Inclusão

Polícia ensina língua gestual a agentes da PSP

Polícia ensina língua gestual a agentes da PSP

Foi pela mão do polícia João Cunha que a língua gestual portuguesa (LGP) chegou às formações dos agentes da PSP. Desde 2016, já instruiu cerca de 100 agentes colocados por todo o território nacional, nos diversos Comandos Regionais, Metropolitanos e Distritais, através do curso de iniciação à LGP para polícias, pioneiro na União Europeia, que leciona naquela força de segurança. PSP desenvolve também ações de sensibilização para a comunidade escolar surda.

"Não é fácil colocar uma pessoa fardada a fazer gestos nem mudar mentalidades e paradigmas dentro de uma instituição [como a PSP]", começa por contar o polícia de 37 anos ao JN. Além de ministrar à volta de dois cursos por ano de caráter técnico e com a duração de 70 horas letivas, em formato b-learning, João Cunha, natural de Gondomar, desempenha também funções como chefe da PSP, na 4.ª Divisão Policial da cidade de Lisboa.

Uma manifestação de surdos pelo reconhecimento e presença da língua gestual em serviços públicos, em 2006, junto à Assembleia da República veio dar outro sentido ao curso de Tradução e Interpretação de Língua Gestual Portuguesa que tirara antes de entrar para a PSP. Por não ter sido comunicado ao governador civil, que era quem autorizava, à data, aquele tipo de eventos, o protesto causou um enorme bulício. Perante as dificuldades de comunicação entre as autoridades e os manifestantes, João foi chamado para pôr término à "grande algazarra" que se gerara.

"Havia uma grande perturbação da ordem pública por parte dos surdos, por não haver ninguém quem os percebesse", recorda, explicando que a sua função ali foi traduzir aquilo que o comandante de policiamento dizia: "que tinham de cessar a manifestação".

Desse dia, recorda-se bem da estupefação dos protestantes. "Ficaram muito espantados quando viram um polícia falar língua gestual", lembra. Aquela situação haveria de despertar a PSP para a necessidade de melhorar a abrangência e a efetividade de comunicação da Polícia com todos os cidadãos. Afinal, "numa ocorrência policial, o primeiro contacto é sempre feito por e com um polícia", esclarece João, acrescentando que a Federação Portuguesa das Associações de Surdos disponibiliza também uma "escala de intérpretes de prevenção".

E os surdos, até então sem interlocutor nas forças de segurança, não mais deixaram aquele agente "sossegado": "Já tive de ir à esquadra às três da manhã para traduzir alguma situação", confidencia, entre risos, atualmente sem mais contar as vezes.

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Além de mediar situações de delinquência, violência doméstica, fiscalização rodoviária, entre outras, que envolvam pessoas com estes défices auditivos, a PSP desenvolve também ações de sensibilização para a comunidade escolar surda.

Exemplo disso é o projeto "Prevenir em Silêncio", inserido na iniciativa Escola Segura, em que são os próprios polícias, sem interferência de um intérprete civil, a passar a mensagem diretamente aos estudantes através da língua gestual. "É notória a captação de informação da criança surda", assegura João, acrescentando que os miúdos, por norma "já despertados pelas fardas e pelas armas", ficam deslumbrados quando sabem que um polícia sabe também comunicar como e com eles.

Hoje sabe que é impossível ter todos os agentes a falar a língua: "o ideal seria que todos também soubessem inglês ou mandarim", argumenta. Por isso, e apesar de não se envaidecer, orgulha-se dos agentes que já conseguiu instruir desde que a formação foi criada.

Alguns anos antes, durante as aulas da disciplina de comunicação e atendimento, que lecionava na Escola Prática de Polícia, em Torres Novas, João Cunha já ensinava aos novos agentes um gesto de LGP todos os dias. "Queria mostra-lhes que, quando chegassem ao terreno, iriam encontrar situações que envolveriam surdos", finaliza.

Comunidade surda em Portugal

De acordo com os últimos Censos (de 2011), estima-se que em Portugal existam cerca de 120 mil pessoas com algum grau de perda auditiva, podendo este ser por motivos de saúde ou até de idade, e cerca de 30 mil falantes de LGP.

Ao JN, Pedro Mourão, presidente da Associação Portuguesa de Surdos (APS), garante que estes números podem estar enviesados: "Os dados estatísticos nunca foram rigorosos, uma vez que nunca se considerou prioritário nem relevante apurar o número de pessoas que sabem LGP quando se fazem censos. A Administração Pública considera apenas relevante coletar o número de pessoas com deficiência auditiva, sem por isso desenvolver critérios, em prol da simplificação", argumenta.

Recorda ainda que a comunidade surda tenta "há décadas" que o Instituto Nacional de Estatística acrescente uma questão sobre se a pessoa sabe ou não LGP: "Assim, um respondente que assinalasse com deficiência auditiva e que soubesse LGP seria aquele que enquadra-se na nossa comunidade, facilitando-nos muito os nossos trabalhos e lutas futuras", assegura o dirigente da APS.

Também Pedro Costa, presidente da Federação Portuguesa das Associações de Surdos, considera que a apuração do último recenseamento "não esclarece o número efetivo de pessoas surdas que existe".

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