Operação "Entre Grades"

Recluso assume que vendeu droga "à cadeia inteira de Paços de Ferreira"

Recluso assume que vendeu droga "à cadeia inteira de Paços de Ferreira"

Um arguido e recluso assumiu, esta segunda-feira, durante o julgamento da "Operação Entre Grades" que vendeu droga "à cadeia inteira de Paços de Ferreira", distrito do Porto, a qual lhe chegava através de um guarda prisional, entretanto já falecido.

O processo, com 15 arguidos, incluindo um chefe, dois guardas prisionais e vários reclusos, acusados de corrupção e de tráfico de droga, pertence ao Tribunal de Penafiel (Porto), mas, por questões de logística e de segurança, o julgamento decorre num pavilhão anexo ao Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira (EPPF).

Fábio Faria disse que, entre 2014 e 2016, vendeu haxixe, cocaína, heroína e telemóveis a outros reclusos do EPPF, contando que o estupefaciente e os telemóveis eram levados até si por Cide Grazina, guarda prisional e também acusado neste processo, que morreu há cerca de um ano.

Conhecido como Fábio "Tendas", o arguido explicou ao coletivo de juízes, presidido por Maria Judite Fonseca, que a droga lhe era entregue "diretamente" pelo guarda prisional Cide Grazina, "sem intermediários", a troco de "dinheiro e de droga". Depois, o estupefaciente a e os telemóveis eram vendidos por si diretamente a outros reclusos.

"Vendi droga à cadeia toda", afirmou o arguido, quando questionado pelo procurador do Ministério Público (MP) sobre os compradores do estupefaciente, sem conseguir quantificar o número de "clientes" que tinha no interior da cadeia de Paços de Ferreira. De todos os arguidos neste processo, Fábio Faria afirmou que apenas vendeu droga ao arguido Tiago Reis.

Fábio Faria contou que os pagamentos eram efetuados através de transferências bancárias para contas da sua companheira, também arguida no processo, e de outras pessoas "amigas" de ambos, admitindo ter ganhado "muito dinheiro" com o jogo do Póquer, na venda de tabaco, mas, acima de tudo, com o negócio da venda de droga no EPPF. O arguido e também recluso explicou que tinha acesso e conseguia movimentar todas as contas bancárias em causa, através dos acessos 'online'.

PUB

A acusação do MP sustenta que o chefe do corpo da guarda prisional Manuel Borges, de 57 anos, arguido neste processo e em prisão preventiva, era quem introduzia a droga no EP de Paços de Ferreira e a entregava a Fábio Faria. "A minha relação com o chefe Borges é zero. É nenhuma. Nem dá para descrever as atitudes que ele teve comigo na cadeia", declarou o arguido, refutando a tese do MP.

A mesma tese foi também rejeitada pelo arguido Fábio Silva, ouvido depois de Fábio Faria. "O chefe Borges só me prejudicou. Ele dava-se mal com toda a gente. Acho que até se dá mal com ele próprio. Era impossível ele passar-me droga. Nunca tive ligação com ele e há queixas minhas contra ele. Nunca vendi droga na cadeia", afirmou o arguido.

Fábio Silva admitiu que se dedicava e que ainda se dedica a vender tabaco no interior dos estabelecimentos prisionais, por achar que "isso não é crime", admitindo que também joga póquer a dinheiro e a tabaco.

Este arguido contou que pediu a conta bancária ao irmão mais novo, acusado neste processo por facultar o NIB, para que os outros reclusos pudessem fazer transferência do dinheiro que ia ganhando no póquer e na venda de tabaco.

Um terceiro arguido ouvido durante a tarde desta segunda-feira também negou os factos imputados na acusação do MP. "Nunca vendi droga na cadeia, nem na minha vida", declarou Tiago Costa que, à semelhança dos outros dois arguidos, assumiu que também joga póquer a dinheiro ou a tabaco.

O julgamento prossegue na terça-feira. Dos 15 arguidos, 10 encontram-se em prisão preventiva ao abrigo deste processo ou em cumprimento de penas de outras condenações. Delfim Dispenza, terceiro guarda prisional arguido, está em prisão domiciliária, mas faltou ao início do julgamento por estar internado. Quatro arguidos encontram-se em liberdade, incluindo duas mulheres.

De acordo com a acusação do MP, os três guardas prisionais recebiam dinheiro e outros bens de alguns dos reclusos arguidos, para introduzirem heroína, haxixe, cocaína e telemóveis no EPPF. Este esquema de tráfico de droga terá durado cerca de uma década e rendido "largos milhares de euros" aos supostos líderes da rede.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG