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Conteúdo Patrocinado"Marias Paperdolls"

Bonecas de papel contam histórias pelas mãos de Cláudia Nair Oliveira

Bonecas de papel contam histórias pelas mãos de Cláudia Nair Oliveira
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A artista plástica Cláudia Nair Oliveira, natural de Valongo, iniciou em 2011 o projeto Marias Paperdolls, através do qual dá vida a história de mulheres interessantes e promove a tradição portuguesa criando bonecas feitas com pedaços de papel de jornal e de folhetos.

"Faço trabalhos de bonecas em papel, sempre com a ideia da reciclagem em mente, porque acho que existe lixo a mais e temos de o reutilizar. Conto histórias através delas e procuro também histórias a partir de mulheres que tenham tido vidas muito interessantes. A inspiração vem das mulheres e dos materiais", começa por explicar a artista plástica Cláudia Nair Oliveira, contando que o projeto denominado Marias Paperdolls arrancou em 2011, juntamente com mais duas colegas. Desde aí até agora, das mãos desta criadora, no atelier 11 do CACE Cultural do Porto, bem junto ao Freixo e com vista privilegiada para o rio Douro, saíram tantas "Marias" que já se perde na conta. Mas, tem uma certeza: "São sempre todas diferentes".

Ciente das dificuldades que os artistas plásticos enfrentam em Portugal para dar visibilidade à arte que criam, Cláudia Nair Oliveira lamenta que "nem sempre as pessoas percebam o conceito por detrás das bonecas", pelo que tem a necessidade de as conquistar. "Uma conquista que tem sido muito lenta", reconhece, mas que tem vindo a dar frutos. "Sinto-me muito feliz com o crescimento que todo este trabalho tem tido", salienta a artista plástica.

A correr bem, o processo de criação de uma Marias Paperdolls demora, em média, dois dias, isto "se o tempo estiver bom. Se estiver mau, leva um pouco mais de tempo por causa da secagem". "Mas há aquelas bonecas que começo a pintar e pelo meio as coisas se tornam complicadas e fico bloqueada", anota a criadora, contando que busca inspiração "em mulheres extraordinárias".

"A Florbela Espanca, por exemplo. Adoro os poemas dela e quis apresentar alguns que me tocam profundamente, então fiz uma coleção de 11 bonecas em que todas tinham poemas", avança Cláudia Nair Oliveira, anotando que também criou uma boneca em homenagem a Gisberta, a transexual brasileira, agredida e assassinada por jovens, no Porto, da qual conhecia pouco a história. "Procuro sempre muita informação e faço muita pesquisa, pois há histórias que no início não nos parecem interessantes, mas depois a pesquisa torna-me mais próxima da personagem e permite-me realmente conhecê-la. São histórias de vida maravilhosas", salienta a artista plástica.

Entre as várias coleções, destacam-se as de Amália Rodrigues, Frida Kahlo ou Maria Madalena. "A boneca reflete sempre a minha forma de ver essas mulheres. Não procuro fazer caricaturas, procuro perceber a história, conhecer a personagem e só quando me sinto completa de informação é que consigo criar e depois não sai só uma, mas várias", realça, justificando o porquê de fazer uma coleção: "O processo normal são dois dias, mas quando faço uma pesquisa para uma personagem destas nunca vejo só uma ou duas imagens, há uma pesquisa enorme de imagens, porque é o que me vai dar ideias para recriar o aspeto visual, mas depois há aquela informação toda, porque são histórias encantadoras. É impossível recriar só uma Amália Rodrigues, pois foi uma mulher tão grande e ainda é. Fico apaixonada pela vida destas personagens".

E a criadora continua: "Quando fiz a coleção das Divas da Música, a Maria Callas foi uma das mulheres que não ouvia, mas é impossível não ficar apaixonada pela música e por uma história daquelas".

Mas não é só na vida de grandes mulheres que se baseia, o azulejo português é outra das fontes inesgotáveis de criatividade. "Sou apaixonada pela azulejaria portuguesa. Em qualquer sítio encontramos inspiração, pois são tão diferentes uns dos outros e todos tão bonitos. É impossível passar por um azulejo e ficar indiferente. A minha coleção nunca mais vai acabar, porque há sempre mais um azulejo bonito para recriar. E é fácil levar Portugal para o estrangeiro através da azulejaria ou dos trajes de Viana, porque o que é nosso lá fora faz um sucesso incrível", frisa a artista plástica.

Também Valongo, a terra Natal de Cláudia Nair Oliveira, tem sido motivo para das asas à imaginação. "Numa boneca recriei toda a fauna existente em Santa Justa, fiz imensas padeiras, com as quais me diverti imenso e que foram quase todas vendidas, e também recriei a festa dos bugios em Sobrado, cuja coleção ficou maravilhosa e se vendeu muito bem. Pese ser uma festa masculina apresentei Marias e eles aceitaram muito bem. Eu e Valongo temos crescido juntos, porque tenho desenvolvido vários trabalhos inspirados na minha terra", refere a artista.

Toda a paixão que coloca no que faz é uma das razões pelas quais tem dificuldade em se desprender das criações. "Quando estou em feiras internacionais costumo dizer que estas são as minhas filhas, pois na realidade têm mesmo muito de mim. É papel, é um simples objeto, mas que leva muito amor, muita dedicação, muito tempo", anota, reconhecendo ter perdido a conta às bonecas que criou ao longo destes oito anos.

"Ainda na semana passada uma pessoa publicou uma imagem com bonecas minhas das quais já não me recordava que tinha feito. Já fiz imensas e tento fazer sempre coisas diferentes para não me cansar e para que a pessoa que recebe este meu trabalho se sinta especial e único. A gratificação e a felicidade dessas pessoas é algo que me faz largar as bonecas, porque vejo que vão ficar em boas mãos", frisa a criadora.

As bonecas de papel idealizadas por Cláudia Nair Oliveira já conquistaram a França e a Itália, mas é ao Oriente que quer chegar. "Quero muito o Japão. Já é a terceira vez que o meu trabalho vai para lá, em julho vou novamente. Os japoneses são muito exigentes e perfeccionistas e no dia em que o meu trabalho for aceite por lá, significa que atingi um grau elevado neste meu caminho", conclui a artista plástica.