Valongo: Um território a descobrir

Vigia das serras em Valongo é feita por jovens a cavalo

Grupo de jovens faz a vigia a cavalo das serras do Porto

Quando o céu está limpo, num dos pontos de vigia na serra de Pias a paisagem abrange as cidades de Gondomar, Porto, Maia e Matosinhos até ao mar

Vista de Pias para a serra de Santa Justa

A Câmara Municipal e o Centro Hípico de Valongo desenvolvem, há vários anos, uma parceria no sentido de assegurar a vigilância a cavalo das serras do concelho, a fim de detetarem focos de incêndio e preservarem o património florestal. Um patrulhamento feito maioritariamente por crianças e jovens.

O verão é sinónimo de sol, calor e praia, mas é também uma época muito propícia a incêndios, especialmente em locais com uma vasta mancha florestal, muitas vezes de difícil acesso, como acontece em algumas partes das serras do concelho de Valongo. Nesses casos, uma ação atempada quando há vestígios do mais pequeno foco de fumo pode evitar estragos maiores.

Por essa razão, há vários anos a autarquia tem vindo a estabelecer um protocolo de colaboração com o Centro Hípico de Valongo, que vigora nos meses de julho, agosto e setembro, no sentido de este fazer a vigilância a cavalo das serras do concelho e assim ajudar a preservar o património florestal das serras do Porto, em especial, as de Pias e Santa Justa.

"Vamos no oitavo ano consecutivo do projeto que está protocolado com a Câmara Municipal de Valongo. Diariamente cerca de 20 jovens, divididos em vários grupos ao longo do dia, sempre em horários diferentes, vão fazer o patrulhamento", explica ao JN Miguel Brandão, responsável técnico do Centro Hípico de Valongo e também um dos responsáveis pela iniciativa que envolve a Câmara Municipal, a Proteção Civil, os Bombeiros Voluntário e a própria GNR de Valongo.

"Este ano, para além dos meninos do Centro Hípico, com idades dos seis aos 18 anos, alguns deles de meios desfavorecidas ou em risco na sociedade, temos voluntários da delegação Norte do Instituto Português do Desporto e Juventude, dos 18 aos 30 anos, a fazer também o patrulhamento nos mesmos moldes", avança o professor de equitação.

A Proteção Civil do concelho promove no início de junho uma ação de formação no Centro Hípico, na qual fornece as coordenadas do projeto e todo o processo que deve ser feito pelos voluntários quando é descoberto um foco de incêndio. Para a serra só vão equipados com binóculos e dois telemóveis, que só permitem chamadas para os números de emergência e centro hípico para não haver distrações. Chegados aos pontos de vigia, tentam localizar e sinalizar qualquer foco de fumo. Se tal acontecer contactam a Proteção Civil e os bombeiros a informar do incêndio.

E se este ano tudo permanece calmo pelas serras do concelho, no ano passado os foram várias as vezes que tiveram de dar o alerta. "Infelizmente ocorreram muitas situações destas e alguns dos nossos jovens deram pelos focos de incêndio e contactaram as autoridades para virem combater o fogo", recorda o responsável pelo Centro Hípico.

Uma vez que passam o verão a vigiar as serras, os jovens tomaram a iniciativa de alargar horizontes no que à prevenção do território diz respeito e assumiram também a responsabilidade de cuidarem do meio ambiente. "Para além de estarem atentos aos incêndio, eles aproveitam o conhecimento que têm das serras para detetar e recolher algum do lixo que encontram pelos caminhos que percorrem", conta Miguel Brandão, avançando que os detritos são depois encaminhados pela autarquia para o devido tratamento.

"Há falta de educação e de respeito pela Natureza e por valorizar as árvores e os caminhos. A serra de Valongo, este ano, está mais limpa, mas falta muito ainda. Um monte de lixo é um bom meio para se expandir um incêndio. Mesmo com todos os pontos de reciclagem espalhados pelo concelho, as pessoas atiram sofás, roupas, baús, entre outras coisas, para a floresta. No ano passado tivemos aqui um proprietário de um café a deitar garrafas e entulho. Valongo tem empresas como a Lipor que tratam o lixo, deviam ser elas a tratar desses resíduos e não a Natureza", lamenta o professor, enaltecendo a atitude dos alunos em contribuírem para um planeta mais sustentável.

E para fazerem parte deste projeto, que funciona à base do voluntariado, as pessoas têm de saber andar a cavalo ou pelo menos não ter medo de montar e mexer com animais. Podem candidatar-se através das plataformas do IPDJ, da Câmara Municipal de Valongo ou dirigirem-se diretamente ao centro hípico, sejam residente em Valongo ou não, e fazer a inscrição.

Ricardo Barros, de 17 anos, é um desses voluntários. Começou a fazer hipismo aos dez anos, depois de ver um cartaz do Centro Hípico à saída da escola, e desde aí nunca mais largou os cavalos. Por isso, é com todo o prazer que diariamente sai montado na égua "Guffy" para ajudar a preservar as serras de Valongo. "Em mais sítio algum se encontra este tipo de educação. Tanto nos ensinam a preservar as serras, como a marcar o lixo para mais tarde vir a ser recolhido. Estamos sempre com constante atenção aos incêndios florestais e a chamar a atenção dos transeuntes que estejam de qualquer forma a poluir", diz o jovem, mostrando-se determinado, senão em mudar o Mundo, pelo menos a mudar as serras de Valongo.

"Já nos sentimos todos um bocado na obrigação de vir fazer o patrulhamento e de vigiar as nossas serras", avança Ricardo Barros.

No âmbito do voluntariado, este aluno faz patrulhas em várias alturas do dia, mas as preferidas são as ao entardecer. "À noite é muito interessante fazer a vigia, a perspetiva que temos é completamente diferente da que temos de dia", explica o jovem aluno, salientando que "a vigia a cavalo junta o útil, a vigia das serras e a constante atenção aos incêndios florestais, ao agradável, que é estarmos em conexão com os nossos animais de eleição".

Mas no Centro Hípico não são só os humanos a terem tarefas definidas. Se a estes compete a vigilância a cavalo e limpeza das serras, já às cabras, ovelhas e vacas que lá habitam cabe a função diária de dar um desbaste às malditas plantas invasoras que povoam as encostas das serras. "Os animais fazem uma limpeza natural e biológica de algumas infestantes e de algumas árvores que não são bem-vindas na floresta, como a acácia e as mimosas, que são também postos de combustão. Há 30 anos, quando havia grande pastoreio nas serras, a limpeza era natural e os próprios pastores vigiavam e as guardavam. Agora são precisos projetos como este para preservar o que é de todos", finaliza Miguel Brandão.