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Arte de dar nova vida às construções em xisto

Arte de dar nova vida às construções em xisto
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Na terra da ardósia, António Sousa procura impulsionar a utilização de outra pedra que também abunda na região: o xisto. Desde a construção de casas, à recuperação de ruínas, o empresário e pedreiro faz autênticas obras de arte de picareta na mão.

"Trabalho com o xisto já há uns anos, não exclusivamente com esta pedra, mas passa muito por este material. Nós fazemos revestimentos de casas, fazemos recuperações de algumas ruínas e todo o tipo de trabalho em xisto", explica António Jorge Silva Sousa, proprietário e pedreiro da construtora com o mesmo nome, sediada em Campo, Valongo, contando que começou a trabalhar nesta arte, há cerca de 30 anos, por um mero acaso: "Não foi a minha primeira opção, nem nunca pensei trabalhar na construção, pois estava na indústria da panificação. Mas apareceu a oportunidade de trabalhar numa quinta para recuperar um muro em xisto que lá havia e, a partir daí, surgiram mais trabalhos e temos feito muitas coisas lindíssimas e diferentes".

As obras realizadas pela empresa de António Sousa são únicas e irreproduzíveis, e cada uma representa um desafio. "Nunca há uma igual à outra porque a pedra nem sempre é do mesmo sítio. Se estiver a trabalhar uma pedra retirada da zona de Paredes é completamente diferente da do lado de Valongo. A pedra de Paredes ou Sobrado é mais amarelada e a de Valongo mais preta", justifica o empresário, salientando que tenta "sempre respeitar o que o cliente quer".

"Se me disser que quer a pedra na face natural é assim que será feita a obra. Normalmente, aconselho a partir a pedra para termos um conjunto de pedras pretas com pedras amarela e tentarmos que seja uma parede com um estilo mais rústico. Se o cliente pedir com a face natural, é com essa que trabalhamos, embora tentemos não fazer fiadas direitas", assinala o construtor, dizendo que a fonte de inspiração "é acordar bem-disposto de manhã e decidir fazer algo diferente, depois as coisas saem com naturalidade".

E a verdade é que António Sousa não tem tido mãos a medir. "O cliente que procura isto é um cliente específico, mas ultimamente tem havido alguma procura e até tem crescido o negócio. Tenho feito muitos trabalhos aqui na zona de Valongo e nos concelhos mais próximos, como Paredes".

Algumas destas obras podem ser apreciadas por quem passar pela zona de Campo. "Temos a capela de Nossa Senhora da Encarnação, que está toda revestida a este material, e também a Quinta da Corredoura, que fica muito perto", aponta o construtor, que no estaleiro que possuiu na freguesia de Valongo também tem um jardim com diversos trabalhos em xisto, incluindo pequenas jarras e vasos. "São todas peças únicas e devem ser exclusivas daqui", acrescenta, deixando um reparo: "A ardósia é um material mais nobre e que tem muita história em Valongo e o xisto também tinha. Agora, estão a desaparecer os edifícios em xisto, mas esta arte devia ser impulsionada, gostava de ver muitas coisas em xisto, muitas até recuperadas".

No que à origem dos materiais que utiliza diz respeito, cerca de 50 por cento provém de demolições de casas antigas ou, então, são encontrados em desaterros para a construção de novas casas. "O material que sai das fundações serve para fazer este trabalho belíssimo. Costumo dizer que onde os outros veem entulho eu vejo material para trabalhar", releva António Sousa, lamentando que as pessoas "não olhem um bocadinho para a identidade, se não for delas, dos seus antepassados".

E passa a explicar: "As pedras que tenho no meu jardim cada uma delas conta uma história e tem a sua identidade. Não são simples pedras, pelo menos na minha ótica. Tento que as pedras contem a história das casas e tento que o cliente perceba a minha visão, embora no final seja ele que manda. Mas a verdade é que temos feito coisas diferentes com peças em madeira ou granito".

Um desses tesouros históricos é um altar com quase 250 anos. "Encontrei-o numa demolição que me apareceu, ia ser deitado fora e o senhor ofereceu-mo. Arranjei logo lugar para o colocar, pois são peças que não se podem perder. É um bocado da nossa identidade e deixarmos qualquer coisa para futuro para as novas gerações saberem o que se fazia", frisa o artesão da pedra, acrescentando que procura "trabalhar a pedra da forma mais fiel a como se fazia antigamente", daí partir todos os blocos à mão, com a ajuda de uma pequena picareta.

"Tento não pegar numa pedra e fazer uma fiada como se estivesse a assentar tijolos, tento fazer com que tenha a mesma identidade de antigamente. Mesmo as paredes antigas foram feitas de um modo em que não temos peças alinhadas, nem pedras tipo fiada, nem paredes direitas", refere António Sousa, que nos tempos da crise conseguiu manter o negócio à tona virando-se para a construção de miniaturas. E avança: "Dediquei-me mais a estas peças nos tempos livres e a altura de crise fez-nos pensar e inventar algumas coisas, ocupar o tempo e ir ganhando algum dinheiro. E graças a isso conseguimos passar aquela fase e voltamos à construção, que é a parte essencial do nosso trabalho. Agora, se chegar aqui alguém a encomendar uma peça, faço-a com todo o gosto".

E neste momento, para poder responder com maior prontidão aos vários pedidos que chegam à empresa, o construtor precisa de mais mão de obra qualificada. "Só tenho um funcionário a trabalhar comigo, pois não consigo contratar mais ninguém. Penso que devia haver uma aposta na juventude e criar-se uma espécie de escola profissional, que ensinasse algumas coisas disto. É pena estarmos a perder esta arte. Pelo que estou a ver, mais uma meia dúzia de anos e não vai haver quem trabalhe com o xisto. Para muita pena minha, pois é um arte bonita e digna de se ver", assinala o pedreiro, recordando as recuperações que se têm feito nas aldeias do xisto que há em Portugal, dando como exemplo o Piódão.

E completa: "Vemos casas antigas em xisto que estão em bom estado de conservação. Desde que não entre águas pelos telhados, mesmo que sejam feitas à moda antiga, com o barro e não levando cimento, como acontece agora, estas casas duram 300 e 400 anos".