País

Leitores JN votaram S. João para feriado

Leitores JN votaram S. João para feriado

Em Janeiro de 1911, o Governo Provisório da República estabeleceu, por decreto, os feriados municipais para todo o país.

Dessa deliberação deu conhecimento a todos os municípios pela seguinte forma: "As Câmaras ou Comissões Municipais e entidades que exerçam Comissões de Administração Municipal, proporão um dia em cada ano para ser considerado feriado, dentro da área dos respectivos concelhos ou circunscrições, escolhendo-os de entre os que representem factos tradicionais e característicos do Município ou Circunscrição." O decreto em causa foi comunicado às câmaras municipais por meados de Janeiro daquele ano. Na reunião da vereação da Câmara Municipal do Porto de 19 desse mesmo mês de Janeiro (passam cem anos no próximo domingo), o "velho e conceituado republicano", senhor Henrique Pereira de Oliveira, vereador municipal, pedindo a palavra levantou a questão nestes precisos termos: "...o decreto do Governo Provisório da República que estabelece os feriados deixa às Câmaras Municipais a faculdade de escolherem um dia para feriado de carácter municipal e eu entendo que, sem olhar ao ponto de vista religioso, mas apenas às tradições do Porto e às festas de carácter profano que aqui se realizam por ocasião do S. João, às quais se dá mesmo o nome de Festas do Verão, que o dia escolhido para o Município do Porto devia ser o de 24 de Junho. Parece-me que este alvitre satisfaria todas as classes e que com ele se vai de encontro à opinião da cidade do Porto".A sugestão, no entanto, não reuniu o consenso da vereação. Um outro vereador, o senhor Pereira Osório, na mesma sessão, pediu a palavra para dizer o seguinte: " Julgo que o alvitre do senhor Pereira de Oliveira não está no espírito do decreto criado pelo Governo Provisório da República e eu próprio não me sinto preparado para fazer a tal respeito qualquer proposta, parecendo-me que o assunto poderá ser tratado em outra sessão"... O assunto voltou a ser abordado na sessão seguinte mas apenas com curtas explicações dadas pelos dois referidos vereadores ao presidente da Comissão Administrativa da Câmara que era, nessa altura, o engenheiro Francisco Xavier Esteves. Estava-se neste impasse quando um outro vereador, o dr. António Joaquim de Sousa Júnior, lembrou, inspirado, como ele próprio fez questão de salientar, "num alto princípio democrático", que não devia ser a Comissão Administrativa a deliberar nada sem que o povo do Porto, por qualquer forma, se pronunciasse em tal assunto... O papel do JNE é neste ponto que o "Jornal de Notícias" intervém. Perante o impasse surgido com a escolha do dia que deveria, dali em diante, ser considerado como o feriado municipal, este diário portuense disponibilizou-se para arbitrar o assunto em questão e fê-lo desta forma: "Tem o povo do Porto a palavra para escolher o dia feriado que prefira e o "Jornal de Notícias" faltaria à sua tradição de folha eminentemente popular se não facilitasse ao povo a expressão do seu desejo - tanto mais que a escolha deste feriado, parecendo à primeira vista sem importância, tem-na, e grande, pois pode ferir sentimentos arreigados, conveniências, hábitos, tradições, consagrações, etc., que todos desejamos sejam respeitados". E logo a seguir o JN acrescentava: " Deve pois o povo do Porto falar para que as suas opiniões sirvam de indicação à Comissão Administrativa Municipal"... A mesma nota informava sobre "como deve o povo falar". E explicava: "Pela maneira mais simples: cada pessoa envia à Redacção do "Jornal de Notícias" um bilhete postal ou meia folha de papel dentro de um envelope, dizendo o dia que prefere. Não precisa de dar explicações nenhumas. Basta dizer: Voto pelo dia... Assina e manda. Não é preciso dizer mais nada. Nós depois classificaremos todas as respostas e publicaremos os resultados". O jornal advertia que apenas podiam votar os moradores no concelho do Porto. Entre os votantes no dia vencedor, seriam sorteados dez prémios - cinco monetários (20 mil réis para o primeiro, 10 mil, para os segundo e terceiro e 5 mil réis para os quarto e quinto classificados); os outros cinco eram objectos de arte. A decisão do povoNão foi proposta nenhuma data. Não se deu qualquer indicação sobre este ou aquele dia. Os leitores do "Jornal de Notícias" votaram em inteira liberdade. De forma absolutamente democrática. E no dia 4 de Fevereiro de 1911 foi dado conhecimento da votação, que foi a seguinte: dia de S. João, 6.565 votos; dia l.º de Maio,3.076 votos; dia 8 de Dezembro, 1.975 votos; dia 9 de Julho, 8 votos.Para que se possa fazer uma ideia do significado das datas mais votadas, recordamos que o l.º de Maio é, como todos sabem, o Dia do Trabalhador; que a 8 de Dezembro se celebra a festa de Nossa Senhora da Conceição, que é a Padroeira de Portugal; e que no 9 de Julho se assinala a entrada de D. Pedro IV no Porto, em 1832, à frente do Exército Libertador.O total de votos recebidos na Redacção do "Jornal de Notícias" foi de 11 639. Além daquelas quatro datas, também foram votados os dias 1 de Fevereiro e o da tomada da Bastilha, ambos com dois votos, e o de São Pedro, com três. Sabe-se, por exemplo, que o dia do aniversário do presidente da República (24 de Fevereiro), que era Teófilo Braga, mereceu um voto. Se esta votação tivesse vencido tinha-se que mudar de feriado cada vez que houvesse um novo presidente e a data do nascimento fosse diferente. Também houve um voto para o Dia de S. Martinho; outro para o Dia de Todos os Santos; outro para o de Santo António e mais um para o Carnaval. Na sua edição do dia imediato aquele em que publicou os resultados do referendo, ou seja a 5 de Fevereiro, o "Jornal de Notícias" comentou a votação desta forma jocosa : "Ganhou a pândega com 6565 votos; o trabalho teve 3076 votos; a fé ficou-se pelos 1.975 votos".E acrescentava este comentário: "Esta votação deu-nos uma certeza: a de que quer a Câmara quisesse, quer não quisesse ele (o povo) no dia 24 de Junho não está resolvido a trabalhar e pediu aquilo em que soberanamente comanda, que é na sua alegria, no seu amor, na sua mocidade"...