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Coração de Carla Monteiro bate pela ilustração infantojuvenil

Coração de Carla Monteiro bate pela ilustração infantojuvenil

A formação profissional é em psicologia clínica, no entanto, é entre folhas de papel, lápis, tintas e pincéis a fazer as mais variadas ilustrações que o mundo de Carla Monteiro, de 38 anos, ganha um tom mais colorido.

A celebrar duas décadas de carreira nas artes plásticas, Carla Monteiro foi convidada pela Câmara Municipal de Valongo a fazer a exposição "20 anos de CorAção", que estará patente nos Paços do Concelho e na Biblioteca Municipal até ao final de fevereiro. Pelas mãos da artista foi recriada o "São João de Sobrado", a tradicional festa da Bugiada e Mouriscada, bem como foram retratadas mulheres que com um papel de revelo na sociedade, como Marie Curie, Anne Frank, Beatriz Costa, Frida Khalo, Malala Yousafzai, Marielle Franco, entre muitas outras. São histórias que se contam através de imagens e cujas cores vibrantes apelam à contemplação e fazem sonhar com mundos mais felizes.

O JN quis saber como nasceu a paixão de Carla Monteiro por esta arte. "Comecei muito pequenina. Se bem me recordo, entrei na escola primária já a desenhar muito bem, de uma forma muito madura para a idade, pois já tinha atenção ao tamanho e à proporção e isto chamou a atenção dos professores", começa por explicar, contando que a pintura foi um escape para se alhear "de uma vida muito complicada".

"Porque me envolvi desde pequenina com o desenho? Por questões de vivência familiar, porque tinha uma vivência diária muito dolorosa e muito incerta. O meu pai era alcoólico e volta e meia vinham os acessos de violência e uma forma de me desligar era através do desenho e do colorir. O que mais gosto é o colorir, pois preenche a folha e preenche-nos a nós, tanto em mecânica como em concentração", revela a ilustradora, autora e psicologa clínica, continuando sobre a sua história: "Fui-me dedicando ao desenho como uma terapia e uma catarse, pois não desenhava os bonequinhos que estavam na moda e passavam na televisão. Eu desenhava-me a mim e como via a vida. Não desenhava a violência, nem a dor, desenhava sempre o contrário, como se através do papel conseguisse oferecer-me a mim própria as flores que precisava. Se precisasse que hoje fizesse sol, ia desenhá-lo. Eu fui brincando assim".

O tempo passou, assim como a infância e a adolescência, mas não o amor pelas artes plásticas, mesmo quando esteve largos períodos sem poder desenhar e pintar. Na altura de decidir o futuro, e sem autorização para seguir Belas Artes, foi no curso de Psicologia Clínica, da Universidade Lusíada, que se focou, talvez numa tentativa de encontrar respostas para o inexplicável.

"Nessa altura usava muito a caneta e o lápis, o básico, porque estava em psicologia e não tinha de ter lápis de cor, mas livros e canetas para escrever. Aproveitava as minhas aulas para, enquanto ouvia, ir desenhando e viajando e acho que passei o curso essencialmente por isso. O professor falava dos neurónios e eu desenhava-os e fazia as legendas e era uma maneira de me conseguir concentra nessa informação", lembra Carla Monteiro.

Acabado o curso, foi no estrangeiro que encontrou emprego, uma experiência monetariamente recompensadora, mas intelectualmente castradora. "Fui para Inglaterra trabalhar em navios cruzeiro e foi a experiência mais dolorosa pela qual passei. Os três anos em que estive a bordo equivalem a mais de uma década de existência, porque trabalhei 14 a 16 horas por dia. O tempo restante era para descansar e não havia convívio e desenho muito menos. Ao fim de dois anos cheguei a um ponto em que não tinha qualquer tipo de pensamento, era uma máquina de produção, que tinha uma hora para acordar e um ritual para cumprir. Não havia espaço para o intelecto", conta Carla Monteiro, assinalando que só quando subiu a "bartender" é que a inspiração voltou.

O "inferno" vivido em alto mar ainda lhe povoa a memória: "Passei fome quando trabalhei nos navios. Tive de me alimentar de limões, laranjas, ananases, café, porque era o que eu podia ir desviando do bar e álcool. Não havia um dia em que não conseguisse adormecer sem antes ficar um pouquinho atordoada com o álcool, porque não dava para desligar a máquina de produção e tinha de haver algo que ajudasse".

Regressou a Portugal e retomou a experiência da ilustração com um projeto da Ajudaris, uma associação social e humanitária, que luta contra a fome, pobreza e a exclusão social. "Fui convidada, através de uma pessoa amiga que sabia que eu gostava muito de desenhar, para fazer ilustrações de forma gratuita. Todos os projetos de livros deles revertem para uma causa e sempre fui uma pessoa muito de dar, desde pequenina. Senti que podia tomar tudo o que tenho, dar-me um pouco e ajudar os outros. Todos os anos contribuía com duas ou três ilustrações", explica Carla Monteiro, contando que ver os trabalhos publicados a fez sentir-se aconchegada.

"Ver que alguém está a valorizar o que tenho e que até agora me disseram para guardar numa caixa e pôr de lado. Fui tomando gosto e fui-me sentido orgulhosa, por estar a ver o meu trabalho exposto junto com outros ilustrados e escritores, por estar a doar, e por estar a fazer acontecer algo de novo na vida das pessoas", exprime a ilustradora.

"Isto inspirou-me para o meu primeiro trabalho enquanto escritora. Lancei um livro e também fui pedir a outros para o ilustrarem. Foi um 'poor seller' pois só consegui vender a amigos. Mas gostei do resultado e comecei a divulgar o meu trabalho enquanto ilustradora, na eventualidade de outras pessoas quererem aproveitá-los", avança Carla Monteiro, lamentando que tal não tenha acontecido. E explica: "Todos queriam que o fizesse gratuitamente, todos tinham uma causa e continuei a dar. Não queria, mas realizava-me o facto de ver as minhas ilustrações num livro".

A este projeto, seguiu-se outro: "(Re)Contando Histórias da Lusofonia". "Este livro é muito especial no meu percurso, porque queria ilustrar e precisava de oportunidade para ter os meus trabalhos publicados e isso não acontece facilmente", justifica a psicóloga clínica, lamentando que para se chegar às livrarias "ou se tem dinheiro ou se tem apoios".

"É com muita dificuldade que eu e outros colegas conseguimos colocar trabalhos cá fora. Ou colocamos de forma gratuita digitalmente, para que outros possam utilizar ou roubar. Concursos de ilustração? Concorri a milhares e nem na lista de finalistas consegui ficar, não acho que seja pela falta de qualidade, mas por outros critérios, que nem discuto", assinala Carla Monteiro. "Havia quem precisasse de uma oportunidade como eu, então fui pedir a escritores para contarem histórias e dei esses textos a outros ilustradores que também queriam ver os trabalhos publicados", continua.

E a artista descreve todo o processo criativo: "É um projeto de que me orgulho muito. Fui à UNESCO pedir apoio e a creditação de que este projeto iria ser uma mais-valia, propus juntar 55 escritores do Brasil, Angola, da Guiné-Bissau, entre outros, e fui buscar ilustradores de todos os países lusófonos para contribuírem para a obra. Faltava uma editora e a Chiado Editora fez um donativo de mil unidades, o que é fora do comum. Como não podia sair do país, e África é a minha paixão, arranjei uma associação que pudesse interceder e trabalhar no campo. Nem eu, nem os autores recebemos um cêntimo pelo trabalho, a não ser o orgulho de participarmos em algo tão grande e tudo o que foi arrecadado foi para a reconstrução de uma escola na Guiné-Bissau".

"Escola e educação têm tudo a ver, escola é educação, escola é oportunidade, então isto foi um ciclo de oportunidades. Deram-me a oportunidade de começar e dei a oportunidade a outros de começarem o sonho deles. E através da realização dos sonhos dos outros eu realizo-me também", acrescenta a autora, frisando que a ilustração "é uma realização pessoal".

Neste momento, o trabalho desenvolvido por Carla Monteiro centra-se essencialmente na ilustração para livros infantojuvenis. Um gosto que justifica prontamente: "É realmente algo que me cativa, principalmente por causa do feedback, que é completamente diferente. As crianças não são muito exigentes. Desde que imagem as cative, elas realmente são ótimas a deslindarem e a interpretarem a história e o que vai acontecendo. Já fiz alguns trabalhos para adultos, mas o que me concretiza mais é trabalhar para as crianças, pois posso ter a idade que eles têm. Se o trabalho se destina a crianças com cinco ou seis anos, posso brincar com a personagem como se a tivesse fisicamente e brincar com ela como se tivesse a idade de quem a vai receber depois".

A ilustradora assume-se como uma pessoa "de ânimo e alma", que gosta de "retratar alguma espiritualidade" e "de passar uma mensagem através das imagens". "Seja no mundo infantojuvenil, seja em outro tipo de ilustração, retrato sempre ou aquilo que falta ou aquilo que salta. O mundo precisa de amor acima de tudo. O amor não tem meio-termo, ou existe ou não. Não se ama pela metade. Então, o meu trabalho reflete exatamente isso, o Amor", complementa.

Apesar da grande paixão, Carla Monteiro não consegue trabalhar exclusivamente na ilustração. E aponta um motivo: "O feedback é que não estou na moda". "Estar na moda é usar o digital. Não tive a possibilidade de aprender a trabalhar com o digital, mas já fiz a experiência e não é a mesma coisa para mim. Eu trabalho com a sensibilidade, com sentimento. Se não sentir, não vou conseguir fazer o trabalho", reconhece a ilustradora, ressalvando: "Não consigo fazer mais e melhor porque não tive formação na escola de Belas Artes. Queria poder fazer coisas muito mais realistas, mas não tenho essa capacidade e o que vou desenvolvendo é fruto da maturidade que ganho com a prática que vou tendo. Que é quando? Quando o meu filho vai dormir ainda aguento vir desenhar, é abdicar da hora de almoço ou do lanche".

A também psicóloga trabalha ainda de uma forma tradicional, recorrendo a elementos muito básicos, como a fazer picotagem com esponja, carimbos com a batata. "Uso estes materiais porque é mais barato. Nem sempre há dinheiro para material. Não há dinheiro, às vezes, para o básico da vida, para uma boa alimentação, quanto mais para bom material", afirma a artista, contando que a palete de aguarelas com que trabalha custa cerca de 100 euros e foi "um donativo de uma senhora de Valongo".

"Quando me apercebi que ia fazer 20 anos de carreira, quis preparar a exposição que está patente na Câmara Municipal e na Biblioteca Municipal, mas não tinha dinheiro e fui pedindo e as pessoas foram dando material. Tenho quase cinco mil euros investidos em tempo e material, sem contar a valorização da obra", salienta a autora, deixando um desejo: "Gostava que fosse um bocadinho mais fácil. Peço apoios para material, para expor, mas tirando a Biblioteca e a Câmara, que vão dando espaço, não acontece. Para fazer uma exposição decente é preciso molduras, é preciso que a obra esteja bem apresentada, é preciso bom material, porque se deteriora rapidamente ao longo dos anos. Os últimos anos têm sido assim. No meu aniversário peço um bloco, e um bloco custa 25 euros. Prefiro pedir material a outras coisas".

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