Julgamento

Segurança ouviu Ihor gritar durante 10 minutos 

Segurança ouviu Ihor gritar durante 10 minutos 

Uma segurança do Espaço Equiparado a Centro de Instalação Temporária do aeroporto de Lisboa garantiu, esta quinta-feira, em tribunal, que ouviu Ihor Homeniuk gritar durante 10 minutos durante o período em que este esteve numa sala com os três inspetores do SEF acusados de ter matado à pancada aquele cidadão ucraniano, na manhã de 12 de março de 2020.

Confrontada com imagens suas a pegar numa tesoura e em fita adesiva, Ana Sofia Lobo reconheceu ainda que foram colegas seus a amarrar, na madrugada daquele dia, as pernas de Homeniuk, de 40 anos, com fita adesiva. Admitiu que achou "estranho", mas ressalvou que trabalhava no Espaço Equiparado a Centro de Instalação Temporária (EECIT) "há pouco tempo". Vítima terá gritado também quando estava sozinha e na presença de outros vigilantes, reconheceu.

Luís Silva, de 44 anos, Bruno Sousa, de 42, e Duarte Laja, de 48, estão acusados, em coautoria, de um crime de homicídio qualificado, cuja pena pode ir até 25 anos de prisão. Os três inspetores do SEF são os únicos arguidos no processo. A terceira sessão do julgamento decorreu esta quinta-feira, em Lisboa.

No seu depoimento, Lobo começou por recordar que a primeira vez que viu Homeniuk foi na tarde de 11 de março, quando este regressou ao EECIT acompanhado de dois inspetores, depois de se ter recusado a embarcar num voo para ser expulso de Portugal. Segundo a testemunha, pelas 22 horas desse dia, outros cidadãos estrangeiros terão chamado os seguranças devido à agitação do ucraniano.

O ofendido terá então sido isolado numa sala daquelas instalações. Na quarta-feira, um dos inspetores chamados nessa altura afirmara que Homeniuk estava já isolado quando chegaram ao EECIT. Esta quinta-feira, Lobo contrapôs que foram os inspetores a isolá-lo. Terá, nessa altura, ficado mais calmo.

"Estava muito vermelho"

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Só que, já depois das 4 horas de 12 de março, um colega segurança ter-lhe-á dito para voltar a chamar inspetores, porque "o senhor estava outra vez agitado". Um dos inspetores do SEF que ali se deslocaram, já testemunhou em tribunal que, na ocasião, encontrou Homeniuk com as mãos e os pés atados com fita adesiva. Substituíram-na por lençóis, de modo a que a vítima pudesse mover-se sem se levantar do colchão em que estaria.

Esta quinta-feira, Lobo começou por dizer que não foi buscar os lençóis nem se apercebeu de nada, mas, confrontada, pelo presidente do coletivo de juízes, Rui Coelho, com imagens suas retiradas da videovigilância, acabou por admitir que não foi assim. Apesar de nunca ter entrado na sala, abriu o armário onde eram guardados os lençóis. Mais tarde, depois de os inspetores terem abandonado o local, afastou-se da sala com os mesmos lençóis e entregou uma tesoura e fita adesiva aos colegas.

Da porta, observou-os a "pôr a fita à volta das canelas" de Homeniuk. Um dos seguranças ter-lhe-á então pedido uma revista, que nunca o vira ler. Pouco depois, saiu a correr, para, justificou, chamar alguém, uma vez que o cidadão ucraniano estaria novamente a ficar agitado. Os seguranças estariam a mostrar-lhe mais fita adesiva.

"Quando fui entregar a fita da segunda vez, vi que ele estava muito vermelho", reconheceu Lobo. Questionada por um dos defensores dos arguidos, acrescentou que ouviu Homeniuk gritar "três, cinco minutos" na presença dos vigilantes. "Ouvi-o gritar até quando estava sozinho", desabafou.

Pelas 8.30 horas de 12 de março, já depois de o seu turno ter terminado, contactou então pela primeira vez com os três arguidos. Assegurou que, enquanto estiveram na sala sozinhos com o cidadão ucraniano, este gritou durante 10 minutos. "Ouvi 'ai, ai'", recordou. "Perguntei se aquilo era normal: eles [os outros seguranças] disseram que não", concluiu.

O óbito de Homeniuk foi declarado no local pelas 18.40 horas do mesmo dia. O Ministério Público acredita, baseado na autópsia, que o ofendido asfixiou lentamente até à morte, após ter sido alegadamente espancado e deixado manietado de barriga para baixo pelos três arguidos. Silva, Sousa e Laja rejeitam a acusação e garantem que nunca bateram no cidadão ucraniano.

O julgamento continua a 9 de fevereiro, no Tribunal Central Criminal de Lisboa.

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