Julgamento

Segurança diz que viu inspetor do SEF com pé na nuca de Ihor

Segurança diz que viu inspetor do SEF com pé na nuca de Ihor

Um ex-segurança do Espaço Equiparado do Centro de Instalação Temporária (EECIT) garantiu esta quarta-feira, em tribunal, que viu um dos três inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) acusados de terem matado um cidadão ucraniano com o pé em cima da nuca da vítima. Ihor Homeniuk, de 40 anos, estaria, nesse momento, de joelhos, com as mãos algemadas atrás das costas. Terá ainda, segundo a testemunha, sido agredido na altura com uma bastonada nas costas.

O episódio terá tido lugar na manhã de 12 de março de 2020, quando Duarte Laja, de 48 anos, Luís Silva, de 44, e Bruno Sousa, de 42, se encontravam com o cidadão ucraniano na sala onde, segundo o Ministério Público (MP), terá sido espancado pelos arguidos e foi, esta quarta-feira, referido pela primeira vez pelo segurança em todo o processo.

Cerca de duas semanas após o crime, Paulo Marcelo rejeitou, ouvido pela Polícia Judiciária (PJ), ter assistido a qualquer agressão. Homeniuk estaria então sentado num sofá, algemado. Já em junho de 2020, numa segunda inquirição, contou que o cidadão ucraniano estaria no chão, de barriga para baixo, sem conseguir precisar se estaria algemado ou com um pé de um dos inspetores sobre si.

"O que eu acabo de dizer foi o que eu vi", assegurou, esta quarta-feira, Marcelo, ao ser confrontado pelo tribunal com os seus depoimentos anteriores. O vigilante acrescentou que, "na altura, não quis prejudicar ninguém". "Toda a gente sabe o que fez", frisou.

A testemunha relatou ainda que, na manhã de 12 de março, ouviu Homeniuk gritar de forma "agonizante" quando se encontrava com Laja, Silva e Sousa. Os gritos seriam "totalmente diferentes" dos que presenciara durante noite, quando, com um colega, tentara "acalmar" a vítima, que, na sua permanência no EECIT, terá estado sempre agitada.

Admite ter amarrado com fita adesiva

Num depoimento que se prolongou por mais de três horas e meia, Marcelo admitiu, de resto, que, na madrugada de 12 de março, chegou, com um colega, a amarrar com fita adesiva os pés do cidadão ucraniano. "Foi um ato já desesperado, para tentar segurar a pessoa, para a pessoa não se magoar", justificou. Sem qualquer eficácia, as fitas terão sido retiradas pouco depois pelos vigilantes.

PUB

Na primeira sessão do julgamento, a 2 de fevereiro de 2021, os três arguidos afirmaram que, ao entrar na sala onde Homeniuk estava isolado desde a noite de 11 de março de 2020, o encontraram com fita-cola nas pernas e nos braços. Marcelo garantiu que só amarrou uma vez, nos pés, o cidadão ucraniano. Admitiu, contudo, que o seu colega o possa ter feito.

O óbito foi declarado no local pelas 18.40 horas, cerca de dez horas depois de, segundo o MP, ter sido deixado manietado e deitado de barriga para baixo pelos três inspetores, a asfixiar lentamente até à morte. Laja, Sousa e Silva, acusados de homicídio qualificado, asseguram que nunca bateram em Homeniuk nem o deixaram naquela posição. O ucraniano fora impedido de entrar em Portugal a 10 de março, depois de aterrar em Lisboa.</p>

O julgamento prossegue esta quarta-feira à tarde, em Lisboa, com o testemunho de um outro segurança.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG