Operação Marquês

Sócrates diz que "raramente falava" com o amigo Santos Silva

Sócrates diz que "raramente falava" com o amigo Santos Silva

O ex-primeiro-ministro José Sócrates (2005-2011) afirmou esta quarta-feira, no debate instrutório do processo da Operação Marquês, que, enquanto foi líder do Governo, "raramente falava com Carlos Santos Silva", seu amigo e, para o Ministério Público (MP), o seu principal testa de ferro.

Sócrates foi chamado a depor pelo juiz Ivo Rosa, naquela que é a primeira diligência pública da instrução, na sequência de informações que chegaram ao processo já após o interrogatório, nesta fase, do ex-primeiro-ministro, ocorrido entre 28 de outubro e 4 de novembro de 2019, à porta fechada.

Questionado pelo magistrado se, a determinada altura do processo de adjudicação da concessão da obra do troço Poceirão-Caia do TGV, falou com o empresário ligado ao grupo Lena sobre o concurso, o antigo governante socialista garantiu que não se lembra de o ter feito.

"Isso passou-se há 11 anos. A memória que eu tenho é de que não falei. Eu tinha uma vida atarefada. Eu raramente falava com o Carlos Santos Silva", sublinhou, esta quarta-feira, Sócrates, num interrogatório que se prolongou por mais de duas horas, no Campus de Justiça de Lisboa.

Além de ter, alegadamente, funcionado como testa de ferro do ex-primeiro-ministro, Santos Silva é igualmente suspeito de ter atuado como intermediário em supostos subornos pagos pelo grupo Lena ao ex-primeiro-ministro para ser beneficiado, nomeadamente, no concurso do TGV.

Em 2010, o Ministério das Obras Públicas adjudicou a um consórcio integrado pelo grupo Lena a obra do troço Poceirão-Caia. O contrato da concessão acabaria por incluir uma cláusula que previa o pagamento pelo Estado de uma indemnização em caso de chumbo do Tribunal de Contas, o que veio mesmo a acontecer em 2012. Já em 2016, o Tribunal Arbitral condenou o Estado a pagar, com base naquela cláusula, cerca de 150 milhões de euros, acrescidos de juros, àquele consórcio.

Esta quarta-feira, o ex-primeiro-ministro reiterou, mais uma vez, que nunca teve qualquer intervenção neste processo. O antigo governante está acusado, no total, de 31 crimes económico-financeiros e o seu amigo de 33.

Pouco antes, Sócrates rejeitara já ter conhecimento da situação financeiro do seu primo José Paulo Pinto de Sousa, acusado de ter sido, entre 2006 e 2008, o seu primeiro testa de ferro e de quem é bastante próximo. "Essa relação fraternal não era de modo a que ele me informasse da sua vida financeira, do que fazia e do que não fazia", garantiu, depois de Ivo Rosa ter perguntado se sabia de um levantamento de 150 mil euros efetuado pelo primo na Suíça após terem passado férias juntos no Algarve, em 2006.

O ex-primeiro-ministro garantiu, de resto, desconhecer os movimentos financeiros realizados pelo seu primo. "Não sabia. Eu era primeiro-ministro e isso é válido para umas coisas e também para outras. Eu tinha muita coisa para fazer e não me apercebia. De 2005 a 2007, estive raras vezes com o José Paulo", frisou.

Anteriormente, o seu primo, acusado de dois crimes de branqueamento de capitais, assegurara já que é o proprietário de todo o dinheiro que a acusação defende pertencer, na realidade, ao antigo governante.

No interrogatório, Sócrates negou ainda ter estado de férias no Algarve em todas as datas indicadas pelo MP. O alegado favorecimento do grupo Lena para a construção de milhares de Casas na Venezuela e o seu relacionamento com políticos da Argélia e de Angola - países para onde aquela entidade expandiu os seus negócios - foram os restantes temas abordados.

O debate instrutório continua na quinta-feira à tarde, no Campus de Justiça de Lisboa, com a apresentação de argumentos por parte do procurador Rosário Teixeira.

O processo conta, no total, com 28 arguidos, acusados globalmente de 188 crimes de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, entre outros ilícitos. Destes, 19 requereram a abertura de instrução, destinada a decidir se existem indícios suficientes para o processo seguir para julgamento.

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