Julgamento

Vigilante não esperava "reação tão excessiva" de inspetores acusados de matar Ihor

Vigilante não esperava "reação tão excessiva" de inspetores acusados de matar Ihor

Um dos seguranças do Espaço Equiparado a Centro de Instalação Temporária do aeroporto de Lisboa à data da morte de Ihor Homeniuk admitiu esta quarta-feira, em tribunal, que não esperava "uma reação tão excessiva" dos três inspetores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) acusados de terem matado à pancada aquele cidadão ucraniano.

Duarte Laja, de 48 anos, Bruno Sousa, de 44, e Luís Silva, de 42 anos, contactaram pela primeira vez com Homeniuk, de 40 anos, pelas 8.30 horas de 12 de março de 2020, dois dias depois de este ter sido impedido de entrar em Portugal ao aterrar em Lisboa. Terão sido chamados para acalmar a vítima, que, durante a madrugada desse dia, se terá mantido sempre agitada.

Corroborando em parte a versão de Paulo Marcelo, um seu colega que testemunhara imediatamente antes, Manuel Correia contou que, durante os segundos que assistiu à interação entre os arguidos e Homeniuk, viu um dos inspetores "pôr o pé na cabeça" do cidadão ucraniano. Estaria "de barriga para baixo, com as mãos atrás das costas" e teria "sangue na boca".

Um dos inspetores terá dito ao par para se ir embora. Saíram - porque foram "ordenados" - e não terão comentado entre si aquilo a que assistiram. "Acho que ficámos assim um bocado à toa. Não estávamos à espera daquela reação tão excessiva", afirmou, esta quarta-feira, Correia, garantindo que ouviu a vítima gritar "de dor". "O primeiro impacto foi um bocado assustador", desabafou.

Confrontado pelo tribunal com o facto de, na primeira vez que foi ouvido na Polícia Judiciária, cerca de duas semanas após o alegado homicídio, não ter descrito a situação com tanto detalhe justificou que "quis passar despercebido".

Correia reconheceu ainda que, na madrugada de 12 de março, os dois seguranças amarraram com fita adesiva os pés de Homeniuk, mas disse que foi Marcelo a fazê-lo. Este admitira no seu depoimento, por sua vez, que tivesse sido Correia a manietar o ofendido.

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Revista foi para "entreter" vítima

Questionado diretamente pelo presidente do coletivo de juízes, Rui Coelho, se usou uma revista que pediu ao colega para agredir o cidadão ucraniano, Correia assegurou que não. Acrescentou que usou a revista somente para "entreter" Homeniuk, mostrando-lhe uma imagem do futebolista português Cristiano Ronaldo.

A imputação de eventuais agressões aos seguranças e não a Laja, Sousa e Silva tem sido uma das linhas de defesa seguida pelos arguidos. Os três inspetores do SEF negam ter batido em Homeniuk, que, segundo o Ministério Público, terá sido deixado a asfixiar lentamente até à morte após ser manietado e espancado com socos, pontapés e bastonada.

Laja, Sousa e Silva estão acusados, em coautoria, de um crime de homicídio qualificado, cuja pena pode chegar a 25 anos de prisão. Silva e Laja respondem ainda por detenção de arma proibida. O julgamento continua na sexta-feira, 26 de fevereiro, em Lisboa, com a inquirição de mais testemunhas da acusação.

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