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Era "muito difícil" prever proporções do incêndio de Pedrógão, diz Xavier Viegas

Era "muito difícil" prever proporções do incêndio de Pedrógão, diz Xavier Viegas

O coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, Xavier Viegas, disse esta segunda-feira ao Tribunal de Leiria que era "muito difícil" Augusto Arnaut, então responsável pelas operações de socorro, ter previsto as proporções do incêndio de Pedrógão Grande, que causou a morte de 66 pessoas, em 2017.

"Sabendo de todos os constrangimentos, da escassez de meios, da necessidade de privilegiar a defesa dos aglomerados populacionais, das falhas de comunicação, a posição do comandante foi compatível com os seus deveres?", questionou Filomena Girão, advogada de Arnaut. "Creio que sim", respondeu Xavier Viegas, tendo em conta a perceção que o arguido tinha do incêndio.

Apesar disso, o perito em fogos defendeu que "deviam ter sido enviados mais recursos atempadamente", nomeadamente para Regadas, onde este incêndio se viria a juntar ao de Escalos Fundeiros. "Havia meios ou a resposta do comandante assegurou um combate eficaz?", perguntou Filomena Girão. "Se comunicasse uma ocorrência autónoma, possivelmente teria mais meios", afirmou a testemunha.

Contudo, Xavier Viegas reconheceu que a dispersão de meios aéreos para outras zonas do país onde estavam a decorrer incêndios, como Góis, Coimbra, dificultou o combate em Pedrógão Grande. "O comandante foi acusado de não ter procedido ao corte da 236-1. Às 19.05 horas era possível com os meios que tinha de ter previsto este cenário?", acrescentou a advogada de Arnaut. "Era muito difícil, mesmo agora com os conhecimentos que temos", concordou a testemunha.

O especialista em incêndios voltou a referir a falta de limpeza das bermas da EN 236-1, onde morreram 30 pessoas, num troço de 400 metros. A queda de uma árvore sobre a estrada impediu os carros de circularem e, no outro extremo, as próprias viaturas também funcionaram como um "tampão", pelo que as vítimas ficaram encurraladas. "Houve pessoas que sobreviveram, porque não saíram dos carros."

Ventos entre 130 e 150 quilómetros por hora e chamas de 80 metros de altura, associados ao fenómeno de downburst [vento de grande intensidade, que pode ser confundido com um tornado], contribuíram para uma "progressão muito rápida" do fogo. "A propagação do incêndio entre as 19.30 e as 20 horas foi muito intensa, devido à interação com a trovoada e com os dois incêndios [Escalos Fundeiros e Regadas]", assegurou Xavier Viegas.

Estão a ser julgados pela morte de 63 pessoas [mais tarde, seriam contabilizadas 66] Augusto Arnaut, dois funcionários da antiga EDP Distribuição, três da Ascendi, os ex-autarcas de Castanheira de Pera, Fernando Lopes, e de Pedrógão Grande, Valdemar Alves e José Graça.

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O presidente do Município de Figueiró dos Vinhos, Jorge Abreu, também foi constituído arguido, tal como a então responsável pelo Gabinete Técnico Florestal de Pedrógão Grande, Margarida Gonçalves. O Ministério Público atribui a todos responsabilidades pela falta de limpeza das faixas de gestão de combustível.

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