associação de fiéis, as arguidas não são realmente freiras nem as vítimas noviças - estão acusados de angariarem jovens para as "usarem" no desempenho de tarefas da congregação, mantendo-as em regime de "total submissão" e aplicando-lhes castigos. Segundo a acusação, as vítimas estavam proibidas de tomar pequeno-almoço e banho, tinham de ficar nuas à frente umas das outras, eram forçadas a autoflagelar-se, andar com objetos partidos à cintura o dia todo ou com dejetos de cão no bolso da bata, e eram obrigadas a jantar com os joelhos em cima do prato.

Os quatro arguidos são ainda acusados de utilizarem as jovens para realizarem as tarefas diárias de conservação e manutenção das instalações da instituição, uma propriedade com cerca de quatro hectares, sem qualquer renumeração. Há a descrição de jornadas de trabalho de 20 horas. Além do "clima de terror" a que eram sujeitas, as "noviças" estavam, segundo a acusação, privadas de informação, contactos familiares e até da sua documentação.

A PJ começou a investigar o caso em julho de 2015, tendo realizado buscas na instituição em novembro do mesmo ano. Até ao dia das buscas, a propriedade era identificada como um convento, como aliás ainda atesta a placa colocada no portão, mas as autoridades religiosas esclareceram que não se trata de um convento mas de uma associação de fiéis.

Durante as buscas, a PJ resgatou duas "noviças", que estavam na instituição há 10 e 25 anos, sendo que as restantes entretanto conseguiram sair ou fugir. Depois de terem sido resgatadas, as vítimas foram para o centro de acolhimento de uma instituição de apoio a pessoas vítimas de trafico de seres humanos, onde relataram as longas jornadas de trabalho, a ausência de dias de descanso ou salário e os castigos físicos. De acordo com o relatório elaborado pela mesma associação, as duas tinham sintomas depressivos, ansiedade e complexo pós-traumático, assim como um "marcado perfil de submissão", atendendo "aos longos anos de vivência em obediência quase inquestionável".

PUB

Entretanto, o processo da morte de Amélia Serra, uma irmã de 55 anos que se terá suicidado em 2004 no interior da associação religiosa, foi reaberto na sequência da entrevista do JN a uma "noviça" que fugiu e que relatou agressões a Amélia. A família da vítima considera que os "maltratos e humilhação" a que terá sido sujeita durante mais de 20 anos levaram Amélia a entrar num estado de depressão grave que a "levou a suicidar-se". Os familiares consideram que o arcebispo de Braga e a Diocese tinham o dever de vigilância relativamente à instituição, o que não se verificou apesar das "queixas e denúncias", e por isso pedem uma indemnização de 335 mil euros, não só aos arguidos, mas também à Diocese e ao arcebispo Jorge Ortiga.

Também cinco das jovens escravizadas pedem uma indemnização total de cerca de 900 mil euros por maus tratos e escravatura, e pelo trabalho não pago que foram obrigadas a fazer.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG