O Jogo ao Vivo

Conteúdo Patrocinado

Brinquedos em chapas há um século a serem produzidos em Alfena

Brinquedos em chapas há um século a serem produzidos em Alfena
Produzido por:

Quase 100 anos depois de José Augusto Júnior ter dado os primeiros passos na criação do brinquedo artesanal português, na freguesia de Alfena, em Valongo, o neto Júlio Penela continua a manter viva uma herança familiar que já vai para as mãos da quarta geração.

"O brinquedo é a porta para a imaginação". A frase está estampada em azulejo no mural existente à entrada da fábrica Bruplast, em Alfena, concelho de Valongo, e reflete a missão da empresa outrora denominada Plásticos Pe-Pe Brinquedos, que, nos dias de hoje, ainda dá vida aos brinquedos artesanais portugueses, mantendo viva uma herança familiar que começou pelas mãos de José Augusto Júnior.

Corria o ano de 1921 quando o artesão fundador começou a moldar folha de flandres - um material laminado composto por ferro e aço revestido com estanho, muito utilizado no fabrico de latas para alimentação - e a transformá-la em objetos que faziam as delícias das crianças, numa época em que poucas eram as que tinham acesso a tal luxo. "O primeiro brinquedo a ser criado pelo meu avô foi a gaita com asa, toda feita em folha de flandres", recorda Júlio Penela, gerente da fábrica e neto de José Augusto Júnior, avançando: "A partir daí começaram a nascer os mais variados brinquedos em chapa e madeira da marca JAJ. Tudo feito de forma artesanal, processo que mantemos até aos dias de hoje".

O atual gerente recorda como surgiu a ideia inicial. "O meu avô baseava-se nas crianças e era um visionário. Em Portugal pouco brinquedo havia e ele ouvia falar que na Alemanha e Japão faziam brinquedos em folha de flandres e decidiu arriscar. Fez os cortantes e os moldes à mão e, de forma muito artesanal, começou a criar brinquedos lindíssimos", explica Júlio Penela, continuando a história da família: "Primeiro fazia o projeto do desenho que queria e depois fazia o molde em chapa e em madeira. Não tinha conhecimentos de desenho, por isso alguns ele copiava, mas outros eram inventados por ele".

E imaginação era algo não faltava ao artesão. "Lembro-me de uma história que o meu pai me contou, de que os militares tinham vindo aqui perto para o monte 14 fazer a semana de campo. Nessa altura não havia muitos automóveis, eram as carroças puxadas a cavalo. Ele mandava o meu pai, às escondidas, tirar fotografias para depois dessas fotos tirar o modelo para as carroças de brincar. Era assim que ele funcionava. Tudo servia para ele fazer um brinquedo. Pensava-se um pouco em como o construir e depois concretizava-se essa ideia", refere o proprietário, que herdou do avô o gosto pelo desenho de brinquedos.

Com o passar dos anos, os modelos foram sendo aprimorados e, em meados da década de 50 do século passado, ainda com o fundador ao comando, a empresa introduziu o plástico, começou a fabricar brinquedos em maior quantidade e passou a ostentar a sigla "JATO". "Em 1977, passou para as mãos do meu pai e do meu tio e passou a ser conhecida por PEPE, de Penela e Penela. A partir daí, começaram a nascer todos estes brinquedos, que são um misto de plástico e de folha de flandres, que resistem até aos dias de hoje e já vão na quarta geração", continua Júlio Penela.

Com a chegada do plástico, os modelos tornaram-se mais perfeitos e bonitos e passaram a incluir algumas funções extra, como portas, tetos e capôs dos carros a abrir, num processo evolutivo que perdura até aos nossos dias. Atualmente, os brinquedos em chapa são muito procurados por colecionadores e alguns particulares.

Embora seja graças à produção de artigos de plástico para a indústria que a Bruplast consegue manter a sustentabilidade, o neto do fundador está apostado em seguir a tradição familiar. "Temos a vontade de continuar a produzir brinquedos artesanais, que provocam alguma nostalgia quer nas pessoas mais idosas, quer nas mais jovens na altura, e que ainda encantam as crianças de hoje", afirma Júlio Penela, salientado a importância de manter viva esta arte: "Os mais novos não têm memória destes brinquedos, mas ficam curiosos quando visitam a empresa e querem saber como são feitos. Quando lhes mostro a parte do fabrico ficam encantados e associam os objetos aos tempos dos avós. E, então, quando têm a oportunidade de montar esses brinquedos, já não querem ir embora, porque têm muita mão-de-obra e gostam de participar no processo de criação".

Mas não só são os mais jovens que podem dar vida à imaginação. Júlio Penela dá formações em escolas (geralmente gratuitas), empresas, "numa ou outra festa" e na própria fábrica, abertas a todos os que queiram aprender a construir um brinquedo artesanal de raiz. "Nestes workshops as pessoas fazem o brinquedo do princípio ao fim. Desde cortar a chapa, à pintura e montagem do brinquedo. E quando saem daqui levam o seu próprio brinquedo e ficam encantados", anota o artesão, que em breve abrirá um parque temático dedicado ao brinquedo tradicional português que produz.

Mas, o que o empresário quer mesmo ver concretizado é um museu que exponha o produto desta arte nascida nesta terra. "Está previsto para 2019 a Oficina do Brinquedo, criada com fundos comunitários e da Câmara Municipal de Valongo, no qual será possível ver artesãos a trabalhar e estarão expostos todos estes brinquedos, bem como os trabalhos de outras marcas existentes no concelho", refere Júlio Penela, finalizando: "A única que para já faz esse trabalho ao vivo é a minha e estará presente na Festa do Brinquedo, que se realiza de 28 a 30 deste mês, em Alfena".