Julgamento

PJM ponderou usar outro processo para fazer escutas em Tancos, diz militar

PJM ponderou usar outro processo para fazer escutas em Tancos, diz militar

O investigador-chefe que liderou, inicialmente, o inquérito da Polícia Judiciária Militar (PJM) ao assalto aos paióis de Tancos afirmou esta segunda-feira, em tribunal, que alguns elementos daquela instituição equacionaram usar outro processo para contornar a PJ civil e convencer o Ministério Público (MP) a promover a realização de interceções telefónicas na sequência do furto, em 2017.

"Respondi que não concordava, que não ia sair nenhum documento da Polícia Judiciária Militar com a minha assinatura. [...] Disse concretamente que não contassem comigo", testemunhou no julgamento, em Santarém, João Bengalinha. A intenção seria requerer escutas para pessoas que estariam ligadas a Tancos, mas associando-as a factos em investigação num outro processo sem qualquer relação com a subtração do armamento.

Na reunião, a 17 de agosto de 2017, terão estado presentes, além do investigador-chefe, Vasco Brazão, Roberto Pinto da Costa e Mário Lage de Carvalho. Dos quatro, só Bengalinha não foi acusado pelo MP de, a par de outros dez arguidos, ter contribuído para uma alegada investigação paralela ao assalto, que culminou numa recuperação encenada do material, a 18 de outubro de 2017, três meses e meio após o assalto, ocorrido a 28 de junho de 2017.

Segundo a testemunha, a hipótese terá surgido depois de a PJ civil ter rejeitado um pedido da PJM para que fossem requeridas interceções telefónicas no âmbito da investigação ao furto. Na reunião de 17 de agosto, ter-se-á ainda falado da realização pela PJM de diligências no Algarve. Bengalinha interpretou que se trataria de uma "recolha de informação" através da GNR.

Nessa altura, já a investigação era liderada, por determinação da então procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, pela PJ civil, com a coadjuvação da PJM.

"Não senti que houvesse uma blindagem para que a PJM não pudesse fazer essa recolha de informação", salientou o militar, precisando que "não era estranho" que aquela recolha não fosse comunicada à PJ civil "até se saber que aquela informação era relevante". Bengalinha reconheceu, contudo, que não conhecia a "relevância" do que fora apurado no Algarve. A testemunha lamentou ainda que a PJ civil não tenha, assegurou, partilhado qualquer informação com a PJM.

"Já não estava ali a fazer nada"

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De acordo com a acusação do MP, os militares terão, com elementos da GNR de Loulé, começado por querer ter mais informação sobre Paulo Lemos, conhecido por "Fechaduras". Acreditariam que que este estivera ligado ao assalto aos paióis de Tancos. Mais tarde, acabariam por chegar ao mentor confesso do assalto a Tancos, João Paulino, com quem terão negociado a entrega das armas. Nada disto terá sido comunicado nem a Bengalinha nem a PJ civil.

A PJ civil tinha, em contrapartida, sido informada por "Fechaduras", em março de 2017, para um assalto a instalações militares que estaria para acontecer no Centro do país. Lemos, que não foi acusado de qualquer crime, terá chegado a planear com Paulino o furto, mas acabou por desistir de o fazer.

Esta segunda-feira, o inspetor-chefe não conseguiu explicar o porquê de a sua própria equipa lhe ter sonegado informação. Em setembro de 2017, Bengalinha acabaria por pedir para sair do caso por "sentir que já não estava ali a fazer nada".

O julgamento continua na terça-feira com o depoimento, enquanto testemunha, de Manuel Estalagem, diretor de investigação criminal da PJM à data dos factos. Além dos 13 arguidos associados à alegada investigação paralela, sentam-se também no banco dos réus nove presumíveis assaltantes. Um 23.º cidadão responde por crimes ligados ao tráfico de droga.

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