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Sete arguidos da "Máfia de Braga" arriscam pena máxima

Sete arguidos da "Máfia de Braga" arriscam pena máxima

Está marcada para quarta-feira a sentença dos nove arguidos do rapto de empresário bracarense dissolvido em ácido sulfúrico.

O Tribunal de S. João Novo, no Porto, deverá decidir, na quarta-feira, se vai aplicar a pena máxima de 25 anos de cadeia que o Ministério Público (MP) pediu para os sete principais arguidos, em prisão preventiva do caso conhecido por "Máfia de Braga". Estão acusados do rapto e homicídio do empresário bracarense João Paulo Fernandes, de 41 anos.

Para os outros dois arguidos, em liberdade, o MP pediu penas suspensas, devido à menor gravidade dos crimes e o seu aparente desconhecimento de que participavam num plano tenebroso para matar, desmembrar e dissolver o cadáver do empresário.

Após quase três meses de julgamento, a produção de prova em audiência foi arrasadora para cinco dos nove arguidos.

Poupados da autoria material

Os dois "poupados", no que toca à autoria material dos crimes, foram Filipe Monteiro, cunhado e empregado do "Bruxo", e o advogado Pedro Bourbon. Ninguém coloca Filipe na preparação ou efetivação dos factos julgados.

O mesmo poder-se-ia dizer de Pedro Bourbon. No entanto, o que pesa sobre o advogado e antigo secretário-geral do Partido Democrático Republicano (PDR), presidido por Marinho e Pinto, é a "autoria moral". Partilha com Emanuel Paulino ("Bruxo da Areosa"), nos termos da acusação, o papel de mandante e líder do grupo.

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Sobrou ainda a prova de que Pedro Bourbon e Paulino eram os principais interessados no desaparecimento de João Paulo Fernandes, que lhes reclamava a devolução do património dos pais, avaliado em dois milhões de euros.

Durante o julgamento, o que mais chamou a atenção de quem assistia foi a indiferença e os frequentes sorrisos dos arguidos perante relatos, às vezes pungentes, de testemunhas e declarantes.

Foram várias as ocasiões em que isso se demonstrou, mas em duas tiveram destaque. Numa delas - enquanto a ex-mulher da vítima contava, muito emocionada, o sofrimento da filha que testemunhou, aos oito anos, o rapto do pai e que acha que devia ter feito mais para o salvar -, Pedro Bourbon, impávido, esticou a mão direita e apreciou as unhas. Paulino, Rafael e Hélder ouviram o relato e, indiferentes, olharam em frente, com o rosto vazio de emoções. Nessa altura, apenas Manuel e Adolfo Bourbon, demonstraram alguma emoção ao baixar a cabeça, tentando esconder o desconforto que o relato lhes causava.

Dois em liberdade

A situação repetiu-se durante o testemunho da menina, feito por videoconferência. Enquanto na sala muitos não conseguiram esconder as lágrimas, no banco dos réus era notória a indiferença da maior parte dos arguidos. Manuel e Adolfo voltaram a ser as exceções.

Amanhã, deverão ser sentenciados de um homicídio que fez lembrar, no tribunal, métodos da máfia calabresa.

Os outros dois arguidos do caso, Filipe Leitão, de 39 anos, e Nuno Lourenço, de 40 anos, advogado, de Gaia, estão em liberdade.

Filipe Leitão, funcionário do stande onde foram furtados os Mercedes usados no crime, compadre do bruxo, está acusado de furto por, alegadamente, lhe ter fornecido o código que permitiu desativar o alarme do stande. Não falou em tribunal. O seu advogado alegou não ter sido feita prova e pediu absolvição. Nuno Lourenço responde pelo crime de falsificação.

Sete arguidos em prisão preventiva

Pedro Bourbon - Advogado longe no dia do crime
Ficou provado que Pedro Bourbon estava no Sul do país no dia do crime a participar como secretário-geral em iniciativas do PDR. Mas no que toca à autoria moral, baseada na motivação, houve prova de sobra. A vítima acusara-o de ele e o "Bruxo" se terem apoderado de 700 mil euros da sua empresa de ar condicionado e da fortuna do pai. Nas conversas telefónicas intercetadas pela PJ, Pedro não esconde o pânico pelas suspeitas de que é alvo. Paulino tenta acalmá-lo, diz--lhe que é útil continuar no PDR e manter-se afastado do grupo enquanto ele corrige "as pontas soltas".

Emanuel Paulino - "Bruxo" segura "pontas soltas"
Amigo íntimo de Pedro Bourbon ("amo-te muito", "nunca te trairei" e frases do género são escutadas durante as conversas entre eles), Emanuel Paulino, segundo o MP, teve um papel preponderante na preparação e execução do plano. É demolidora a prova de que dirigiu e participou no roubo dos carros, no rapto, na morte, na dissolução do cadáver e depois na destruição de prova. As tais "pontas soltas". Quanto à motivação, além do jurado carinho por Pedro Bourbon, tinha um problema: dívidas de quase 300 mil euros, pelo que o património reclamado pela vítima e seus pais lhe daria muito jeito.

Manuel e Adolfo Bourbon - Ajudaram irmão Pedro
Manuel e Adolfo Bourbon, advogado e economista, respetivamente, terão participado para "ajudar" o irmão mais velho, que tem sobre eles inegável ascendente. Do que foi dito e lido em julgamento, estiveram no roubo dos carros, no rapto, na morte da vítima e na destruição de provas. Os seus advogados seguiram Silva Leal (defensor de Paulino), não defenderam a inocência dos clientes, apontaram a "prova proibida" para pedir a sua absolvição.

Rafael Silva - Amigo e segurança do "Bruxo"
Corpulento, teve papel ativo em todas as fases do crime. A sua advogada não o negou, mas pediu que fosse absolvido, por entender, como os colegas, que o tribunal não pode alicerçar uma condenação em "prova proibida". No final do julgamento, Rafael Silva agradeceu "os almoços" que o tribunal pagou.

Hélder Moreira - Negou confissão inicial
Patrão de um gabinete de contabilidade e dono de valioso património que diz ter herdado do pai, a amplitude do envolvimento de Hélder Moreira continua um mistério. Começou por negar qualquer participação no crime e denunciar Paulino, Rafael, Pedro e Manuel Bourbon, mas no final do julgamento deu o dito por não dito. O que se sabe é que terá ajudado os principais arguidos a esconder provas e são dele os armazéns (de Valongo e Baguim do Monte) onde ocorreu a maioria dos factos, nomeadamente o sequestro, a morte e destruição do cadáver da vítima.

Filipe Monteiro - Cunhado e empregado do "Bruxo"
O mais jovem de todos os arguidos. Cunhado e empregado do "Bruxo da Areosa", em julgamento foi muito pouca ou nenhuma a prova produzida contra si. Nenhuma testemunha, incluindo os inspetores da PJ, o coloca nas fases relevantes do crime. Terá desempenhado pequenas tarefas, irrelevantes e a mando do cunhado. Foi o único que falou para se dizer inocente, condição que a sua advogada frisou ao pedir a absolvição.

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