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"Ouvi muitos gritos e levei com um cinto na cara", contou Jorge Jesus sobre Alcochete

"Ouvi muitos gritos e levei com um cinto na cara", contou Jorge Jesus sobre Alcochete

O treinador Jorge Jesus prestou esta terça-feira, pelas 14.20 horas, depoimento no Tribunal de Monsanto através de videoconferência em Almada sobre o ataque a Alcochete no dia 15 de maio de 2018.

No dia do ataque à Academia, Jorge Jesus viu os agressores chegarem quando estava no campo de treinos e quando entrou no balneário já os agressores estavam em fuga.

"Estava muito fumo, ouvi muitos gritos e levei com um cinto na cara". Jorge Jesus tentou reagir, correu atrás do agressor e caíram os dois ao chão. Depois, foi pontapeado e o agressor conseguiu fugir.

Já no exterior, foi agredido com soco na cara por um segundo suspeito, "um jovem que não tinha mais que 23 anos". Depois falou com Fernando Mendes que lhe disse, exaltado, que "não podia fazer nada".

Jesus contou ainda aos juízes que Fernando Mendes não lhe conseguiu explicar a razão daquelas agressões. "Aquilo foi tudo instantâneo, demorou cerca de cinco minutos, não houve tempo para explicações", refere o treinador. A única troca de palavras entre Fernando Mendes e Jorge Jesus, de acordo com o técnico, foi quando este lhe perguntou "já viste o que eles estão a fazer?" e o ex chefe da claque lhe respondeu que não podia fazer nada.

"Parecia um filme de terror"

Depois da invasão, Jorge Jesus entrou no balneário e aquilo que viu assemelhava-se a um "filme de terror". "Estava tudo virado ao contrário, mesas cadeiras, os jogadores desequilibrados e revoltados com o que aconteceu e o Bas Dost a chorar". Mais tarde, Bruno de Carvalho chegou e quis falar com os jogadores. "Disse-lhe que os jogadores não queriam falar com ele".

"Eram tantos... Lembro-me quando disseram: 'os jogadores não estão aqui, vamos para a cabine". Vi só que eram muitos. Os últimos quatro elementos que fizeram a invasão não vinham de cara tapada. Reconheci o Fernando Mendes. Esse não vinha de cara tapada e até falei com ele. Eram mais de 30, isso tenho a certeza que eram. Parecia a marcha de corrida de um pelotão de guerra, a dizer 'a gente quer é os jogadores" e a começarem a correr", recordou Jorge Jesus.

Despedimento de Jesus levou a adiamento do treino para a tarde

Jorge Jesus disse ao tribunal que tinha o treino marcado para dia 15 de maio de manhã, mas no dia anterior esteve reunido com Bruno de Carvalho, que despediu a equipa técnica e aconselhou o técnico a dirigir-se à Academia à tarde, tendo em conta que não havia tempo para preparar a nota de culpa durante a manhã.

"Lembro-me da primeira intervenção de Bruno de Carvalho como se fosse hoje, tinha chegado ao fim da linha". Jorge Jesus acrescenta que "o presidente disse para estar preparado porque os advogados do Sporting iam realizar a nota de culpa e não sabia muito bem quanto tempo iam demorar a fazer". Assim, prosseguiu, "se a nota de culpa não aparecesse até ao meio dia íamos dar o treino à tarde". O treinador comunicou então com o Secretário Técnico que reagendou o treino.

Jorge Jesus lembra-se ainda que Bruno de Carvalho queixou-se de ter estado a falar com Fernando Mendes até às sete da manhã dessa segunda-feira, um dia antes do ataque, devido aos incidentes no aeroporto da Madeira. "O presidente disse: 'vocês não sabem o que está a ser preparado, mas eu já estou a desbloquear isso'".

Sobre os incidentes na Madeira, Jorge Jesus ouviu de Fernando Mendes no aeroporto, com quem garante que não falou diretamente, que iam encontrar-se na Academia no primeiro dia de treino. "Acusou Acuña de lhe ter chamado nomes e que ninguém insultava a sua mãe", diz Jorge Jesus.

Juiz intervém para "acalmar ânimos" entre advogado de Bruno de Carvalho e Jorge Jesus

A juiz do Tribunal de Almada teve que intervir e pedir para retirar o microfone ao advogado de Bruno de Carvalho quando este começou a questionar Jorge Jesus.

Miguel Fonseca começou por perguntar a Jorge Jesus sobre que jogadores pediram para não falar com Bruno de Carvalho após o ataque à Academia. "Antes de mais boa tarde", começou por dizer Jorge Jesus. Depois, o técnico referiu que os jogadores não queriam falar com o então presidente e questionado por Miguel Fonseca para identificar que atletas disseram isso, os dois começaram a falar ao mesmo tempo. Sílvia Peres, juiz do tribunal, teve que interromper nesse momento, serenando os ânimos, como a própria referiu e colocou a questão.

Jorge Jesus explicou então que os jogadores, quando souberam que Bruno de Carvalho ia à Academia, disseram-lhe que mais valia não ir. "Quando o presidente chegou, os jogadores fugiram dele e juntaram-se na sala de estar para o evitar", explicou. Durante o depoimento, o treinador disse que se sentia alvo de interrogatório pelo advogado.

"Aqueles indivíduos não me meteram medo porque está no meu ADN não sentir medo". O antigo técnico do Sporting foi questionado por Sandra Martins, advogada de Fernando Mendes, sobre se sentiu medo perante o ataque à Academia. Jorge Jesus respondeu claramente que não.

"Um dos meus grandes erros foi deixar que final da Taça se realizasse naquele momento"

Jorge Jesus assumiu em tribunal que não devia ter levado a equipa a jogar a final da Taça de Portugal dias após o ataque à Academia. "A equipa estava perdida dentro de campo, descomprometida e sem capacidade para jogar aquele encontro e um dos grandes erros meus foi deixar que final da Taça se realizasse naquele momento", afirmou o técnico.

Sem sentir qualquer medo após o ataque, apenas tristeza que ainda hoje está presente, Jorge Jesus quis treinar em Alcochete para preparar a final da Taça, mas os atletas negaram. "Os jogadores ficaram traumatizados e recusaram entrar na Academia", afirmou o treinador, que apenas realizou um treino antes do encontro, um dia antes no Jamor, onde os atletas aceitaram treinar.

O Ministério Público chamou esta terça-feira o jogador Rúben Ribeiro, que trocara em janeiro desse ano o Rio Ave pelo Sporting e que passou entretanto pelo Al Ain (Emirados Árabes Unidos) depois da rescisão de contrato, estando agora no Gil Vicente; e Jorge Jesus, que saiu do Sporting após três épocas e rumou à Arábia Saudita (Al Hilal) e depois ao Brasil, brilhando como técnico do Flamengo, equipa com que ganhou o campeonato brasileiro e a Taça dos Libertadores.

Rúben Ribeiro sem notificação para testemunhar em tribunal

O antigo futebolista do Sporting Rúben Ribeiro, que iria falar por videoconferência, não foi notificado para testemunhar esta terça-feira em tribunal no julgamento do ataque à academia de Alcochete, confirmou à agência Lusa fonte do Gil Vicente.

"Não estava marcada nenhuma audição para hoje. Além disso, nem o Rúben nem o advogado têm qualquer audiência agendada para os próximos tempos. Como tal, o jogador apresentou-se normalmente ao trabalho", referiu fonte oficial do emblema de Barcelos.

Pelas 10.15 horas, a presidente do coletivo de juízes, Sílvia Pires, explicou que a testemunha "não compareceu" no tribunal na zona norte do país designado a partir do qual iria prestar declarações por videoconferência, e que o seu advogado tinha o telemóvel desligado.

Nesse sentido, a juíza presidente informou que entre esta terça e quarta-feira será marcada nova data para a inquirição do futebolista, que se constituiu assistente no processo e que é um dos atletas que rescindiu com o Sporting após o ataque à academia.

*com Lusa

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