Entrevista

"Portugal necessita de um organismo de gestão da peregrinação"

Entrevista Rafael Sánchez, gestor da sociedade Xacobeo

O gestor da sociedade Xacobeo, responsável pela gestão e articulação dos Caminhos de Santiago com o Turismo da Galiza, defende que Portugal deve seguir o exemplo. Para já, em cima da mesa está a candidatura conjunta entre Espanha e Portugal do Caminho Português à UNESCO. Antes disso, no entanto, é preciso identificar, proteger e criar mecanismos de gestão.

O que é e como funciona a Xacobeo?

A sociedade anónima de gestão do plano Xacobeo é um organismo integralmente público da Xunta de Galicia, fundada em 1991, para organizar um plano de dinamização turística e cultural na Galiza, em torno do Ano Santo de 1993. O seu êxito levou a que continuasse ao longo dos anos e hoje seja uma sociedade integrada no Turismo da Galiza, responsável pela gestão da rede de albergues, da sinalização e da manutenção dos caminhos.

A sua criação foi importante para o sucesso dos caminhos de Santiago?

Foi definitiva para a consolidação da peregrinação jacobeia. O mais importante é que tem levado adiante, à parte do trabalho de promoção e de difusão muito grande, a criação de uma rede neste momento já com 70 albergues para peregrinos em toda a Galiza.

É a única organização que gere os caminhos na Galiza?

Não. O sistema de competências galego leva a que a Direção-Geral do Património Cultural determine as rotas e os caminhos de Santiago, e os níveis de proteção que devem ter. E nós trabalhamos na gestão.

Portugal ainda não tem um organismo de gestão dos caminhos. Entende que o país deveria seguir o exemplo da Galiza?

Evidentemente. Tem de ser um organismo que coordene as múltiplas iniciativas que existem em torno da peregrinação jacobeia. O mais importante em primeiro lugar é determinar uma rota, declará-la oficialmente Caminho de Santiago e que esta pelos seus valores culturais e patrimoniais seja declarada património classificado. E desenvolver uma gestão de promoção, divulgação, criação de equipamentos, albergues e serviços de peregrinos, em torno desse traçado.

Ou seja, Portugal está atrasado quase 30 anos?

O que interessa é que comece a trabalhar no ponto em que está, de forma coordenada e a pensar no futuro. Tem de se pensar numa conceção unitária do caminho, em que o peregrino possa fazer não apenas 20 quilómetros do percursos de Santiago, mas sim, entre o Porto ou Lisboa e Santiago, senão não estaremos a responder às suas expetativas.

Um estudo recente do Eixo Atlântico defende a apresentação de uma candidatura conjunta de Portugal-Espanha do Caminho Português à UNESCO. Concorda?

Não há outra forma. Não faria sentido uma candidatura de Portugal e outra de Espanha, porque o caminho, insisto, é um único. No Minho, não começa um caminho e acaba outro. É o mesmo. Portanto, a via para conseguir uma classificação é pedir uma ampliação do bem já declarado que é o Caminho Francês, como fizeram os caminhos no Norte de Espanha. Conseguiram em 2015 a declaração, com essa ampliação. Para classificar o português, é necessário que tanto as administrações portuguesa como a espanhola tenham esses caminhos identificados, protegidos e geridos. Se não houver isso, a UNESCO nem aceita a candidatura, porque não valoriza apenas a história e o património, mas também a gestão que se está a fazer desses bens históricos e patrimoniais.

Há, então, trabalho ainda por fazer?

Sim, temos de nos coordenar mais. Já estamos a trabalhar com o Turismo Porto e Norte, Centro, Alentejo e Ribatejo, com a Secretaria de Estado do Turismo e com a Direção--Geral do Património Cultural, em colaboração para avançar com a gestão unitária do caminho. Falta--nos chegar a acordo, até concretizar como se vai levar isto avante. Alguns passos já foram dados.