Operação Marquês

Sócrates diz que alegado testa de ferro é honesto e ataca procurador

Sócrates diz que alegado testa de ferro é honesto e ataca procurador

Ex-primeiro-ministro defendeu, perante o juiz Ivo Rosa, o amigo Carlos Santos Silva. E acusou Rosário Teixeira de ter uma "motivação pessoal" no processo.

O ex-primeiro-ministro José Sócrates reafirmou, quarta-feira, no terceiro e mais longo dia de interrogatório na instrução da Operação Marquês, que o seu amigo Carlos Santos Silva - e, para o Ministério Público (MP), seu presumível testa de ferro - é uma pessoa muito honesta.

Antes, à entrada do Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, o antigo governante socialista acusara um dos procuradores titulares do inquérito, Rosário Teixeira, de ter "uma certa motivação pessoal" neste processo, no âmbito do qual está acusado de 31 crimes de corrupção, branqueamento de capitais, falsificação de documento e fraude fiscal qualificada. O magistrado já desvalorizou as declarações de Sócrates.

Reiterando que nada diria sobre o que se passa dentro da sala de audiências, o ex-primeiro-ministro aproveitou a presença da Comunicação Social para reagir às palavras proferidas na véspera por Rosário Teixeira.

Ao ser questionado, então, sobre o facto de Sócrates ter classificado a acusação do MP de "delirante", o procurador retorquiu que o "senhor engenheiro" poderia dizer o que entendesse, que no final se fariam as contas.

Expressão "comum"

Quarta-feira, o antigo governante acabou por considerar a declaração "infeliz e completamente imprópria de um procurador", mas reveladora da "motivação pessoal" que diz sempre ter estado na base deste processo. "Pensava que os procuradores da República tinham apenas uma preocupação com a justiça e com a legalidade democrática", frisou.

Já Rosário Teixeira falou, ao ser confrontado com a posição do ex-primeiro-ministro, na "efabulação", por parte de Sócrates, de uma "expressão que é comum", rejeitando a existência de um "ajuste de contas".

"[A instrução] é a fase da defesa, os arguidos podem dizer o que quiserem e as contas fazem-se no final, depois de apreciada a prova", reiterou aos jornalistas. O ex-primeiro-ministro tenta, nesta fase, evitar que o caso siga para julgamento.

Seis horas de perguntas

Ao terceiro de pelo menos quatro dias de interrogatório pelo juiz de instrução criminal Ivo Rosa, Sócrates não desarmou e voltou a clamar inocência.

Ao que apurou o JN, o antigo governante respondeu, durante cerca de seis horas, a questões sobre o alegado favorecimento do grupo Lena na construção de milhares de casas na Venezuela, a sociedade XLM e as quantias utilizadas no arrendamento de um apartamento em Paris para a sua ex-mulher e filho residirem.

Em comum, estes dossiês têm a intervenção de Santos Silva, presumível testa de ferro de Sócrates e acusado de 33 crimes, a maioria em coautoria com o ex-primeiro-ministro. Perante o juiz Ivo Rosa, o ex-governante disse desconhecer aqueles factos e afirmou que o empresário é uma pessoa muito honesta.

Para o MP, seria nas contas do amigo que Sócrates guardaria a sua fortuna, alegadamente obtida de forma ilícita, escondendo, assim, ser o seu real proprietário.

O interrogatório continua esta quinta-feira, à porta fechada.