Investigação

Pai e madrasta deixaram Valentina seis horas morta no sofá

Pai e madrasta deixaram Valentina seis horas morta no sofá

Tortura com água a escaldar e pancadas aconteceram durante o banho de manhã. Valentina desfaleceu e morreu depois do almoço. Casal esperou pela noite para se desfazer do cadáver.

A pequena Valentina esteve cerca de seis horas morta no sofá, onde o pai e a madrasta a deixaram, depois de o progenitor a ter torturado com água a escaldar e pancadas, durante o banho de manhã, na casa de Atouguia da Baleia, Peniche. Só depois de horas sem vida, quando já era noite e mediante um menor risco de ser apanhado, é que o casal decidiu desfazer-se do corpo. Levaram-no para o pinhal de Serra D"El Rei, onde acabaria por ser encontrado pelas autoridades, que detiveram Sandro e Márcia Bernardo.

De acordo com informações recolhidas pelo JN, a autópsia não logrou estabelecer com precisão a hora da morte. Mas a investigação da PJ - que cruzou o relatório pericial com os depoimentos dos arguidos e do filho mais velho da madrasta - situa o falecimento entre o início e o meio da tarde. Como o casal admitiu ter transportado o corpo, pelas 22 horas, para o esconder no mato, as autoridades concluem que Valentina esteve cerca de seis horas morta dentro de casa.

Violência dias antes

As violentas agressões à criança começaram bem antes do dia do homicídio. As conclusões preliminares da autópsia revelaram que a menor sofreu múltiplas lesões nos dias anteriores ao crime. Foram várias pancadas em diversas partes do corpo, que o pai designava de "castigos" e "punições". As contínuas agressões terão contribuído para graves complicações de saúde, que lhe provocaram a morte.

Sandro era pressionado pela companheira para que Valentina saísse de casa. A criança tinha ido viver para a casa do pai desde o início do confinamento obrigatório e Márcia, que já tinha três filhos, desejava que a filha do companheiro voltasse para junto da mãe, no Bombarral. Para a PJ, esta tensão, ampliada pelo confinamento obrigatório, está na origem do homicídio.

Mas, além da crise familiar, o pai avançou uma explicação às autoridades sobre as agressões, sem nunca assumir ter dado pancadas violentas que pudessem provocar a morte da filha. Garantiu suspeitar que a filha seria vítima de abusos sexuais por parte de um parente da mãe, de quem está separado.

A autópsia afastou a tese dos abusos, mas o pai afirmou ter exigido explicações à filha ao longo dos últimos dias. Como ela não respondia, aplicou-lhe os "castigos". E na quarta-feira da semana passada, despejou-lhe a água a escaldar pelo corpo. De seguida agrediu-a com palmadas e pancadas na cabeça. O pai até apertou o pescoço da filha, que acabou por desfalecer.

Em vez de chamar a emergência médica, Sandro e Márcia deitaram a menina no sofá e saíram para fazer compras. Nessa ausência, o filho da madrasta apercebeu-se que Valentina espumava e ligou para os adultos. Regressaram a casa e perceberam que a criança estava morta. Esperaram até à noite para ocultar o cadáver.